Cidade de Deus: Os 10 anos de um verdadeiro clássico

Até parece que foi ontem que assisti a Cidade de Deus pela primeira vez. Lembro que, após sair do trabalho, aceitei o convite de alguns amigos para ver o filme num cinema de Arujá, na Grande São Paulo. Fui sem pestanejar, afinal, tinha lido sobre o furor que o longa havia causado em Cannes; tinha gostado de Menino Maluquinho e de Domésticas, trabalhos anteriores do diretor Fernando Meirelles; e, principalmente, achei o trailer, que havia visto semanas antes, empolgante.

Pois bem… Quando cheguei ao cinema (que se encontra desativado atualmente), deparei-me com um cenário nada animador: poltronas velhas e rasgadas, sala com cheiro de mofo e uma tela que estava longe de ser comparada às dos muitos complexos atuais. Assim que o filme começou a ser exibido, mais um problema apareceu, o sistema de som era péssimo. Tentei esquecer todos esses problemas apresentados acima e me concentrar nos trailers antes da sessão.

Assim que a primeira cena de Cidade de Deus apareceu na tela, percebi que não veria um filme qualquer. Aquela imagem de uma galinha sendo perseguida freneticamente por um bando de traficantes pelos becos da favela me empolgou logo de cara… Que fotografia! Que montagem!

De repente, a pobre ave é encurralada: de um lado o grupo liderado pelo traficante Zé Pequeno; do outro, o amador fotógrafo adolescente Buscapé, que, assim como a galinha, também não desejava ser apanhado pelos meliantes. Em seguida, a câmera gira e somos transportados até o final da década de 1960 para entender como a história chegou a este ponto.

Naquela época, o Conjunto Habitacional Cidade de Deus estava em expansão. Na medida do possível, pais de famílias e traficantes conviviam em plena harmonia. Entre os principais moradores do local, destacam-se Dadinho, Bené, Cabeleira e Marreco que, com o desenrolar da história, que se estende até o início dos anos 1980, tornam-se  os principais protagonistas do filme.

Dadinho vira Zé Pequeno e tem Bené como seu fiel escudeiro no tráfico, mesmo tendo personalidades distintas: o primeiro assustador, cruel e com um rosto que serve como repelente para as mulheres; já o segundo, apesar de também ser traficante, é boa praça, respeitado por toda a comunidade e namorador.

Outros personagens, como Cebola, Mané Galinha, Angélica e Tiago também têm papéis fundamentais na trama. Bem, o desenrolar do filme todos conhecem, e retratar mais a história seria chover no molhado. O que importa mesmo é que, ao fim daquela sessão, fiquei perplexo com o longa que tinha visto.

Adaptado do livro de Paulo Lins, o roteiro é genial e traça com propriedade a ascensão do tráfico de drogas nas favelas do Rio de Janeiro. Esta história urgente e bem contada emociona e causa medo na plateia, principalmente, para os moradores das grandes cidades brasileiras, que logo se identificam com toda aquela violência e pela percepção de quão frágil é a vida, que pode facilmente ser tirada por um bandido, policial ou por uma simples criança.

E como eram talentosos aqueles atores de Cidade de Deus. Treinados por Fátima Toledo, eles atuaram como gente grande e, alguns deles, conseguiram até construir carreira na televisão e no cinema, caso de Darlan Cunha, Douglas Silva, Leandro Firmino da Hora e Alexandre Rodrigues.

Questionado por alguns sociólogos na época do lançamento, que diziam que o filme estilizava a violência e com isso não retratava corretamente a realidade social e econômica do nosso país, o filme de Fernando Meirelles logo recebeu o reconhecimento do público daqui e foi visto por mais de 3 milhões de pessoas nos cinemas do Brasil. Além disso, diversos diálogos do filme, como “Na mão, ou no pé?”, “Dadinho é o caralho, meu nome é Zé Pequeno, porra!”, foram repetidos à exaustão pelos brasileiros, o que se repetiria anos depois com Tropa de Elite.

O reconhecimento da crítica estrangeira também impressionou. O filme foi indicado ao Globo de Ouro de Filme Estrangeiro; fez enorme sucesso nos cinemas ingleses, sendo apelidado por alguns jornalistas britânicos de “Os Bons Companheiros da América do Sul”, levou o Bafta de Melhor Edição; e figurou em diversas listas como uma das melhores produções de todos os tempos. Veja alguns comentários da imprensa estrangeira abaixo:

“O filme impressiona (…). Cidade de Deus oferece ao espectador uma ardente e visceral visão da violência. Um nocaute visual e uma metralhadora na edição”. David Rooney, da Variety.

