Invocação do Mal e as mesmices do terror

Acaba de ser lançado no Brasil o terror Invocação do Mal, dirigido por James Wan (Jogos Mortais e Sobrenatural) e estrelado por Patrick Wilson e Vera Farmiga. No filme, um casal vivido por Ron Livingston e Lili Taylor se muda com suas cinco filhas para uma casa que irão descobrir ser mal-assombrada. Lá, diversos eventos paranormais começam a acontecer. Portas batem, porta-retratos caem, ouvem-se barulhos estranhos, veem-se janelas abertas na madrugada, e sentem-se lençóis se mexendo e pés sendo puxados. Crianças gritam, há correria, sustos, uma figura monstruosa aqui e outra ali, e mais uma meia-dúzia de sustos, e mais correria e gritaria e fim, enfim.

Nesse meio tempo, o casal de demonologistas interpretado por Patrick Wilson e Vera Farmiga, Ed e Lorraine Warren, são chamados para estudar os acontecimentos que atormentam essa família e ajudar no que puderem, afinal de contas são autoridades no assunto. Foram eles que também estudaram o caso de Amityville, que virou livro e quase uma dezena de filmes. Sim, Invocação do Mal é mais um filme baseado/inspirado em acontecimentos reais.

O longa não traz nada que já não tenha sido visto em uma boa porcentagem dos filmes de terror lançados na última década, ou até mais. Não é ruim. Pelo contrário. Nesse estilo, apesar de todos os clichês e da história central batida, ele até que se sai muito bem, em especial em toda sua caracterização nos anos 70, com figurinos e direção de arte característicos. Mas ele é mais um exemplo do quanto o gênero está saturado e infestado de filmes sobre as mesmas coisas, e com todos os clichês de sempre. O terror precisa se renovar, seja lá como for.

Goste-se ou não, há alguns anos, até pareceu que o gênero ganharia novos ares quando o próprio Wan dirigiu Jogos Mortais. No entanto, ao transformarem o filme em uma série que parece não ter fim, o que se viu foi apenas repetições de uma mesma fórmula. Vez ou outra surge um exemplo desse tipo que conquista o público (e até a crítica) com alguma “novidade”, A Bruxa de Blair, [Rec], Atividade Paranormal… mas não demora muito para que quase tudo o que venha na sequência seja uma repetição da ideia original, seja em títulos diferentes com ideias iguais ou até mesmo uma franquia.

A Bruxa de Blair, que não deveria ter passado do primeiro, tem dois. [Rec] já tem três e está indo para o quarto. Atividade Paranormal já tem quatro e está partindo para o quinto. E ainda há os remakes (e quando o filme não é americano, certamente ele vai ganhar uma versão hollywoodiana), os reboots e as prequels. É uma repetição sem fim, um ciclo interminável de mais do mesmo. Não sei vocês, mas eu já não consigo mais comprar essas ideias e entrar no clima que deveria para curtir de verdade.

Medo x Susto

Há uma grande diferença entre sentir medo e tomar sustos. Arrisco-me a dizer que é fácil assustar as pessoas (esconda-se atrás de uma porta e, quando alguém passar por perto, apareça abruptamente). Por isso, também, os filmes de “terror” têm apostado numa fórmula muito mais voltada para grandes sustos do que para a criação de momentos de tensão suficientes para deixar o espectador pregado na ponta da cadeira, roendo as unhas e suando frio.

Um bom exemplo disso vem do próprio Atividade Paranormal. Quando o longa estava para ser lançado no cinema, o diretor Steven Spielberg recomendou à Paramount que refizessem a cena final do filme de Oren Peli, pois a sequência originalmente rodada não funcionaria muito bem nas telonas.

Ora, se há alguém que entende dessa indústria, por ter ele próprio ajudado a reinventá-la, é Steven Spielberg. No final original, a personagem Katie, após assassinar o namorado, fica sentada no quarto por horas e horas. Nesse meio tempo, sua amiga (ou irmã, já não me lembro mais) vai até a casa e acaba encontrando seu namorado morto. Na sequência há a chegada da polícia e o fim da história.

No final sugerido por Spielberg (e que foi para os cinemas), ela mata o namorado e o atira contra a tela (susto 1), vira-se para a câmera (ou seja, para o público na sala) com uma cara demoníaca e salta sobre ela (susto 2). Bingo! O final do cinema é o que conquista o público, que terá como última lembrança o ataque que sofre da protagonista possuída pelo demônio.

