Resenha: O Clube do Filme

A relação conturbada entre pais e filhos já foi abordada diversas vezes no cinema, na literatura e, principalmente, nas novelas brasileiras. Encontrar um enfoque original para este tema, portanto, acaba sendo uma tarefa árdua, mas quase sempre gratificante. E isto é o que acontece no livro O Clube do Filme, do ator canadense David Gilmour.

O livro retrata a história autobiográfica de Gilmour e de seu filho adolescente Jesse. Com elevado histórico de reprovação no colégio, o jovem pretende abandonar os estudos. Ao expor esta ideia ao pai, recebe a seguinte proposta: poderá largar a escola desde que assista a três filmes semanalmente escolhidos por Gilmour.

A partir daí, surge o Clube do Filme, que no início é recebido com indiferença pelo rapaz, mas, com o avançar das sessões, transforma-se num verdadeiro panorama cultural e metáfora para os momentos mais difíceis vividos pelos dois. Durante as sessões, são debatidos temas como drogas, crises de relacionamentos e desemprego; mas também há espaço para divertidos diálogos sobre mulheres, sexo, amizade e música.

Mas é claro que o foco principal é o cinema, e a palavra preconceito na faz parte das sessões comandadas por Gilmour. O autor, além de fazer referência a verdadeiros clássicos, como O Poderoso Chefão, Taxi Driver, Cidadão Kane… Também retrata aqueles filmes que ficaram marcados por ser grandes fracassos artísticos, como Showgirls e A Reconquista  e, até mesmo destas “bombas”, consegue tirar algum proveito.

Mesmo correndo o risco de ser julgado por suas decisões, Gilmour não tem medo de mostrar momentos constrangedores e tumultuados vividos pelo protagonista, e isso é um dos seus maiores acertos, já que, como todo adolescente, Jesse possui deficiências e inseguranças, e essas características foram expostas sem maniqueísmo, valorizando ainda mais o livro.

Assim como Nick Hornby (escritor de Alta Fidelidade e Um Grande Garoto), o autor mergulha na cultura pop para enriquecer a narrativa do livro, e com isso conquista a cumplicidade do leitor que logo se identifica com (além dos filmes) canções, grupos musicais e times de futebol citados ao longo das 240 páginas.

Ainda assim, o livro possui alguns defeitos, e um deles é o excesso de didatismo do autor, que algumas vezes exagera nas explicações sobre os filmes e amarra um pouco a narrativa. Mas, apesar disto, consegue encantar o leitor, ao abordar com sensibilidade o relacionamento familiar e a transição da adolescência para a fase adulta, sem se esquecer de fazer uma bela homenagem à sétima arte.

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Jornalista, fã incondicional de Nick Hornby e coautor do livro inédito Cine Belas Artes: Um Olhar Sobre os Cinemas de Rua de São Paulo. Ainda não viu nada melhor que Asas do Desejo, de Wim Wenders... Mas Beleza Americana chegou perto. e-mail: cristiano@setimacena.com