Conversas sobre 2001 – Parte 2

Por Rafaela Caetano

Nem só de HAL 9000 vive 2001, mas de Nietzsche, bebê-estrela e uma viagem digna de Pink Floyd

Na primeira parte de ‘Conversas sobre 2001‘ se você ainda não leu, leia aqui), abordamos a influência extraterrestre sobre a evolução do homem e a vulnerabilidade do ser humano no espaço – em suma, as principais questões que compõem os atos iniciais da obra cinematográfica de Stanley Kubrick. Hoje, iremos mais adiante para explorar dois temas igualmente polêmicos: a relação entre o homem e a máquina e a sequência final mais “queima-neurônios” da história do cinema. Acompanhe a continuação do bate-papo entre os jornalistas Carlos Carvalho e Rafaela Caetano e convença-se de que 2001 deveria ser  uma disciplina obrigatória nas escolas.


Rafaela: Retomando o raciocínio anterior, creio que Kubrick quis nos dizer que somos seres novatos no espaço e, como tal, cometemos erros. É aí que entra o HAL 9000. Ora, ele é uma máquina de última geração, logo se considera perfeito. Ele não tem necessidades fisiológicas, não precisa comer, não precisa dormir… ele acha que não erra. E partir numa missão importantíssima onde os seres humanos são os protagonistas é o cúmulo para ele, né? Humanos podem por tudo a perder. Esta é a deixa para que HAL, a ferramenta criada pelo homem, queira dominá-lo.

Carlos: Mas HAL comete um erro, e os homens passam a questionar sua eficiência. E se ele colocar a missão em risco? Então, surge a ideia de desativá-lo. O problema é que o HAL é macaco velho (RÁ!) e saca qual é a dos caras. Daí ele resolve fazer justiça com os próprios chips.

Rafaela: E que instinto de sobrevivência mais humano o de HAL quando percebe que sua “vida” está em risco! Ele logo trata de assassinar os tripulantes da nave… exceto Dave, que é um carinha sagaz.


Carlos: Pois é. Essa parte que envolve toda a trama do Dave com o HAL e esse lance dele ser uma máquina (que se julga) perfeita me fez pensar se de fato essa evolução tecnológica não teve uma influência direta dos ETs. Tipo, “vamos dar a esses humanos a capacidade de criar uma inteligência artificial quase perfeita, e quando esta inteligência artificial atingir seu maior nível de ‘consciência’, vamos testar em qual nível estão os seres humanos. Se eles forem capazes de superar a inteligência suprema que criaram, então estarão preparados para um novo passo na sua evolução natural: alcançar o nirvana do conhecimento e se tornar uma ‘nova espécie’… que também terá sua própria evolução, futuramente”.

Rafaela: Outra hipótese: Será que o 2001 tenta nos dizer que o homem deve usar a máquina como escada para sua evolução, e não como substituta? Porque se for, já não diria que os ETs estavam esperando o homem “superar a inteligência suprema”, mas sim que se reafirmassem como ‘dominadores/superiores’, afinal naquela altura do campeonato os homens estavam entregando todo o trabalho para as máquinas e agindo como meros técnicos de manutenção. E que melhor maneira de firmar-se como superior do que “matando” HAL com uma chave de fenda? O homem se utilizou de uma de suas ferramentas mais elementares para destruir sua criação quase perfeita. Ele voltou a ter controle sobre a ferramenta.

Carlos: Pois bem, depois do Bowman dar um jeito no HELL (digo… HAL), surge aquela mensagem gravada sobre a descoberta do monólito e que a emissão de rádio comprovava a existência de uma espécie de vida em outro planeta. E é aí que o Bowman é “tocado” pelo monólito… é o terceiro salto na evolução da nossa espécie. O primeiro foi lá com os macacos, descobrindo uma ferramenta de opressão; o segundo foi na lua, o que faz com que eles tenham o conhecimento de uma nova forma de vida, digamos assim; e o terceiro agora, com o Dave “fazendo contato” de fato com essa forma de vida. Então, é realizada a viagem a Júpiter.

Carlos: Essa é a parte mais brisada, psicodélica e floydiana do filme, obviamente, e eu quase posso ouvir Echos sendo tocada enquanto ele viaja pelo “hiperespaço”. Sim, porque o Kubrick imaginou tudo aquilo enquanto ouvia os primeiros discos do Pink Floyd, sendo que o primeiro foi lançado um ano antes do filme e o segundo no mesmo ano. Mas enfim… essa parte é bem legal, porque é, talvez junto com o início do filme, onde as interpretações rolam mais soltas…

Eu entendo que o Dave estaria viajando pelo espaço-tempo e em um dos momentos aparecem umas coisas azuis, como se fossem diamantes, separadas por uma distância igual entre elas. Fiquei me perguntando se aquilo não seriam as “naves extraterrestres” fazendo a escolta do Dave pela viagem dele. Então, ele chega ao quarto. Essa talvez seja a parte mais complicada do filme. Bowman vai ficando velho, o monólito aparece… talvez o que esteja acontecendo ali seja a transição do homem para uma nova espécie.

Dave é o escolhido, o the chosen one, para que a nossa espécie atinja um novo nível na cadeia evolutiva. E é aí que entra o bebê-estrela… ele também é uma metáfora para o nascimento de uma nova espécie, certamente mais evoluída que a nossa. Há um detalhe curioso: os olhos são diferentes um do outro… um é bem mais velho, talvez para representar que esse novo ser é mais inteligente e experiente.

Rafaela: Imagino que os ETs tenham criado aquele quarto para que Dave se ambientasse mais facilmente. E para mostrar uma coisa: você podia adquirir consciência, podia dominar, podia perder o domínio e voltar a obtê-lo, mas ainda havia algo que o ser humano não podia fazer: vencer a mortalidade. E, como que mostrando o quanto a vida do homem é fugaz para o universo, o corpo de Dave envelheceu. Pereceu. Mas seu espírito, sua alma, não. Dave tornou-se o bebê-estrela, ou o super-homem de Nietzsche, como preferir. Ele é puro conteúdo, pura essência.

Carlos: O que você disse sobre o quarto faz sentido, principalmente porque o Dave só encontra o monólito quando ele está no estágio final da sua vida, quando já não consegue sequer ter forças pra alcançá-lo. Durante todo o tempo anterior, ele fica naquele estado de contemplação da própria vida, vendo-se envelhecer sem ter qualquer controle sobre aquilo. É ótimo que o filme tenha um final para ser interpretado, sem uma verdade absoluta, porque assim ele sobrevive ao tempo.

Rafaela: E nos permite imaginar finais tão incríveis quanto a própria história!


Rafaela Caetano é jornalista e trabalha com revistas especializadas em games.

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