You can’t handle the truth (ou haters gonna hate)

Em março deste ano, no Dia Internacional da Mulher, escrevi este texto falando um pouco sobre como as mulheres ainda sofrem muito preconceito na nossa sociedade e como no cinema isso não é nada diferente. Esses dias, me deparei com esse post no blog Pink Vader escrito pela Laura Buu e fiquei refletindo, assim como ela fez, sobre esse cenário em que a gente vive de geração de conteúdo, contato com o público e com assessorias. Meu pensamento acabou tomando rumos bem amplos, mas todos levaram a um único destino: respeito (ou a falta dele).

Há pouco tempo, aconteceu um pequeno mal entendido entre o Sétima Cena e uma grande distribuidora de filmes, que obviamente não vou citar o nome por não ter importância para a história. Esse mal entendido quase nos prejudicou e, por consequência, prejudicaria também os nossos leitores, que não teriam o conteúdo gerado da maneira como desejávamos. Por sorte, o problema pôde ser resolvido sem que eu tivesse de enviar um e-mail, que já estava pronto, exigindo mais respeito pelo nosso trabalho.

Acredito que esse também deve ser um dos grandes problemas que o Pink Vader (e vários outros sites e blogs) enfrenta. Mas há um agravante, a maior parte da equipe do blog é composta por mulheres, o que já implica em ter de vencer mais uma batalha, a do machismo da nossa sociedade, que aceita o fato de que homens podem manter sites com um conteúdo que abrange os dois sexos, mas não recebe com bons olhos quando o contrário acontece, mulheres escrevendo para ambos os sexos.

Como comentei com a Laura pelo Twitter, isso me lembrou de uma crítica que a Flávia Gasi recebeu em um dos Omeletvs, videocast do Omelete, de um troll que falava que ela não entendia nada de games, só porque ela falou alguma coisa com a qual ele não concordou. Mal sabia o rapaz que a Flávia trabalha com games há mais de uma década, é jornalista e mestre em comunicação e semiótica, com uma dissertação sobre o processo criativo dos videogames. Ou seja, um mané sem qualquer conhecimento sobre a experiência dela, apenas por não concordar com algo que ela disse, agiu de forma extremamente preconceituosa e desrespeitosa, quando na verdade poderia apenas ter apontado seus argumentos discordando educadamente de suas opiniões. Será que ele teria agido da mesma forma se o comentário tivesse vindo do Érico Borgo, por exemplo?

Recentemente, o crítico e blogueiro da Folha André Barcinski escreveu um texto no qual fala um pouco sobre o risco que os jornalistas correm de serem levados para o lado negro da Força, seduzidos por brindes e outras regalias distribuídas por assessorias e afins. É um ótimo texto e, no fundo, trata também do respeito com que o profissional deve ter por ele mesmo, por sua própria profissão e por aquilo que é de maior valor para o jornalista, a credibilidade.

Mas aonde eu quero chegar com tudo isso? Que todos esses casos citados aqui estão diretamente ligados a uma única coisa: respeito mútuo. Das assessorias, dos geradores de conteúdo, do público. Se qualquer uma dessas partes falhar, problemas graves podem acontecer. E é muito comum que aconteçam. Quantos sites e blogs não devem se encerrar todos os dias por conta da falta de respeito que recebem dos leitores e/ou dos próprios colegas da imprensa. Quantos jornalistas não devem se submeter às regalias oferecidas por assessorias, para não perder a chance de fazer certas coberturas. Quantas mulheres não se calam todos os dias ao serem tratadas com desrespeito, seja pela profissão que exercem, pelo assunto que resolvem falar ou simplesmente porque não estão pilotando um fogão.

Há algum tempo, escrevi um texto em um antigo blog pessoal falando sobre o fechamento do Cine Belas Artes, em São Paulo. Para quem não conhece, era um dos cinemas de rua mais clássicos da cidade, com uma programação mais voltada aos filmes de arte, e que fechou suas portas no começo do ano passado. Nesse texto, em um tom de ironia, eu defendia o fechamento do Belas Artes, que tinha a promessa de ser reaberto em um outro local, ainda mais moderno.

