Cuidado: spoilers!

Atenção: se você é uma pessoa sensível a (pequenos) spoilers, talvez seja melhor parar de ler este texto agora, ok? Caso opte por prosseguir, tenha consciência de que está por sua própria conta e risco, mas prometo que vou me esforçar para não entregar nada que seja muito grave, a menos que você tenha ficado em coma ou acorrentado em uma caverna nas últimas décadas.

Um dos termos mais populares entre o público de cinema e TV (mas não limitado apenas a ele) é o Spoiler. Esse vocábulo em inglês deriva do verbo “to spoil” (estragar) e trata exatamente de alguma revelação que pode arruinar a experiência do público se vier à tona antes do tempo. Embora muita gente pense que o termo surgiu na era da internet, na verdade ele existe pelo menos desde 1971, tendo sido visto na mídia pela primeira vez na revista americana de humor National Lampoon, em um artigo chamado “Spoilers”, assinado por Douglas Kenney (roteirista de Clube dos Cafajestes e Clube dos Pilantras), no qual ele listava diversas revelações de filmes famosos.

Capa da National Lampoon de abril de 1971, que contém o artigo "Spoilers"

Capa da National Lampoon de abril de 1971, que contém o artigo “Spoilers”, de Douglas Kenney

No entanto, a ideia de spoiler provavelmente surgiu muito antes do artigo, tendo em vista que já em 1960, quando Alfred Hitchcock lançava seu clássico Psicose, ele costumava pedir a todos que não revelassem os segredos da trama, exatamente para não estragar a experiência daqueles que fossem assistir ao filme pela primeira vez. De qualquer forma, é inegável que a chance de ser atingido por um spoiler na era da internet é muito maior do que nos anos 60, principalmente se você utiliza com frequência as redes sociais.

Há alguns dias, recebi um spoiler gratuito de um contato do Facebook que achou tudo bem comentar em aberto sobre a morte de um personagem da série de TV e de livros Game of Thrones. O personagem em questão ainda não morreu no seriado, mas nos livros que deram origem ao programa de TV sim. Comentei que era um spoiler para quem só acompanha a série televisiva e fui rapidamente lembrado que aquele era “um perfil pessoal e que continha spoilers de todo o tipo de toda a trama dos livros”, e que eu estava avisado. Tudo bem, eu não estava avisado antecipadamente, mas de fato, era um perfil pessoal e cada um faz o que quer no seu perfil. Desassinei o feed dessa pessoa, mas minha experiência foi estragada, de qualquer forma.

Ainda no Facebook, num outro dia, vi uma amiga comentando que uma página tinha acabado de revelar um mega spoiler de uma famosa série de TV ao publicar uma imagem que revelava a bissexualidade de um dos personagens, mas comentarei melhor sobre esse caso específico mais à frente. De qualquer forma, essa prática tem se tornado cada vez mais comum até mesmo em páginas especializadas sobre cinema, séries de TV, literatura etc.. Há pouco tempo, várias dessas páginas especializadas publicaram uma imagem de um dos personagens da série animada Uma Família da Pesada que morreria na história. Qual a necessidade de escancarar uma revelação assim, sem dar ao público a opção de querer ou não recebê-la? Ao me questionar sobre isso, cheguei a outra dúvida…

Será que as pessoas sabem mesmo o que é um spoiler?

Primeiro, é preciso sempre se lembrar do significado do termo: spoiler é aquela revelação que estraga a experiência do público. Revelar que algum personagem morre, ou a sexualidade desse personagem, ou o final de determinada história, por exemplo, nem sempre pode ser considerado spoiler. Um bom exemplo é a imagem abaixo.

A brincadeira de revelar que Jesus morre na bíblia é determinante para entendermos a gravidade de um spoiler. Todo mundo (ou pelo menos o Ocidente inteiro) sabe que Jesus morreu. Isso não é um spoiler. Assim como revelar hoje que o Jack de Titanic, interpretado por Leonardo DiCaprio, morre no fim do filme. Digo hoje, porque na época em que o filme foi lançado seria injusto com quem ainda não o havia assistido. Hoje, depois que o filme passou mais de uma década como a maior bilheteria da história do cinema e permanece ainda na segunda colocação, isso já não é considerado um crime inafiançável. Podemos dizer o mesmo sobre a morte do personagem interpretado por Kevin Spacey em Beleza Americana (1999), de Sam Mendes. Não faz o menor sentido alguém reclamar de spoiler nessa situação, já que a morte dele é anunciada no início do filme.

Spoiler tem prazo de validade?

Sim, mas ele vai depender de inúmeros fatores, sendo o principal deles o bom senso. Como estou escrevendo esse texto 17 anos após o lançamento de Titanic, em um blog de cinema (onde presume-se que a esmagadora maioria das pessoas o tenha assistido) e por ser o filme tão famoso quanto é, revelar que o protagonista do filme morre no final não é um spoiler. Mas apenas nessas condições.

