Onde os ratos têm vez

É uma verdade universalmente conhecida que um cinéfilo sente uma pontada no cérebro quando ouve a seguinte declaração: “Este filme parece ser bom. Mas, se não for, não tem problema: é só desligar o cérebro e curtir.”

Fico admirada com esta capacidade sobrehumana de desligar o cérebro. Ou melhor, me assumo completamente invejosa, pois quem me dera usar este dom para ignorar as baboseiras ditas na vida real e virtual. Mas, uma vez carente deste talento extraordinário, me resta menosprezar esta que considero a atitude mais estúpida que alguém pode tomar ao se propor a ir ao cinema.

Valho-me do argumento de Anton Ego, o carrancudo e implacável crítico gastronômico de Ratatouille. Questionado quanto ao seu apreço pela comida, já que se mostra um homem tão frio e cruel em suas avaliações, Anton responde: “Eu não gosto de comida; eu amo comida. É por isto que não engulo qualquer coisa.”

Nós também não, Anton Ego. Se recusar a ver um ‘2012’ ou ‘Solomon Kane’ da vida não é sinal de arrogância, mas de bom senso. E, no fundo, ninguém precisa ser um grande expert da Sétima Arte para reconhecer um filme intragável, tampouco assisti-lo com a também intragável desculpa de “desligar o cérebro”, que serve somente para emburrecer ainda mais quem a profere.  Quer desligar o cérebro? Durma. Cinema é para quem deseja agregar algo de valor a si, assim como você faz quando come um bom prato – ou do contrário você não se importaria de comer comida congelada todos os dias.

E, o que é mais surpreendente, os melhores filmes e as melhores comidas não discriminam locais ou mãos: podem vir do restaurante mais simples da cidadezinha interiorana ou do bistrô mais sofisticado de Paris; das mãos de alunos recém-formados ou de consagrados cineastas. Tudo isto nos mostra algo fundamental: Qualquer um pode fazer algo bom e não aceitar menos, como nos ensina este fabuloso Ratatouille.

Você pode pensar: para quê tantos rodeios para falar do filme em si? Ora, porque o filme fala diretamente a nós, que somos de lugares prováveis e improváveis e passamos por provações para mostrar quem somos. Que ser pobre não significa que devemos aceitar o que é menor, inferior. Que ser mulher não significa que não se possa ser mecânica ou fuzileira. Qualquer um pode ser, independente de sua origem; quem nos prova isso é Remy, o ratinho que se torna chef de cozinha.

O filme tem início com Remy e seu rechonchudo irmão em busca de comida para a colônia de ratos. Enquanto o primeiro se enoja com as comidas estragadas do lixo e procura apenas por alimentos frescos e saborosos, o segundo pega indiscriminadamente qualquer comida à sua frente sem se importar com a qualidade. Naturalmente – pelo menos para a perspectiva dos ratos – Remy é visto com desdém pelos demais companheiros por ser seletivo demais em relação à comida, mas a verdade é que o ratinho é de tal forma apaixonado por gastronomia que simplesmente não pode aceitar menos. Percebemos aqui a primeira ligação entre Remy, Anton Ego e, é claro, nós.

Após uma fuga desesperada da colônia de ratos, Remy se separa por acidente do grupo e segue pelos esgotos até a cidade de Paris, a meca da alta culinária. Lá, ele encontra o restaurante do seu ídolo, o famoso chef de cozinha Gusteau. Deslumbrado com a possibilidade de visitar a cozinha do local, o ratinho adentra o espaço. Mas quão grande e ameaçador ele é para o pobre Remy! O pequeno roedor logo se vê perseguido, e na fuga alucinante pela cozinha, conhecemos o desengonçado ajudante de cozinha Linguini. Este último, por acidente, estraga um prato em processo de cozimento. Quando o ratinho, já seguro e pronto para sair da cozinha, percebe o erro, sente uma vontade incontrolável de arriscar-se a fim de consertá-lo. É óbvio que, como um chef nato, ele volta e soluciona rapidamente o problema. Contudo, é visto e capturado.

A questão é que o chef de cozinha, o perverso Skinner, pensa que foi Linguini o responsável por salvar o prato e torná-lo mais saboroso que o normal. Consciente da sorte de principiante, pede que o garoto repita o prato no dia seguinte – algo que causa desespero em Linguini. Quando todos partem e o garoto fica para limpar a cozinha, descobre que o ratinho é o responsável pelo êxito do prato. O menino leva Remy para casa e, no dia seguinte, ambos tentam fazer a comida juntos. Absolutamente atrapalhados, resolvem testar uma tática diferente: colocar Remy na cabeça de Linguini para que ele, ao puxar os fios de cabelo do garoto, controle os seus movimentos. O ratinho, é claro, fica oculto por um chapéu de mestre-cuca – afinal, ninguém quer ver o roedor mais execrado do mundo na cozinha de um dos restaurantes mais importantes da França. Eis a segunda ligação entre Remy e Anton: ambos são temidos e evitados.

Comida vai, comida vem, e a parceria se torna um sucesso absoluto; ou, pelo menos, um dos integrantes da parceria. Linguini ganha prestígio no cenário gastronômico à custa do talento de Remy, até que enfim surge o ameaçador Anton Ego para julgar as habilidades do garoto. Ego, que já é naturalmente severo em suas avaliações, parece especialmente empenhado na tarefa de formular um juízo sobre o jovem chef.

Omitindo detalhes da narrativa que permeiam a difícil missão de cozinhar o prato perfeito para Ego, vou direto ao ponto crucial da história: Remy opta por cozinhar um prato bastante simples da culinária francesa chamado Ratatouille. Quando Ego é servido, a princípio desdenha da escolha, mas ao saborear o prato…

Flashback.

Um garotinho de aspecto triste entra em sua casa. O lar é pobre, simples, e parece pertencer a alguma cidade interiorana da França. O menino senta na mesa e sua mãe, uma mulher de semblante calmo e bondoso, lhe serve um prato de ratatouille. Ele saboreia a comida que, de tão gostosa, melhora o seu humor. É a comida da mamãe, da infância, de uma época em que bastava comer seu prato favorito para que todos os problemas se dissipassem.

Anton Ego, comovido, come com avidez o ratatouille que lhe trouxe uma lembrança tão bonita.

É aí que vemos o terceiro elo entre Remy e Anton. Ambos provêm de ambientes simples e são, respectivamente, a prova e a testemunha de que qualquer um é capaz: desde o rato até a senhora do interior. A beleza de Ratatouille é justamente essa: a de mostrar quanta grandeza há na simplicidade e quão errados somos ao julgar os outros pela aparência.

O filme, cujo desfecho também omito, termina com uma belíssima cena onde Remy olha para a torre Eiffel. Ele, tão pequeno e distante da possibilidade de ser aceito pelo público; ela, tão grande e distante da possibilidade de ser aceita por boa parte dos franceses.

Preconceito, beleza e talento vêm de qualquer lugar. E não, não há nada de errado em querer o melhor. Seja você crítico ou um mero ratinho do bueiro mais sujo da cidade.

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Jornalista, cinéfila e fanática por Beatles. Acha que a relação entre filmes e videogames pode gerar grandes frutos e que Clint Eastwood é o homem dos sonhos. Twitter: @RafaelaCaetano e-mail: rafa_starkey@hotmail.com