Dia Internacional da Mulher e o machismo no cinema

Glenn Close no drama Albert Nobbs

O Dia Internacional da Mulher deveria servir muito mais como reflexão do que como comemoração. Não há muito o que as mulheres comemorarem, pois ainda são vistas como sexo frágil e, na maior parte das vezes, são vítimas de um machismo velado por homens que acham que estão sendo “feministas”, quando na verdade são apenas fruto de uma herança machista e opressora do sexo oposto.

No próprio cinema, para não fugir do foco do blog, vemos esse machismo todos os dias, em quase todos os filmes a que assistimos. Recentemente, citei no twitter que a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood exercia um machismo (não muito) velado, já que sempre coloca os prêmios destinados às mulheres numa escala inferior a dos homens. Os prêmios de Melhor Atriz e Atriz Coadjuvante sempre aparecem como menos importantes, tanto na lista de indicados quanto na dos vencedores, em relação aos de Ator e Ator Coadjuvante.

E não apenas isso, a maior parte dos votantes da Academia são homens, assim como apenas uma mulher venceu o prêmio de Melhor Direção: Kathryn Bigelow, por Guerra ao Terror, em 2010. Mas aí alguém vai falar “mas não é por que tem poucas mulheres dirigindo filmes?”. E aí eu respondo com outra pergunta: e por que é que tem pouca mulher dirigindo? Será que não tem um monte de outras mulheres que querem dirigir e não conseguem espaço?

Ainda sobre o (não tão) glorioso prêmio da Academia, na esmagadora maioria das vezes, o host do Oscar é homem. Desde sua primeira edição, em 1929, até 1994, nenhuma mulher havia apresentado sozinha a premiação. Sempre que havia uma mulher (e era raro) ela estava acompanhada de outro apresentador homem. Isso só mudou (um pouco) quando Whoopi Goldberg apresentou a cerimônia em 94, tendo repetido a dose mais três vezes. Além dela, apenas Ellen DeGeneres apresentou sozinha, em 2007. Depois, no ano passado, Anne Hathaway também foi host, mas dividiu o cargo com James Franco, voltando à velha tradição machista da Academia de colocar mulheres apresentando ao lado de homens.

Mais precisamente sobre os filmes, dá para contar nos dedos quantos realmente são realizados sem desvalorizar (ainda que sem essa precisa intenção) a mulher. Não que eu faça questão de ver banalizada uma sexualidade masculina nos filmes, mas a cruzada de pernas em Instinto Selvagem não foi do Michael Douglas; também não era o Shia LaBeouf que estava praticamente semi-nu consertando um carro em Transformers; o Superman usa calças compridas e capa, a Mulher-Maravilha shorts e decotão; o cinema noir não fala de detetives mulheres e hommes fatale; o mocinho, sempre espertão, a mocinha, sempre ingênua e indefesa… apenas alguns exemplos.

“Ah, mas na vida real é diferente”. Não, infelizmente, não é. O Dia Internacional é da mulher, a Lei Maria da Penha é para a mulher, a delegacia é da mulher. Se existem todas essas coisas deslocadas para um gênero específico, quer dizer que há algo de errado acontecendo para este gênero que não acontece com o outro.

O cinema só reflete a realidade do dia a dia. A gente é que (finge que) não percebe.

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Jornalista e crítico de cinema. Coautor do livrorreportagem Cine Belas Artes: Um Olhar Sobre os Cinemas de Rua de São Paulo. Acha O Poderoso Chefão o melhor filme do mundo, mas torce todos os dias para assistir a algum que o supere. Ainda não encontrou, mas continua buscando. E-mail: carlos@setimacena.com // Letterboxd: @CarlosCarvalho