Se eu estivesse numa conversa com alguém mais novo, que ainda não teve a chance de assisti-lo, ou alguém que não tenha o costume de assistir a muitos filmes e por algum motivo não o viu, certamente eu me censuraria em respeito a essa pessoa, que não precisa saber que o protagonista morre e, caso saiba, talvez não seja tão impactado por esse fato como seria se não recebesse a informação anteriormente. Ou seja, é preciso sempre ter bom senso.

Isso vale para todo tipo de obra, de qualquer idade. Definir o que é spoiler vai depender de muitos fatores, como eu disse, e a pessoa que tem o domínio dessa informação deve ficar atenta para não estragar a experiência de alguém, e pior, achar que está no direito de revelá-la (ainda que ela não seja importante naquele diálogo) apenas porque já se passaram X anos do seu lançamento.

E a gente sabe o que NÃO É um spoiler?

Nem sempre saber o que significa uma coisa automaticamente já te traz o conhecimento do que ela não é. Anteriormente, citei o exemplo da revelação da bissexualidade de um personagem de série de TV que foi revelada por uma página do Facebook. A questão é que essa informação, que pode ser ainda desconhecida pelo espectador, não altera em nada a experiência e o desenrolar da história que está sendo contada.

Tanto que na própria série, esse fato não é apresentado com um status de grande segredo. Ele simplesmente não tinha vindo à tona, e quando veio, não alterou em nada o rumo da narrativa. Temos aí um bom exemplo de um não spoiler. Não é porque um fato ainda desconhecido por você, quando contado previamente, se torna um spoiler. Lembrem-se, spoiler é o que estraga a experiência.

Lembrem-se do caso de Jesus na bíblia e do personagem do Kevin Spacey em Beleza Americana. Se não altera a experiência da apreciação daquela obra, não é spoiler. Jesus morre na bíblia, mas todo mundo sabe. O protagonista do filme de Sam Mendes também, e isso é revelado nos primeiros segundos do filme. A propósito, Brás Cubas também está morto, ok?

Spoilerfobia

O fato de uma revelação trivial ser enxergada como spoiler pode ser encarado como um mecanismo de defesa do público diante do excesso de revelações com as quais a gente acaba se deparando na internet. Criamos um escudo antispoiler que tem nos levado a achar que tudo o que lemos ou ouvimos sobre determinada obra já é um spoiler em algum nível. Quantos de vocês que estão lendo esse texto já começaram a indicar algum filme, série, livro ou game para algum amigo e enquanto começavam a contar sobre do que se tratava a obra não ouviram um “calma, não me conta nada, não quero saber os spoilers”? Hoje em dia, fazer uma breve sinopse apenas para apresentar algo para alguém já é considerado um spoiler.

Isso é um grande erro. Mas dá para entender essa spoilerfobia na qual vivemos. Muitas pessoas realmente perderam a noção do que é, de quanto tempo as pessoas precisam para assistir/ler/jogar/ouvir, e do impacto de um spoiler. E esse consumo desenfreado de histórias e a rápida propagação das discussões na internet faz com que muita gente entenda que “se estamos numa quarta-feira e você ainda não viu o episódio daquela série do domingo, não venha reclamar de spoilers!”. Se acalmem! A vida não é assim, ninguém é obrigado a ver tudo no dia em que foi lançado para ter o direito de não ter sua experiência estragada. Assim como não é justo acusar todo mundo de soltar spoiler quando na verdade a pessoa só está te contando o mínimo para que você conheça um pouco da história e se interesse ou não por ela.
Resumindo: é preciso bom senso de ambos os lados. Primeiro por parte de quem possui a informação, para que ela não estrague a experiência do outro. E depois, de quem vai recebê-la, para que confiem no bom senso dos primeiros.

Dia desses, no podcast Braincast, do site Brainstorm 9, enquanto um dos participantes comentava sobre a série House of Cards, da Netflix, ele fez uma brincadeira batendo duas vezes com a mão na mesa. Quem assiste à série, sabe que esse gesto é característico do protagonista Frank Underwood, vivido por Kevin Spacey, e não significa muita coisa além de uma mania ao se demonstrar empolgado com alguma de suas tramoias. É quase como se fosse um “YES!” ou “é isso aí!” que ele diz pra si mesmo, só que batendo duas vezes com seu anel na mesa.

Logo que esse gesto foi feito no podcast, outro participante que ainda não havia assistido à segunda temporada da série comentou dizendo que isso seria um spoiler. E, embora eu tenha quase certeza de que se ele próprio parar para pensar dois segundos vai chegar à conclusão de que não é, ele insistiu mais de uma vez, em outra situação, de que se tratava de um spoiler. Essa é uma reação típica de um spoilerfóbico, alguém que provavelmente já sofreu com algum grande spoiler e que agora reage da maneira mais defensiva possível, mesmo quando não se trata de uma revelação que vá estragar sua experiência.

