Conversas sobre 2001 – Parte 1

Por Rafaela Caetano

Extraterrestres nos dando um empurrãozinho? A descoberta da consciência? Saiba o que Kubrick nos insinua em Uma Odisseia no Espaço.

2001 é um tiro na mente. Não, não como Clube da Luta; a obra de David Fincher é um projétil de .12 que te espalha pelo tapete da sala. Uma Odisseia no Espaço é uma bala pequena que se aloja em seu cérebro para nunca mais sair.

Lançado em 1968, o filme de Stanley Kubrick, coescrito em parceria com Arthur C. Clarke é… difícil de ser sintetizado. É uma saga sobre a evolução humana? Sim. Sobre a relação entre o homem e a ferramenta? Sim. Sobre a vida extraterrestre? Sim. Mortalidade? Também. Mas, acima de tudo, é uma alegoria para o ser vivo em face do novo, do desconhecido. E como tal, abre margens para inúmeras interpretações. Em busca de novas respostas, teorias e ideias, a jornalista Rafaela Caetano inicia um bate-papo com o também jornalista e editor do Sétima Cena, Carlos Carvalho, sobre uma das obras mais enigmáticas e fascinantes do cinema.

Carlos: Acho que o filme, assim como o recente A Árvore da Vida, é subjetivo e complexo demais para “se entender” à primeira vista. Na primeira parte, que é absurdamente sensacional – talvez até a mais importante do filme – creio que tudo o que se passa com os macacos é a descoberta de uma consciência própria. Nas cenas iniciais, vemos a conquista de território, a disputa por um bem necessário – a água – e a mudança que ocorre a partir do momento em que o monólito é “encontrado” e tocado pelos macacos. Depois daquela cena,  não se adquire uma consciência instantânea, mas algo acontece e faz com que um dos macacos coloque essa consciência em prática num futuro próximo. Estou falando do momento em que ele percebe que um osso pode servir de ferramenta de dominação. Ele descobre que pode quebrar coisas com aquilo e, por consequência, que pode subjugar o grupo de macacos que expulsou o seu próprio grupo do lago.

Rafaela: Então você acredita que o monólito influenciou a evolução do homem?

Carlos: Sim, vejo o monólito como uma ferramenta de aceleração da nossa evolução. Uma metáfora para a vida alienígena.

Rafaela: Eu penso diferente. Acredito que o Kubrick – e agora eu especulo – não queria que a evolução do homem fosse diretamente influenciada pela vida extraterrestre, de modo que o monólito colocado ali serviria apenas para demarcar um passo na evolução que inevitavelmente aconteceria. Trocando em miúdos? Os extraterrestres estariam apenas acompanhando nosso processo evolutivo, e percebendo que estávamos próximos de dar um salto e descobrir o uso da ferramenta (ou a tomada da consciência, como você disse), implantaram o monólito como que dizendo “Vocês chegaram ao topo. E agora?”. Mais que um bloco de pedra, o monólito representou um desafio para os macacos. Representou o novo que estava por vir. Há muitas interpretações…

Carlos: Sim, duvido que não tenha sido a intenção de Kubrick deixar essas coisas para que nós possamos justamente interpretá-las e, sinceramente, o filme é bastante complexo, mas não é uma coisa que não se entenda. Até pelo fato dele não ter essa característica de ser uma história de fato fechada, onde exista um padrão de narrativa com começo, meio e fim.

Rafaela: Eu acho incrível que o 2001 fique aberto à especulação e concordo quando você diz que essa foi a intenção do Kubrick. Aliás, qualquer filme de ficção científica devia se preocupar menos em explicar e mais em instigar. É por isso que o primeiro Matrix é tão bom e os demais são uma bosta. Agora uma coisa é certa e não necessita de segundas interpretações: a parte da subjugação dos macacos com o uso do osso. Foi uma sacada perfeita. É simplesmente o homem no controle da ferramenta. É o homem que agora pode matar para comer carne e se defender. E dominar a Terra. E para fechar essa ideia com chave de ouro, Kubrick nos dá a maior elipse da história do cinema: a transição do osso jogado no céu para uma nave espacial. A pura evolução do homem e da ferramenta. E o homem está no espaço, o que na década de 60 – e ainda hoje! – representava a última barreira intransponível do ser humano.

Carlos: O espaço e o Danúbio Azul. Uma sacada genial do não menos genial Kubrick de sobrepor o silêncio do vácuo com música. Nesta segunda parte, temos contato com os astronautas e o glorioso encontro com outro monólito.  E o que acontece quando eles o tocam? Uma mensagem de rádio é enviada para Júpiter, onde anos depois haverá uma nova expedição, desta vez com a equipe do dr. David Bowman. Bom, este segundo monólito foi encontrado na lua, e é válido lembrar que o filme foi lançado um ano antes da chegada de Armstrong ao satélite.

Rafaela: Uma época em “efervescência espacial”, então. Assim, é igualmente interessante observar a representação do homem no espaço. Temos o homem prestes a dar o próximo passo na evolução humana. Mas repare: você se lembra dos macaquinhos, tão vulneráveis, dependendo de plantinhas e laguinhos e à mercê dos bichos selvagens? Também nos encontramos igualmente vulneráveis no espaço. A gente mal sabe andar. Mal sabe respirar. Mal sabe comer – que nojo daquela papinha! Parecemos bebês! É como se o Kubrick quisesse realçar ainda mais nossa insignificância perante o universo. E o pior: Somos bebês que cometem ERROS. E para alguém/algo, isto é inadmissível.

Na segunda parte de Conversas sobre 2001, saiba mais teorias a respeito de HAL 9000 e sobre a sequência final de Uma Odisseia no Espaço.

* Rafaela Caetano é jornalista e trabalha com revistas especializadas em games.

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