“Uma saga extraordinária. É uma sensação maravilhosa entrar numa sala de projeção para assistir a um filme de que pouco se sabe e perceber que se está diante de uma obra-prima”. Andrew Pulver, do The Guardian.

“O fato de Cidade de Deus levar a uma comparação com a obra de Scorsese já faz dele uma obra-prima. O filme é brilhantemente preparado, temperado e servido, em cenas que parecem ultrapassar a tela com o odor da batalha e com o angustiante desperdício da condição humana”. Nigel Andrews, do Financial Times.

E aí, acham que a produção agradou ou não à crítica mundial? Sem contar, claro, as quatro indicações ao Oscar de 2004: Melhor Diretor, Roteiro Adaptado, Montagem e Fotografia. Não levamos nenhum, afinal aquele era o ano da consagração da última parte da trilogia O Senhor dos Anéis, que arrematou todas as 11 estatuetas a que concorria. Mas, este reconhecimento do prêmio da Academia serviu para demonstrar que o Brasil era capaz de produzir filmes que pudessem concorrer em categorias importantes do prêmio e não apenas na de Melhor Filme Estrangeiro.

Após toda esta repercussão mundial, Cidade de Deus projetou a carreira internacional de vários de seus envolvidos. Fernando Meirelles partiu para dirigir a emocionante e elogiada produção O Jardineiro Fiel, proporcionando ótimas atuações a Ralph Fiennes e a Rachel Weisz; em seguida adaptou para as telas o livro Ensaio sobre a Cegueira, de José Saramago, desta vez dividindo opiniões de crítica e de público; e, em breve, voltará com 360, nova parceria com Rachel, que também terá Jude Law e Maria Flor no elenco.

Alice Braga (Angélica) deixou a sombra da tia (Sonia Braga) para trás e se revelou uma ótima atriz. Seja em produções nacionais, como Cidade Baixa, de Sérgio Machado, e A Via Láctea, de Lina Chamie; como em longas internacionais, entre eles o já citado Ensaio sobre a Cegueira, e Cinturão Vermelho, do respeitado cineasta David Mamet. Em breve, Alice também poderá ser vista em Na Estrada, de Walter Salles, ao lado de Kristen Stewart, Sam Riley e Kirsten Dunst.

Outro que também se destacou internacionalmente foi ator e cantor Seu Jorge (Mané Galinha), que participou de A Vida Marinha de Steve Zissou, de Wes Anderson, e do policial independente The Escapist, ao lado de Joseph Fiennes e Brian Cox. Sem contar, o montador Daniel Rezende, que também se estabeleceu como um dos profissionais mais requisitados da sua categoria, inclusive, sendo um dos responsáveis pela edição de A Árvore da Vida, de Terrence Malick.

Recentemente, revi o filme para escrever este texto em homenagem aos seus 10 anos, celebrados a partir da Premiere Mundial em Cannes no dia 18 de maio de 2002. E a sensação foi a mesma de quando o assisti naquele velho, desconfortável e nada saudoso cinema.

É impressionante como o longa mantém a atualidade e dialoga tão bem com a plateia, servindo como um ótimo painel para se analisar a violência dos grandes centros urbanos. As mortes de Bené e de Cabeleira ainda emocionam; a expressão de psicopata de Zé Pequeno permanece assustadora; o choro do menino, antes de levar um tiro, ainda revolta; e a cena de estupro ainda causa asco.

Mesmo que passe 10, 20, 30 anos…Tenho certeza de que o filme de Meirelles será lembrado e comentado pelas novas gerações. E ainda veremos suas influências em outras produções brasileiras e estrangeiras, principalmente naquelas que retratam favelas e tráficos de drogas.

Uma década após a sua estreia, Cidade de Deus ainda nos impressiona, nos enche de orgulho e permanece atual… Como um verdadeiro clássico do cinema.

Share on FacebookTweet about this on TwitterShare on Google+Share on TumblrEmail this to someone

Jornalista, fã incondicional de Nick Hornby e coautor do livro inédito Cine Belas Artes: Um Olhar Sobre os Cinemas de Rua de São Paulo. Ainda não viu nada melhor que Asas do Desejo, de Wim Wenders... Mas Beleza Americana chegou perto. e-mail: cristiano@setimacena.com