Romeu e Julieta na América dos contrastes

Amor, Sublime Amor é uma obra injustiçada. Tão, mas tão injustiçada que você sequer notou que se trata do musical da década de 60, e não do filme erótico estrelado pela Xuxa. Este último se chama Amor, Estranho Amor. Não se esqueça: O da Rainha dos Baixinhos é Estranho e Ilegal; este é Sublime, e Sublime com todas as letras.

Quem assistiu o filme na época da estreia concorda com o adjetivo. Lançado em 18 de outubro de 1961, Amor, Sublime Amor (West Side Story) foi um sucesso absoluto entre a crítica e o público. Nem a produção da Broadway conseguira atingir um décimo daquele furor. A fórmula era simples, mas poderosa: havia um amor impossível, danças contagiantes e músicas que faziam você ter vontade de cantar pelas ruas sem medo de ser feliz. No que seria a confirmação de seu êxito pleno, a obra dirigida por Robert Wise e Jerome Robbins abocanhou dez estatuetas do Oscar e estabeleceu-se como o musical mais bem sucedido da história. Então pergunto a você: por que não se fala de Amor, Sublime Amor nos dias de hoje?

Por que ele é um musical datado? Não.

Por que ninguém tem paciência com ele? Não

Definitivamente, não.

Porque, parafraseando Raul Seixas, “pra eles é careta se alguém fala de amor”. Um mundo saturado de filmes “mela-cueca” olha para Amor, Sublime Amor com desdém, com ares de impaciência para uma obra que julgam piegas. E ainda há um agravante: alguém ousou jogar Shakespeare – oh, não! Ele não! Não o toquem, seus canalhas caça-níqueis! Como ousam? – na mistura. “Não vi e não gostei” – e aí reside o grande erro. O filme é, de fato, a versão hollywoodiana de Romeu e Julieta, mas uma versão repleta de amor, fogo e da vida adolescente retratada espetacularmente através da dança, da música e de cenas que ficam guardadas na memória. Eis o amor, não careta, mas puro como só o primeiro amor pode ser, de West Side Story:

O filme situa-se, como o título original revela, no lado oeste de Nova York, onde duas gangues de rapazes vivem em confronto nos subúrbios. Os Jets são americanos descendentes de poloneses; os Sharks, porto-riquenhos. Enquanto os primeiros lutam contra os latinos para mostrar de quem é o território, os segundos não se deixam abater pelo preconceito e enfrentam os ianques para manter a honra. Logo no início do filme há uma sequência memorável: as duas gangues se encontram e se movimentam em uma dança que mais parece luta. Eles se atingem, mas não há sangue: há apenas um balé de violência, testosterona e beleza. Eles são os Capuleto e Montecchio.

Romeu é Tony, o ex-líder dos Jets; Julieta, por sua vez, é Maria, a irmã do líder dos Sharks. O que acontece é, em suma, o mesmo que ocorre na peça de Shakespeare: ambos se conhecem, se apaixonam à primeira vista e logo se encontram às escondidas. Mas, falando assim, parece algo muito corriqueiro, e de banal West Side Story não tem nada: basta observar a cena em que Maria e Tony se veem pela primeira vez. Quando um olha para o outro na pista de dança, o cenário em volta fica embaçado como se nada mais importasse. Ambos se aproximam, ainda com o ambiente desfocado à sua volta, e dançam suavemente enquanto o fundo da imagem escurece e pontos brilhantes surgem formando um balé celestial. É tudo tão cândido que tomamos um choque quando, algumas cenas depois, nos deparamos com uma dança que exala sexualidade, graça e um toque passional do qual só os latinos são capazes.

Tudo começa quando Anita, namorada do líder dos Sharks, defende a América – leia-se: Estados Unidos – em detrimento de sua terra natal, Porto Rico. Anita enxerga nos EUA a ideia de ‘terra das oportunidades’ tão propagada ao longo do século XX, e suas amigas endossam o discurso. Os Sharks, por sua vez, expõem as feridas do Sonho Americano: o preconceito, a pobreza, a superlotação nos subúrbios, et cetera. O debate entre quem está certo – embora, no fundo, todos saibam que ambos os lados estão certos – culmina em uma dança de réplicas e tréplicas de encher os olhos e ouvidos. Ouvimos do lado das meninas um “A vida é boa na América”, no que os homens respondem, “Se você for branco na América”. E é neste balé de contrastes munido da canção América que presenciamos uma das cenas de dança mais belas e vigorosas do cinema. Rita Moreno teria merecido o Oscar apenas por aqueles minutos vulcanescos (não sei se a palavra existe, mas e daí?) que fariam de Jennifer Lopez uma mera amadora.

Há outros momentos que, embora de menor impacto, carregam uma beleza sutil e profunda: o encontro nas escadarias à noite, o casamento de mentirinha no ateliê, o canto triste de Somewhere. Mas como citar todos eles e ignorar aquela cena da mais pura leveza – e, por que não, tolice adolescente – que nos faz sorrir? Que nos faz sentir aquela alegria que só o cinema é capaz de proporcionar? A cena em que Maria canta e dança I Feel Pretty é a versão encenada e “musicalizada” daquela sensação insana que sentimos quando começamos a gostar de alguém e somos correspondidos. Assim como Maria, nos sentimos bobos, flutuantes e, pasmem, bonitos!

Acho que vou parar por aqui. Embora digam por aí que não existe spoiler de filme antigo e vocês já tenham uma boa noção de como é o desfecho da trama, considerando o final de Romeu e Julieta, sinto que o final do filme é algo que não deveria ser descrito. Nem o próprio filme acha que o final deveria ser filmado: repare como tudo fica escuro, sombrio, melancólico, ansioso pelo fim da tragédia anunciada, E quando ele chega, você não evita um sorrisinho de Cecilia. Sim, aquela da Rosa Púrpura do Cairo, que não deixa a cínica vida real a abater quando percebe que ainda pode haver amor, mesmo que na tela do cinema.

É por isto que, em tempos de gente que repudia e zomba deste mesmo amor, West Side Story mereça ser lembrado por toda a posteridade.

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Jornalista, cinéfila e fanática por Beatles. Acha que a relação entre filmes e videogames pode gerar grandes frutos e que Clint Eastwood é o homem dos sonhos. Twitter: @RafaelaCaetano e-mail: rafa_starkey@hotmail.com