To Kill a Mockingbird

Ao abrir o Facebook de meu amigo Carlos Carvalho, co-fundador deste site, me deparei com um link assustador. O nome fala por si: “A aberração e o assaltante”. Habitante de um país onde apresentadores de TV gritam “morte ao bandido” e pessoas são linchadas antes que se pense em ligar para a polícia, torci o nariz para o título provocativo. Mas cliquei. Era um texto de Pablo Villaça, crítico de cinema do site Cinema em Cena, sobre o vídeo de uma entrevista realizada em um desses programas do mundo cão.

O assaltante em questão é um jovem negro, ladrão confesso, mas que alega inocência a uma acusação de estupro. A aberração? A repórter, que alheia aos apelos emocionados do acusado, faz troça de seu vocabulário ruim para o deleite de um público digno do Coliseu. Mas não nos atemos a esta questão, embora fosse possível execrar a jornalista apenas por rir de algo tão lamentável, tão digno de pesar, que é a falta de conhecimento – a mesma que permite que os políticos estejam onde estão e que não impõe barreiras para que pessoas assim se formem em jornalismo.

O que quero dizer é que não pude deixar de pensar no filme To Kill a Mockingbird (1962) (Matar uma cotovia), traduzido como O Sol é Para Todos. Um dos principais temas do filme é a luta do advogado Atticus Finch (Gregory Peck) para defender Tom Robinson (Brock Peters), um jovem negro acusado de estupro. Imagine que, em plenos EUA da década de 30 – período em que a narrativa se situa – defender um negro de tamanha acusação era como assinar um atestado contra a convivência em sociedade. E de fato Atticus foi repudiado. Mas isto não impediu que Atticus se utilizasse de todos os meios possíveis para absolver o inocente réu, condenado antes mesmo de entrar no tribunal.

Tom não dispunha da confiança, das leis. Sentado de frente para os brancos que o acusavam, só lhe restava uma última arma contra a avalanche de injustiça e escárnio: a palavra. Mas do que vale a sua defesa diante do argumento de uma branca, que sem qualquer prova do crime pode muito bem usufruir apenas da palavra, que, saindo de seu corpo alvo, não pode ser outra coisa senão verdadeira. De nada adiantaram os esforços de Atticus e Tom. Julgado, Tom Robinson foi morto ao tentar escapar da prisão. Calado, como quando se mata um pássaro livre.

Quem pode garantir que o jovem do vídeo não terá o mesmo destino que o infeliz Tom? Ora, ainda que separados por continentes, épocas e pela linha entre a realidade e a ficção, não são eles o mesmo homem? Os mesmos que, sob os risos e olhares de ódio, apelam pelo direito de falar, provar a inocência? E aqueles que insistem em defendê-los – os Atticus da vida real – não são igualmente objeto de desprezo perante a sociedade que invoca justiça enquanto ri da desgraça alheia?

Nos resta lamentar esta vida que imita a arte, e se me cabe aproveitar esta expressão clichê de maneira plena, me levanto como os negros de To Kill a Mockingbird e digo à todos que ao menos se indignam diante de tais fatos o mesmo que um negro falou à filha de Atticus quando este saiu derrotado do tribunal:

– Levante-se, seu pai está passando.

Link para o texto do Pablo Villaça e o vídeo citado: http://www4.cinemaemcena.com.br/diariodebordo/?p=1874

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Jornalista, cinéfila e fanática por Beatles. Acha que a relação entre filmes e videogames pode gerar grandes frutos e que Clint Eastwood é o homem dos sonhos. Twitter: @RafaelaCaetano e-mail: rafa_starkey@hotmail.com