O 3D e a escuridão

Uma das minhas grandes decepções cinematográficas é a de não conseguir enxergar em 3D. Sempre escuto, com um pinguinho de frustração, os comentários de meus amigos acerca da qualidade de alguns filmes feitos nessa tecnologia. Por ser estrábico e ter apenas 20% de visão do olho esquerdo, quando assisto a um longa em 3D não consigo ver a tal profundidade e os demais efeitos que esta tecnologia proporciona.

Esta limitação acontece pela perda da estereotipia, que é responsável por captar as imagens individuais dos olhos e fundi-las numa só, além de proporcionar a sensação de profundidade dos objetos no campo de visão. Ou seja, como só tenho a visão plena de um olho, nada de filmes em 3D para o vesguinho aqui.

Enfim, toda esta história foi para dizer que, recentemente, tive a oportunidade de assistir ao documentário A Caverna dos Sonhos Esquecidos, do cineasta alemão Werner Herzog. O filme gira em torno da caverna francesa Chauvet, cujo interior abriga as pinturas rupestres mais antigas do mundo. Narrado de forma empolgante por Herzog, o longa encanta a plateia ao revelar diversas manifestações artísticas ao longo da história da humanidade, além de ser considerada uma das melhores produções a utilizar o recurso 3D.

O mais engraçado de tudo é que até eu posso comprovar isso, pois em uma determinada cena um dos arqueólogos estende os braços como se tivesse cumprimentando o cineasta e dando boas vindas aos espectadores. E não é que neste momento eu tive a sensação de profundidade tão citada nas obras em 3D. Foi como se a mão do rapaz estivesse ao alcance das minhas, e fiquei tão empolgado na hora que quase tive o impulso de cumprimentá-lo.

Se isto é um efeito do 3D, eu confesso que não sei, mas foi o mais próximo que cheguei a enxergar da tecnologia, motivo suficiente para me deixar eufórico, emocionado até, a ponto de quase gritar no cinema: Eu enxerguei em 3D! Enxerguei em 3D! Obrigado, Werner Herzog!

No dia seguinte, ainda contente com o “feito” e com as belas imagens de A Caverna dos Sonhos Esquecidos na cabeça descobri que Nosferatu – O Vampiro da Noite, também dirigido por Herzog, passaria na televisão a cabo. Resolvi assisti-lo, já que podia aproveitar a oportunidade para conhecer a versão do diretor alemão para a história criada por Bram Stocker.

O longa empolga desde o início da projeção, quando acompanhamos o personagem Jonathan (Bruno Ganz) se despedindo da sua linda namorada, Lucy, interpretada com a delicadeza habitual por Isabelle Adjani, e partindo para o sombrio castelo do Conde Drácula com objetivo de negociar um contrato imobiliário com o monstrengo.

Com cenas econômicas e de grande carga dramática, o longa revela toda angústia de Drácula, caracterizado com brilhantismo por Klaus Kinski. O interessante da visão de Herzog para o clássico é que aqui o personagem não causa tanto medo, mas, sim, asco diante da sua existência tão medíocre e repugnante.

A trama avança revelando a chance de Drácula encontrar um pingo de felicidade quando se depara com a foto de Lucy mostrada por Jonathan. A criatura então fica fascinada pela imagem da jovem e parte num navio, na companhia de asquerosos ratos, ao encontro dela.

E, no momento em que eu estava totalmente envolvido naquela trágica trama acompanhando a cena em que a jovem avistará o asqueroso vampiro pela primeira vez, tudo ficou escuro e assim como Drácula fui arremessado para as trevas. Não aquela vivida pelo personagem, mas a de total falta de luz causada por uma queda de energia elétrica. Nem preciso dizer o quanto fiquei frustrado, né? Já que fui obrigado a ir para a cama sem ver o desenrolar daquela fascinante história.

Antes de pegar no sono, refleti sobre os opostos sentimentos causados por esses dois acontecimentos: o primeiro de extrema satisfação por ter, mesmo que por um reles momento, a oportunidade de enxergar em 3D; já o outro, de revolta, causado pela impossibilidade de ver uma obra até o final por causa de um irritante fator externo.

Duas sensações tão distintas que contribuíram para aumentar o meu interesse pela filmografia de Herzog e, acima de tudo, o meu fascínio por esta coisinha tão surpreendente e viciante chamada cinema.

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Jornalista, fã incondicional de Nick Hornby e coautor do livro inédito Cine Belas Artes: Um Olhar Sobre os Cinemas de Rua de São Paulo. Ainda não viu nada melhor que Asas do Desejo, de Wim Wenders... Mas Beleza Americana chegou perto. e-mail: cristiano@setimacena.com