Descartes, coronelismo e fé na obra máxima dos Trapalhões

Quando conversava com Cristiano Filiciano, co-autor do Sétima Cena, a respeito dos Trapalhões, ouvi a seguinte constatação: “é uma pena que as crianças de hoje só tenham contato com aquela Turma do Didi”. É verdade. Os Trapalhões estão para o humor brasileiro como Monty Python está para o humor britânico. Não falo em termos de estilo, é claro, embora ambos compartilhem o uso inteligente do politicamente incorreto – o primeiro, baseado na ingenuidade de quem proferia as tiradas frequentemente racistas; o segundo, contextualizado no nonsense. Falo em termos de reflexo da sociedade que satirizavam, e se Monty Python é o retrato do absurdo no pós-guerra, Os Trapalhões são a representação exata daquela ideia de que o brasileiro “ri da própria desgraça”. Ri, mas pelo menos uma vez o riso foi agridoce.

Aconteceu no ano de 1984. Inspirados pelo filme O Mágico de Oz, os Trapalhões lançaram a sátira O Mágico de Oróz. A premissa é basicamente a mesma da obra estrelada por Judy Garland: o protagonista habitante de uma região árida viaja para uma terra desconhecida na companhia de um Espantalho, um Homem-de-Lata e um Leão Covarde – cada um em busca daquilo que necessita. Mas, diferente de Dorothy, que deseja apenas voltar para casa, o sertanejo Didi Mocó e seus companheiros carentes de cérebro, coração e coragem têm uma missão bem mais complexa: levar água para o sertão nordestino. É neste contexto que o filme se disfarça de comédia pastelona quando na verdade é uma crítica pungente que se mantém atual e imperdoavelmente ignorada.

“Nordeste: resto de vida em um lugar onde a vida se confunde com a morte”

O trecho não lhe parece retirado do livro Vidas Secas, de Graciliano Ramos? Pois se trata de uma das frases que compõem a abertura de O Mágico de Oróz. A narração em off acompanhada de imagens que retratam a dura vida no sertão atuam como uma breve, mas incisiva amostra de que o filme tem algo a dizer ao se propor a abordar a tragédia silenciosa promovida pela seca. Mas não nos esqueçamos de que ainda é um filme dos Trapalhões, e como tal a cena que sucede a abertura rapidamente nos situa nas fanfarronices de um Didi faminto que é catapultado aos céus para capturar um urubu – e repare como mesmo em um momento puramente cômico nos deparamos com um cenário repleto das aves que remetem à morte.

Didi foge da seca em busca de uma vida melhor na companhia de seus amigos Tatu e Soró. O grupo viaja com uma casinha de sapê, porém, diferente do caso de Dorothy, não é um furacão que a faz se mover, mas um burro. É logo no começo que o trio encontra o Espantalho, interpretado com toda a doçura que só o Zacarias poderia conferir. A conversa entre os quatro, que envolve até mesmo René Descartes – “ora, então você tem sorte! Se não tem miolo, não pensa e logo não existe!” – culmina no surgimento dos carcarás, seres carniceiros como os urubus que invadem a área e cantam uma música cuja letra poderia ser facilmente aclamada nos Festivais da Record dos anos 60. Veja um trecho:

Só como carne de primeira
Só que nunca fui a feira.
O tempo passa e nada muda
E essa seca nos ajuda.
Nossa vida morre, o perigo aqui no céu é chover.
Salve a rapina.
Carcará, infesta, assassina que alegria.
Vê-los morrer, carne fresca pra a gente comer

 Se esta canção não é uma crítica aos governantes e empresários que tiram proveito da seca e querem que a situação do sertão permaneça do jeito que está, eu não sei o que é. E, como você constatará posteriormente, o que é velado dá lugar a uma abordagem crua e explícita de questões como o coronelismo.