Há ainda um terceiro final, que deve ter entrado como extra na versão home-video (assim como o original), no qual ela volta para o quarto e, olhando para a câmera (o público), corta o próprio pescoço com a faca. Tanto o final original quanto esse último, alternativo, causam a mim muito mais medo do que o mostrado nos cinemas, que apenas me dá alguns sustos, que já não funcionam da mesma forma quando vistos mais de uma vez. Os outros são, psicologicamente, muito mais perturbadores.

Assista abaixo aos três finais de Atividade Paranormal.

Desconhecido x Figura demoníaca

Muitas vezes, vemos alguém comentando que os filmes de terror atuais não se tornam memoráveis quanto os clássicos do passado porque nesses o terror é apenas sugerido, e não mostrado. Embora faça algum sentido, confesso que discordo. Sim, acho que hoje a maior parte dos filmes opta por mostrar a figura demoníaca/sobrenatural, ao invés de apenas sugeri-la, e isso tira um pouco do encanto e, por consequência, derruba a qualidade do filme. No entanto, há clássicos que também mostram a figura monstruosa, a origem daquele terror. Provas disso são O Exorcista, de Willian Friedkin, e O Iluminado, de Stanley Kubrick, só para citar alguns.

A grande questão é como esse terror é construído. Tanto em O Exorcista quanto em O Iluminado, antes de o terror ser de verdade mostrado, você já está apavorado com o que pode vir. Quando o mal é apresentado de fato, ele continua sendo tão assustador quanto era quando desconhecido. Por quê? Porque tanto Kubrick quanto Friedkin entendiam do seu negócio, eram grandes mestres da narrativa e da linguagem cinematográfica. Construíam o suspense de suas tramas antes de transformá-la em um terror de fato.

Em ambos os filmes, até que a primeira cena de terror realmente aconteça, somos apresentados a personagens e situações que, aos poucos, anunciam o mal que está por vir. Seja subvertendo nossas expectativas ao nos mostrar personagens crianças, aparentemente inofensivas e angelicais (como também acontece em A Profecia, de Richard Donner) e que depois vão dialogar com o sobrenatural, ou com detalhes que muitas vezes passam despercebidos por muita gente, como uma trilha sonora que ganha força com a evolução da trama, ou até mesmo o silêncio absoluto em algumas cenas.

O inverso (não mostrar a figura monstruosa) também funciona, claro, desde que se saiba como criar toda a tensão. Um dos maiores exemplos disso é O Bebê de Rosemary, de Roman Polanski. Em nenhum momento somos apresentados ao filho do demônio. Jamais o vemos, em 136 minutos de filme. Mas, na nossa cabeça, o bebê é, de fato, monstruoso e aterrorizante. Mais uma vez, méritos do cineasta, que optou por uma narrativa por omissão, deixando para que nós mesmos criássemos a figura demoníaca.

“Ah, mas todos esses filmes que você citou foram feitos por grandes cineastas!”. Tostines vende mais porque é fresquinho ou é fresquinho porque vende mais? Será que eles não são considerados bons cineastas exatamente por terem feito grandes filmes, dentre eles os citados acima?

Suspense: o pai de todo bom terror

Dito tudo isso, volto mais uma vez a me arriscar nesse texto ao dizer que nenhum filme de terror é um bom terror se ele não tiver como principal característica o suspense. E veja bem, o suspense independe de se mostrar ou não a origem do medo, como já foi dito ali em cima. O suspense é tão somente o total desconhecimento (do espectador e/ou da personagem) sobre o que irá acontecer na sequência.

Quando vemos uma persona angelical agindo como um endemoniado, assustamo-nos por não esperarmos esse tipo de ação daquela personagem. O mesmo ocorre quando uma figura demoníaca age de forma doce e moderada, pois o que esperávamos era uma atitude mais agressiva daquele ser, seja ele qual for.

E ainda que você saiba o que virá na sequência, o suspense pode funcionar se os personagens daquela história não souberem. O fato de você ter um conhecimento que eles ainda não têm causa a apreensão em saber qual será a sua (do personagem) reação quando lhe for apresentado aquilo. Essa é a base do suspense: criar expectativas para o que virá a seguir.

Não à toa, Alfred Hitchcock é considerado um mestre nisso. Em Marnie: Confissões de uma Ladra, a personagem vivida por Tippi Hedren rouba um cofre em uma das cenas. Se aproveitando do momento em que todos os funcionários do escritório onde trabalha vão embora, ela parte para a ação. Na cena, Hitchcock poderia ter optado por acrescentar uma trilha de tensão composta por Bernard Hermann, mas ele praticamente tira todo o som da cena, nos colocando dentro daquele ambiente, quase que escondidos ali no chão, observando cuidadosamente o roubo.

