Medianeras e a boa fase do Cinema Argentino

Medianeras

Medianeras

Recentemente, tive a oportunidade de assistir a Medianeras – Buenos Aires na Era do Amor Virtual, outra ótima produção argentina que, mesmo tendo recebido diversos elogios de público e de crítica e ter ficado quase seis meses em cartaz, tinha deixado passar batido nos cinemas.

Corrigi este erro neste fim de semana, no Festival Sesc Melhor Filmes de 2012, e o melhor de tudo é que todos esses elogios são justos. Poucos filmes retratam os anseios dos moradores dos grandes centros urbanos como esse.

De forma simples, sensível e elegante Medianeras envolve o espectador, principalmente por contar com uma dupla de protagonistas afiada, simpática e carismática, que merece entrar para o rol dos melhores já visto no cinema. É, praticamente, impossível não se identificar logo de cara com Martin e Mariana.

Ao ver Medianeras, comecei a refletir sobre a atual situação do cinema da Argentina, e cheguei a conclusão que o país possui, atualmente, uma das filmografias mais interessantes do planeta. Seus filmes retratam, como nenhuma outra, a realidade local de forma visceral. Todos os problemas da classe média são escancarados de forma crua e contundente, mas com poesia e sensibilidade.

O Segredo dos Seus Olhos

Um exemplo disso é a produção O Segredo dos Seus Olhos, de Juan José Campanella, que recebeu o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2010. O filme, que se passa na década de 1970, em plena ditadura argentina, não tem medo de mexer nas feridas do povo local, pelo contrário, expõe sem dó nem piedade, corrupção do governo, estupro, impunidade… Até culminar num plano sequência magistral filmado em um estádio de futebol.

A repercussão do filme de Campanella se tornou maior após o prêmio da Academia, isso é fato. Mas, mesmo sem essa honraria, a produção se destaca pela sensibilidade e o respeito ao relatar os personagens. Em nenhum momento parece que os atores encenam.  A naturalidade sobressai em detrimento do exaustivo ensaio, característica frequente na curta e eficiente carreira do diretor, que além de O Segredo…, também dirigiu O Filho da Noiva (2001), O Mesmo Amor, A Mesma Chuva (2003) e Clube da Lua (2004).

Em comum nessas quatro produções encontra-se Ricardo Darín que, na última década, se tornou o rosto mais conhecido do cinema argentino graças a seu carisma, naturalidade e desenvoltura para encarnar personagens diversificados. Uma dessas marcantes atuações pode ser vista na produção Abutres (2010), de Pablo Trapero, no qual o ator interpreta um corretor desonesto que não poupa esforços para extorquir boa parte das indenizações destinadas às famílias das vítimas de acidentes de trânsito. A produção fez tanto sucesso que, em breve, ganhará uma refilmagem hollywoodiana.

Esse último trabalho de Trapero merece destaque por aliar uma narrativa ágil e bem fragmentada, com atuações brilhantes de Darin e Martina Gusmán, mulher do cineasta do lado de cá das telas. A atriz também pode ser vista em outro filme do diretor: Leonera (2007), produção que escancara a realidade das presas argentinas, que dão a luz na cadeia e tentam manter as crianças, o máximo de tempo possível, ao lado delas. Um filme forte e triste, que choca o público pela crueza da narrativa. Destaque para a participação de Rodrigo Santoro em pequeno, mas importante papel.

Leonera

O cinema de Pablo Trapero possui um vigor que se assemelha à filmografia do diretor brasileiro José Padilha, ou seja, produções fortes, repletas de violência que conseguem dosar entretenimento com questionamentos sociais. Mas Trapero também possui momentos de sensibilidade e delicadeza, características encontradas no seu filme Família Rodante (2004), que retrata com muito humor os problemas de uma família de classe média argentina que parte de Buenos Aires para tentar a sorte no interior do país.

Já a diretora de Menina Santa (2004) e O Pântano (2001), Lucrecia Martel, é apontada pelos críticos como a melhor cineasta da Argentina. Seus filmes são obras sensíveis e cerebrais, que não possuem uma história propriamente dita, mas uma série de cenas e sequencias que desvendam impiedosamente as mazelas da burguesia do país.

O estilo de Lucrecia, questionado no início por público e crítica, passou a ser copiado por cineastas de diversos países, inclusive por Selton Mello, que praticamente refilmou sequencias inteiras de O Pântano em seu filme de estreia, Feliz Natal (2008). Sinceramente, não me empolgo tanto assim com os longas de Lucrecia, mas ainda assim reconheço que ela tem um estilo interessante e é boa diretora de elenco.

Todo esse sucesso do cinema argentino se deve a alguns fatores elementares: o país sempre teve uma produção cultural diversificada, com literatura e teatros consolidados, duas das principais fontes para uma eficiente adaptação cinematográfica. Além disso, desde início de 1990, conta com Instituto Nacional de Cinema e Artes Audiovisuais (INCAA), órgão responsável em fomentar a produção cinematográfica.

O Pântano

Dentre as medidas adotadas, encontra-se a regulamentação de que cada sala de cinema do país exiba pelo menos um filme argentino a cada trimestre. Caso um exibidor não cumpra essas medidas, terá que pagar multa sobre a renda bruta de exibição. E, se o problema persistir, poderá ter o cinema fechado por um período de 30 a 60 dias.

Essa medida possibilitou um aumento de 60% no número de filmes produzidos anualmente pelo país, que passou de 50 produções, em média, no início de 1990, ano da criação do INCAA; para 80, a partir dos anos 2000. A melhora também pode ser vista na quantidade de salas de cinema da Argentina: 850 em 2005; para 1500, em 2011.

Atualmente, a recomendação da INCAA é cumprida com satisfação pelos proprietários de salas de cinema da Argentina, já que a maioria dos lançamentos locais atrai público superior à boa parte das produções de Hollywood. Em alguns casos filmes como Dois Irmãos (2010), de Daniel Burman, caem nas graças dos espectadores e ficam em cartaz por até 1 ano.

Sucesso de crítica, reconhecimento do público, produtores felizes e cineastas talentosos. Esta é a atual e invejável realidade da cinematografia argentina. Por isso, mesmo com toda a rivalidade apresentada no campo econômico e no futebol, uma coisa os brasileiros precisam reconhecer: pelo menos no cinema, a bola está com os “hermanos”.

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Jornalista, fã incondicional de Nick Hornby e coautor do livro inédito Cine Belas Artes: Um Olhar Sobre os Cinemas de Rua de São Paulo. Ainda não viu nada melhor que Asas do Desejo, de Wim Wenders... Mas Beleza Americana chegou perto. e-mail: cristiano@setimacena.com