Harvey Keitel e sua contribuição incalculável ao cinema

Se eu fosse um cineasta estreante e pudesse escalar no meu elenco apenas um ator, qualquer ator, certamente daria algum papel a Harvey Keitel. Não porque o considero meu favorito ou o melhor ator de todos os tempos, porque não é nem um nem outro. Mas porque, além do talento, que é inegável, ele parece ser um cara que dá sorte para cineastas iniciantes. Além de ser extremamente profissional, parecer ser um cara correto e honesto com seu trabalho, e de ter uma importância incalculável para o cinema. Basicamente, se não houvesse Harvey Keitel, que hoje comemora 75 anos, talvez não existissem Martin Scorsese e Quentin Tarantino. Pelo menos não da forma como os conhecemos hoje.

No livro “Conversas com Scorsese”, de Richard Schickel, Martin Scorsese responde ao crítico sobre como conheceu Keitel:

“Ele respondeu a um anúncio que colocamos na Show Business chamando pessoas para vir fazer um teste para um filme de estudantes da NYU. Eu não contei a ele, mas tinha um amigo meu que era comediante, Bill Minkin, que fez uma porção de meus filmes. Eu pus Bill sentado atrás de uma mesa, no oitavo andar do prédio da Greene Street. E Harvey entrou. Bill diz: “O que o senhor está fazendo aqui?”. Harvey diz: “Vim por causa de um anúncio”, “Que anúncio? Não tem anúncio nenhum. Não pusemos nenhum anúncio. Quem é você, afinal?”. E os dois começaram uma grande discussão. Eu achei fantástico! Esse era o teste que eu tinha armado, mas esqueci de contar para Harvey [risos]. E Harvey ficou tão bravo comigo. Mas eu disse: “Você foi maravilhoso”. Ele disse: “Por que você não me disse que era uma improvisação?”. Eu disse: Não pensei nisso”. Então começamos a trabalhar juntos em Quem Bate à Minha Porta? Ele era estenógrafo no tribunal nessa época. E era um grande problema para ele às vezes conseguir se livrar do emprego para vir trabalhar conosco. Harvey se tornou parte da família, como um irmão. Ele ficava no apartamento e dormia numa cama de armar. É um homem adorável, um sujeito muito doce.”

Ainda sobre Keitel, Scorsese continua: “A estrutura da carreira dele é muito interessante. Ele não parou de trabalhar nenhum dia da vida. Até hoje continua trabalhando. Ele nunca se acomodou na situação de Hollywood, nunca aceitou o star system, nunca aceitou a máquina. Ele sentiu o gosto disso, e eles sentiram o gosto dele, e todos decidiram que talvez devessem se separar amigavelmente. Mas ele também se desenvolveu como ator. Ele se arrisca. E é um sujeito de muito, muito bom coração. Se for analisar o que é um amigo, é simplesmente alguém em quem se pode confiar. E nós confiávamos um no outro com o que queríamos em cinema. Nós confiamos um no outro para cometer erros, tentar coisas diferentes, ir em direções diferentes, se insultar. Éramos nós três – Harvey, Bob [De Niro] e eu – até 76,77. Éramos quase a mesma pessoa”.

E Richard Schickel provoca: “Nenhuma rivalidade, nenhum ciúme?”

“Eu tinha escrito Caminhos Perigosos para Harvey. E ele foi incrivelmente paciente com o projeto. Havia a possibilidade de um grande ator na época fazer o papel. Ele nos deixou esperando até o último minuto. Harvey entendia que se esse ator concordasse em fazer o filme, que se eu conseguisse um nome daquele porte, isso provavelmente garantiria a distribuição. Harvey estava disposto a aceitar outro papel. O outro ator era um ótimo sujeito e queria fazer o filme, para nos ajudar. Mas não conseguia nos dar uma resposta e tínhamos de começar a rodar. Então eu telefonei e ele deu um não definitivo. Eu falei para Harvey, que estava esperando no set eu terminar o telefonema: “Aqui está seu casaco”, e pronto, ele foi para a rua e começamos a filmar. Ele era leal a esse ponto”.

Anos antes de trabalhar com Robert De Niro e fazer dele seu principal ator fetiche, Scorsese já tinha esse tipo de relação com Keitel, que viria a trabalhar em cinco filmes do cineasta: Quem Bate à Minha Porta?, Caminhos Perigosos, Alice Não Mora Mais Aqui, Taxi Driver e A Última Tentação de Cristo. Curioso é que ele não apenas estava presente no início da carreira de Scorsese, mas também na de Ridley Scott (Os Duelistas), Paul Schrader (Vivendo na Corda Bamba) e Quentin Tarantino (Cães de Aluguel). Este último, inclusive, tal como Scorsese, reconhece que dificilmente teria uma carreira no cinema se Keitel não o tivesse ajudado no início. O ator foi produtor executivo de Cães de Aluguel, e vincular seu nome ao filme permitiu a arrecadação da verba necessária para a produção da estreia de Tarantino. Além dos nomes citados, ele viria a trabalhar com outros cineastas de renome, como Ettore Scola, Abel Ferrara, Brian De Palma, Jane Campion, Dario Argento, George A. Romero, Spike Lee, Wes Anderson entre outros.

É por isso que hoje, no dia de seu aniversário de 75 anos, gostaria de deixar registrado aqui um agradecimento a esse ator que muitas vezes parece esquecido, tanto pela indústria do cinema quanto pelo público, mas que merece todo o reconhecimento por sua contribuição, na frente das câmeras e nos bastidores. São tantos os papéis memoráveis, em atuações que vão das mais sóbrias às mais exageradas, que seria injusto apontar um só momento em uma carreira tão variada de quase 50 anos. O gângster de Caminhos Perigosos? O cafetão de Jodie Foster em Taxi Driver? Judas em A Última Tentação de Cristo? O aluno de Holly Hunter em O Piano? O policial corrupto e viciado em Vício Frenético? Mr. White, de Cães de Aluguel? O especialista em limpar cenas de crime, em Pulp Fiction? Ou o pai religioso de Um Drink no Inferno? Impossível escolher.

Obrigado por cada um desses papéis, Keitel, e por todos os outros. E obrigado por contribuir para o cinema como poucos fizeram em toda sua história.

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Jornalista e crítico de cinema. Coautor do livrorreportagem Cine Belas Artes: Um Olhar Sobre os Cinemas de Rua de São Paulo. Acha O Poderoso Chefão o melhor filme do mundo, mas torce todos os dias para assistir a algum que o supere. Ainda não encontrou, mas continua buscando. E-mail: carlos@setimacena.com // Letterboxd: @CarlosCarvalho