Depois que o Espantalho se junta à trupe de Didi, chega a vez de encontrar o Homem-de-Lata – este interpretado pelo homem que dispensa adjetivos: Mussum. Responsável por uma das sacadas mais divertidas do filme – ao invés de óleo, ele necessita de “mé” para se lubrificar – não demora até que o Homem-de-Lata se una ao grupo para chegar à cidade de Oróz e, quem sabe, obter o tão desejado coração.

Em Orós, somos introduzidos às versões sertanejas do Leão Covarde e da Bruxa Má do Oeste: o delegado Leão, vivido por Dedé Santana com todas as oscilações de voz e trejeitos engraçados os quais o personagem lhe deu direito, e o Coronel Ferreira, o malvado fazendeiro candidato a prefeito que comercializa a água dos escassos açudes de Oróz em troca de dinheiro e votos. É nestas duas figuras que o filme abre definitivamente as feridas e expõe os graves problemas políticos que acometeram e ainda acometem o sertão nordestino: no Leão, vemos a incapacidade da polícia – ou melhor, da Lei – de fazer-se valer em uma região onde o que vigora é o voto de cabresto, promovido por um inescrupuloso coronel que, diante das súplicas de uma mulher analfabeta e miserável que pede um copo de água para os seus filhos garantindo que o marido morto era eleitor do fazendeiro, responde furiosamente: “não será com voto de defunto que eu serei eleito prefeito”.

Nesta terra de leis e sem Lei, não é espantoso que a justiça se faça por meios , digamos, informais. Quando o grupo de Didi chega esfomeado à cidade de Oróz, logo trata de roubar comida. Mas não apenas para eles: roubam também para as crianças. Quando são capturados pelas autoridades locais e presos, o julgamento pelos seus atos não são realizados em um tribunal convencional, mas nas ruas da cidade por um belíssimo e tocante tribunal de repentistas. Há o juiz, que retira a sua máscara branca no ritual como se estivesse se despindo de preconceitos; a acusação, representada por um homem cujo rosto é pintado de vermelho; e a defesa, personificada por um homem de rosto pintado de branco. A acusação e a defesa trocam as réplicas e tréplicas por meio de versos ritmados ao som de violões, e é impossível não se comover com a carga dramática daquela que pode ser considerada uma das mais tocantes cenas do cinema brasileiro:

Todo povo da cidade sabe que não tem perdão

Atingiu maior idade paga pena de prisão

Salvando a sociedade

Quero ver atrás das grades

Esses três cabras ladrão

 

Vou pedir a excelência a maior compreensão

Pois roubaram pras crianças que não tinham refeição

Nem Jesus aguentou fome

Vendo ela dentre os homens

Multiplicou peixe e pão

Todos são condenados.

Há, contudo, uma maneira de livrar-se da pena. Se Didi, na companhia do Leão, do Espantalho e do Homem-de-Lata, conseguir trazer água para Oróz, todos poderão ficar livres. É sob esta incumbência hercúlea que a trupe parte da cidade, encontrando no deserto o Mágico de Oróz. Proclamador de frases incômodas como “não é com reza, nem com promessa, nem com mágico charlatão que vai se fazer chover no sertão”, ele diz ao grupo que a solução está em encontrar o “monstro de metal que, torcendo a sua orelha, jorra água pela sua boca” e levá-lo para a cidade.

Deixo a história por aqui. O que vem pela frente é a saga dos Trapalhões em busca de algo que, no fim, revela-se presente na própria fé. É o forte sentimento de crença no impossível que, somado à ideia de que a solução dos problemas só depende da sua própria vontade, faz com que o final se desenlace em toda a sua doce amargura, tal como aquela presente no rosto de quem sabe que um dia de chuva não basta para umedecer o sertão.

Aos Trapalhões, muito obrigada pelos sorrisos mais comovidos do mundo.

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Jornalista, cinéfila e fanática por Beatles. Acha que a relação entre filmes e videogames pode gerar grandes frutos e que Clint Eastwood é o homem dos sonhos. Twitter: @RafaelaCaetano e-mail: rafa_starkey@hotmail.com