Spoilers inconscientes

Até agora, esse texto falou mais sobre a visão de quem recebe um spoiler do que de quem faz a revelação. No entanto, é preciso entender que às vezes o dono da informação acaba revelando algo importante da trama sem a intenção de estragar a experiência. Tenho um amigo que, vez ou outra, quando conversamos sobre determinado ator (cujo nome não revelarei por motivos de: spoiler!), costuma dizer que é preciso ter cuidado ao assistirmos a um filme dele, pois ele costuma interpretar personagens que posteriormente apresentam uma reviravolta em sua personalidade, geralmente se mostrando como um mau-caráter. Cuidado: isso é um spoiler!

Outra revelação com a qual todo mundo já deve ter se deparado é com obras que apresentam os famosos plot twists, as reviravoltas de roteiro que acabam por revelar um rumo completamente diferente do que esperávamos para aquela história. Só para exemplificar, vou citar outro filme que ficou bastante famoso por isso e que já tem tempo suficiente para que a maioria dos leitores desse texto já saibam do seu final, que é O Sexto Sentido, do diretor M. Night Shyamalan. Imaginem a tristeza de receber antes da hora a grande revelação desse filme?

Ainda bem que neste caso não fui contemplado por um spoiler traiçoeiro e pude me surpreender positivamente com o roteiro. Mas é muito, muito comum que alguém comece a falar sobre algum filme e revele que ele tem uma reviravolta no final. Não importa que você não diga qual é a reviravolta, o fato de você alertar o público de que ela existe, é um spoiler, pois isso pode arruinar a experiência de assistir, ler ou jogar aquela obra. Se o filme possui uma reviravolta, é porque a narrativa apontou todo um caminho para o qual ela não se encaminhou no final. Se você avisa às pessoas de que essa reviravolta existe, elas simplesmente deixam de seguir as pistas erradas e já esperam pela grande revelação. Isso é um spoiler!

Spoilers em críticas

Uma reclamação bastante comum do público é de que alguns críticos, sejam eles de cinema, TV, literatura, games etc., costumam revelar pontos importantes da trama em suas análises, configurando assim um spoiler. No entanto, é preciso entender que as críticas são justamente a interpretação e reflexão desses críticos acerca daquela obra. E muitas vezes, para que possa apresentar sua interpretação, esse profissional precisa comentar detalhes importantes da trama.

Se você se importa com a experiência de saber dos pontos importantes de uma obra apenas ao ter contato direto com ela, por que você leria uma crítica sem ter acesso a essa obra primeiro? Para saber do que se trata tal obra, naquele primeiro instinto de descobrir se ela irá te interessar ou não, existem as sinopses, os teasers e trailers que te apresentam o básico da ideia, sem revelar nada de muito importante que possa estragar sua experiência.

Tudo bem que às vezes nos deparamos com algumas prévias que se parecem com sub-celebridades em sites de fofocas, ou seja, que revelam mais do que deveriam, mas aí o problema é a falta de bom senso de quem apresentou a ideia. Agora, o que não pode ser feito é ficar de choramingo porque o crítico X ou Y revelou algo importante em sua análise. Primeiro, você está lendo porque quer; segundo, é muito comum que os críticos, ainda que não precisem, alertem que irão revelar spoilers; terceiro, se você não sabe que uma crítica pode conter spoilers, está sendo avisado agora; e se você não sabia que as sinopses, teasers e trailers servem para te apresentar às premissas básicas de uma obra, já foi avisado no parágrafo anterior. Então, stop the mimimi!

(Cagando) Regras informais na cultura dos spoilers

  1. Tenha bom senso;
  2. Tenha bom senso mesmo;
  3. Spoiler é uma revelação que estraga a experiência. Portanto, se precisar fazê-la, avise com antecedência;
  4. A ideia de spoiler depende de vários fatores: época em que a obra foi lançada; conhecimento do receptor da mensagem; se essa revelação é realmente importante para ser feita, entre outros;
  5. Nem tudo o que você ouve é spoiler;
  6. Nem toda morte é spoiler;
  7. Anunciar reviravoltas (da narrativa ou de personagens) é spoiler;
  8. Respeite quem não quer receber spoilers. Ninguém é obrigado a receber uma informação só porque você a possui;
  9. Confie no bom senso de quem está te indicando algo. Nem sempre ela tem a intenção de te revelar um spoiler e acusá-la de fazer isso, principalmente se ela não estiver fazendo, pode ser bastante desagradável;
  10. Jamais, em hipótese alguma, se esqueça das duas primeiras regras.

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Jornalista e crítico de cinema. Coautor do livrorreportagem Cine Belas Artes: Um Olhar Sobre os Cinemas de Rua de São Paulo. Acha O Poderoso Chefão o melhor filme do mundo, mas torce todos os dias para assistir a algum que o supere. Ainda não encontrou, mas continua buscando. E-mail: carlos@setimacena.com // Letterboxd: @CarlosCarvalho