Ao incluir a chegada da faxineira, somos apresentados à possibilidade de a protagonista ser pega durante o ato. Qualquer barulho pode ser crucial para que a senhora a pegue com a boca na botija. Apenas nós sabemos da presença das duas naquele ambiente. Tudo pode acontecer. Ao sair da sala, Marnie percebe a presença da faxineira e a tensão só aumenta. Cuidadosamente ela tira os sapatos e começa a escapar.

Quando percebemos que o sapato está para cair do bolso de seu casaco, mentalmente já podemos enxergar ela sendo pega. Mais tensão. Ele cai, uma nova surpresa: a senhora não ouve. Marnie escapa rapidamente pela escada e mais um funcionário aparece. E a tensão parece não ter fim, porque agora ela pode ser vista por ele. Mas rapidamente ele vai até a senhora e fala em um tom de voz muito mais alto do que o comum. Pronto, está justificado porque a velhinha não ouviu o sapato caindo e a fuga da protagonista.

O filme de Hitchcock não passa nem perto de ser um terror, é um drama de mistério. Mas esta cena traz muito mais suspense que a maioria dos filmes de terror lançados nos últimos anos. Portas batendo, lençóis sendo puxados e janelas abertas já não servem mais para criar suspense. Pelo menos não da forma como temos visto. Todas as vezes que vemos uma porta entreaberta, já sabemos: ela vai bater. Sempre que alguém está dormindo, prevemos: algo será puxado, lençóis ou pés ou os dois. Não há a tensão de não se saber o que virá na sequência.

E mesmo sabendo o que irá acontecer, isso poderia ser usado em favor da trama. Imaginem se um pé puxado não causasse um grito de susto, mas a reação da vítima fosse um “olá, sr. fantasma, há quanto tempo!”. Mas nem isso. Ação e reação são extremamente previsíveis. Iguais a tudo o que temos visto incessantemente no gênero nos últimos anos. Continuamos comprando as mesmas ideias, as mesmas histórias, com novos atores, novos diretores, novos títulos. Mas a mesma velha e (raríssimas vezes) boa história.

Mas se é sempre a mesma coisa, por que tantos filmes e tanto sucesso?

Acho que a questão é um pouco mais complexa do que essa. Biologicamente (e aqui estou conjecturando como um leigo), os filmes de terror, ainda que clichês, nos dão uma injeção de adrenalina enquanto os assistimos. É gostosa a sensação de sentir medo (ou tomarmos um susto) e depois aceitarmos a realidade de que aquilo é apenas um filme e não a vida real.

Isso explica, inclusive, porque tanta gente ri após as cenas mais tensas. Porque é gostosa a sensação de alívio que a luz do dia das cenas seguintes às de clímax nos trazem. É a mesma sensação dos esportes radicais, das montanhas-russas. Durante a descida, o salto ou a cena de medo, você tem certeza de que não quer repetir aquilo nunca mais na vida. Quando seus pés voltam a tocar o chão, quando a velocidade diminui, ou quando a luz do dia aparece, a primeira coisa que você pensa é: eu quero isso de novo!

“Eu quero isso de novo” talvez explique o porquê todas as fórmulas e clichês do terror são repetidas incessantemente. É mais fácil apostar no certo do que no duvidoso. Todo mundo sabe e os estúdios sabem isso melhor do que ninguém. Estão aí todas as sequências, prequels, remakes e filmes de super-heróis que não me deixam mentir. O mesmo acontece com o tão adorado terror.

A questão é até quando a gente vai aceitar ficar sentado na nossa zona de conforto de espectador, sentindo os mesmos medos, ao invés de testarmos medos novos? Enquanto a gente não se questionar sobre isso, continuaremos vendo a família que se muda para uma casa mal-assombrada, alguém da família sendo possuído, portas e janelas batendo, porta-retratos caindo e pés e lençóis sendo puxados. Se apenas isso te satisfaz, Invocação do Mal é um grande filme de terror.

E aí, por que você gosta de terror? Acha que o gênero merece uma renovação? Tem sugestões de bons filmes? Comenta aí embaixo!

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Jornalista e crítico de cinema. Coautor do livrorreportagem Cine Belas Artes: Um Olhar Sobre os Cinemas de Rua de São Paulo. Acha O Poderoso Chefão o melhor filme do mundo, mas torce todos os dias para assistir a algum que o supere. Ainda não encontrou, mas continua buscando. E-mail: carlos@setimacena.com // Letterboxd: @CarlosCarvalho

Comentários

  1. Diogo Bittencourt disse:

    Mais que baita texto e critica…Muito bom.