Eu falava que seria uma grande oportunidade de vermos melhorias, entre elas até a instalação de uma sala 3D, tecnologia que na época ainda era apenas enxergada com olhares comerciais, e obviamente destinada a filmes blockbuster. Eu dizia que era a chance de transformar o Belas Artes em um centro de integração, não de segregação, já que o público que frequentava o cinema era mais ligado a filmes de arte. Assim, pessoas que gostassem mais de filmes comerciais, poderiam dividir um mesmo espaço com esse outro tipo de público e até passar a gostar de coisas diferentes, e vice-versa. Me falaram que eu não entendia sobre nicho e que aquilo que eu dizia era uma grande besteira.

Pra mim, a arte, o entretenimento, a cultura, têm de ser enxergados como uma forma de inclusão, não de segregação. Claro que às vezes você acaba pertencendo a um nicho, mas não se pode levar em conta que apenas aquele nicho é o seu público, principalmente porque dentro dele é muito comum você também ser excluído de alguma forma. Hoje, vemos cineastas como Werner Herzog (A Caverna dos Sonhos Esquecidos), Wim Wenders (Pina) e Martin Scorsese (A Invenção de Hugo Cabret), que são respeitadíssimos por quem gosta de cinema alternativo, utilizando os recursos do 3D. Até o Godard vai filmar em 3D! É tão absurdo assim pensar que o Belas Artes poderia abrigar uma sala desse tipo?

É claro que o Pink Vader atende a um nicho, o público interessado em assuntos com temática nerd: cinema, literatura, quadrinhos, games. E é claro que por ser um blog escrito majoritariamente por meninas, acaba chamando atenção por isso, já que a grande maioria dos geradores de conteúdo de outros veículos são homens. No entanto, mesmo dentro do cenário nerd o Pink Vader encontra sérios problemas para se sentir inserido. A própria Laura fala isso no texto que citei acima e, há um ano atrás, em um vídeo sobre a San Diego Comic-Con 2011. Que lá fora, ela se sente parte de um grupo, coisa que aqui no Brasil é difícil.

É difícil, porque as assessorias não te respeitam, porque você ainda não é grande como um Omelete, um Cineclick; não te respeitam porque você pertence a um nicho e, por isso, não abarca uma parcela maior do público; não te respeitam porque acham que te seduzem com brindes e outras regalias. Pior, às vezes até o público age com desrespeito, seja porque você escreve para um certo grupo de pessoas, por você ser mulher, ou até por dar uma opinião diferente da que ele quer ouvir.

Até quando a gente vai ter que ver mulher tendo que provar que é capaz de fazer algo fora dos afazeres domésticos, blogs tendo que provar que são capazes de fazer um trabalho sério, jornalistas tendo que provar que têm credibilidade, assessorias tentando coagir profissionais, leitores desrespeitando geradores de conteúdo apenas porque não gostam daquilo que eles publicam, com a regalia de poderem esconder o rostinho cheio de espinhas atrás de um avatar ou do total anonimato?

Tanto nós do Sétima Cena como o pessoal do Pink Vader e de dezenas, centenas, milhares de outros blogs espalhados pelo mundo, fazemos isso mais por amor do que por grana. Esse blog não paga as nossas contas, o Pink Vader não deve pagar todas as contas da Laura, e o seu blog, se você tiver um, também provavelmente não paga as suas. Mas tenho certeza de que tudo o que é feito, seja aonde for, tem o máximo de dedicação, porque é isso o que a gente gosta de fazer, independentemente de nos dar ou não dinheiro. Mais do que grana, todo mundo quer respeito pelo seu trabalho. Independentemente de os leitores concordarem ou não com as nossas opiniões. Desde que discordem usando argumentos válidos e não apenas agindo como um descerebrado ou, pior, um descerebrado preconceituoso, machista, misógino.

Acho que, por mais chato que esse tipo de texto possa ser, ele se faz necessário. Os trolls vão continuar sendo trolls, os assessores de má fé vão continuar agindo de má fé, os preconceituosos vão continuar sendo preconceituosos. Mas, se a gente não se manifestar, não falar nada a respeito, mais e mais exemplares dessas espécies podem surgir, achando que têm o domínio de alguma coisa, que têm algum poder, quando na verdade, têm apenas acesso à internet.

Mais respeito, de todo mundo, para todo mundo, por favor.

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Jornalista e crítico de cinema. Coautor do livrorreportagem Cine Belas Artes: Um Olhar Sobre os Cinemas de Rua de São Paulo. Acha O Poderoso Chefão o melhor filme do mundo, mas torce todos os dias para assistir a algum que o supere. Ainda não encontrou, mas continua buscando. E-mail: carlos@setimacena.com // Letterboxd: @CarlosCarvalho