Michelangelo Antonioni: O centenário de um verdadeiro mestre do cinema

Há exatos 100 anos, nascia – na cidade de Ferrara – Norte da Itália, Michelangelo Antonioni, um dos diretores mais cultuados e influentes que surgiram do cinema. Seus filmes não primavam por cenas retumbantes, excessos de explicações ou finais esclarecedores; mas, sim, por silêncios incômodos que, aliados a planos longos e contemplativos, demonstravam todo o vazio existencial dos personagens.

Desde a época em que estudava Economia e Comércio na Universidade de Bolonha, Antonioni demonstrava interesse pelo cinema. Escrevia críticas, principalmente sobre comédias italianas, para o jornal II Corriere Padano e, no início dos anos 1930, já em Roma, começou a escrever para a revista Cinema, mas este trabalho não durou muito, pois não concordava com a linha editorial e, principalmente, política da publicação comandada por Vittorio Mussolini, filho do grande ditador italiano.

Na década de 1940, Antonioni teve o primeiro contato na produção de um filme, reescrevendo o roteiro de Un Pilota Ritorna, dirigido por ninguém menos que Roberto Rosselini. Após realizar alguns curtas-metragens experimentais, produzidos após o término da Segunda Guerra Mundial, fez, em 1950, seu primeiro filme, Crimes da Alma, um suspense policial romântico. Não conseguiu muito dinheiro com o longa, mas recebeu o convite para colaborar no roteiro de Abismo de um Sonho, produção dirigida por outro mestre do cinema italiano: Federico Fellini.

Essas experiências ajudaram o cineasta a conquistar um estilo próprio de filmagem que, em 1960, surpreendeu a todos com o filme A Aventura. O longa girava em torno de um grupo de amigos burgueses italianos que resolvem participar de um cruzeiro pela costa do país. De repente, a personagem Anna (Lea Massari), justamente aquela que parecia ser a protagonista do filme, desaparece misteriosamente e faz com que o seu namorado Sandro, ao lado de Claudia (Monica Vitti), melhor amiga de Anna, parta em sua busca.

A grande sacada de A Aventura é que Antonioni não se preocupa em explicar o que aconteceu com Anna. A0 invés disto, cria um novo enfoque para a trama ao desenvolver um romance entre Sandro e Claudia, repleto de insegurança e medo de extravasar as emoções e os sentimentos, com isto, revela a insegurança e o vazio daqueles personagens burgueses. O filme foi recebido com um misto de vaias e aplausos calorosos durante a sua exibição no Festival de Cannes, e rendeu a Antonioni o Prêmio do Júri. A Palma de Ouro, prêmio mais importante do festival francês, ficou com A Doce Vida, de Fellini, que, curiosamente, também abordava o tédio e o vazio da sociedade italiana.

Após o sucesso em Cannes, Antonioni passou a ser intitulado de o “cineasta do tédio”, apelido que ganhou ainda mais força com os lançamentos de A Noite (1961), que retrata a história de um casal, interpretado brilhantemente por Marcello Mastroianni e Jeanne Moreau, em busca de um novo significado para a relação conjugal; e O Eclipse (1962), que também aborda um casal devastado por um relacionamento sem sentido, fechando assim a famosa Trilogia da Incomunicabilidade.

Em comum nesses três longas vemos a belíssima Monica Vitti, atriz favorita de Antonioni, que também foi protagonista de O Deserto Vermelho (1964), e nunca escondeu o fascínio que tinha pelo estilo do diretor. “Lembro-me de tantas pequenas coisas que revelam o ânimo e os olhos de Antonioni. Durante as filmagens de O Deserto Vermelho, ele fez com que pintassem de amarelo uma rua inteira. A minha personagem sofria o mal da angústia mais sutil, que mudava as cores (…) O pensamento dele era sempre ligado ao mundo de quem estava próximo e se tornava pintura na composição das imagens”, declarou a atriz durante uma entrevista à Folha de S. Paulo.

Esta grande preocupação com a qualidade técnica e com a busca dos sentimentos mais íntimos dos personagens esteve presente nas, quase, 40 produções dirigidas por Antonioni. E até mesmo nos filmes realizados fora da Itália, como o “inglês” Blow Up – Depois Daquele Beijo (1966), que promove um verdadeiro estudo da perspectiva do real e do imaginário, a partir de uma foto que pode esconder um assassinato; ou no contemplativo Profissão Repórter (1975), protagonizado por Jack Nicholson, e até hoje lembrado por um brilhante plano-sequência de sete minutos.

Sempre inquieto e em busca de novas experimentações cinematográficas, Antonioni sofreu, em 1985, um Acidente Vascular Cerebral (AVC), que paralisou parte do seu corpo e o deixou com a fala comprometida. Mas essas limitações não impediram que ele realizasse em 1995, ao lado de Wim Wenders, um dos seus maiores admiradores, o longa Além das Nuvens. Nesse mesmo ano, recebeu um Oscar Honorário pelo reconhecimento à sua brilhante carreira.

Em 2004, realizou, em parceria com Wong Kar-Way (Amor a Flor da Pele) e com Steven Soderbergh (Traffic), o seu último filme, Eros. Michelangelo Antonioni, morreu, aos 94 anos, em 30 de julho de 2007, justamente no mesmo dia em que Ingmar Bergman, outro mestre do cinema conhecido por retratar o silêncio nas suas produções, também nos deixava.  Sem dúvida alguma, uma das maiores ironias promovidas pela sétima arte.

“ Eu gostaria de fazer um filme em que os atores ficariam num espaço vazio, fazendo o espectador imaginar o meio onde eles estão. Até hoje, nunca filmei uma cena sem levar em conta o que está atrás dos atores, pois a relação entre as pessoas e o ambiente é de uma importância capital…”, Michelangelo Antonioni

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Jornalista, fã incondicional de Nick Hornby e coautor do livro inédito Cine Belas Artes: Um Olhar Sobre os Cinemas de Rua de São Paulo. Ainda não viu nada melhor que Asas do Desejo, de Wim Wenders... Mas Beleza Americana chegou perto. e-mail: cristiano@setimacena.com