Crítica: A Hora e a Vez de Augusto Matraga, de Vinicius Coimbra

É preciso dar a devida atenção a um filme que recebeu pouca, ou quase nenhuma, desde que foi realizado e levou anos para ser lançado: A Hora e a Vez de Augusto Matraga, de Vinicius Coimbra. O longa baseado no clássico conto homônimo de João Guimarães Rosa, presente em Sagarana, foi realizado em 2011, venceu cinco prêmios no Festival do Rio daquele ano, mas só chegou ao circuito comercial em 2015, devido, ao que me consta, à falta de verba para distribuição em algum enrosco burocrático entre a Ancine e a distribuidora.

Pois bem, finalmente tive a chance de assisti-lo na TV a cabo essa semana e fui arrebatado pela primorosa adaptação de Coimbra, que soube como transpor para a tela a essência da obra original, com um profundo respeito ao texto de Guimarães Rosa e dando um tom mais épico à saga de Matraga que o clássico do Cinema Novo dirigido por Roberto Santos, em 1965. No longa de Coimbra, João Miguel dá vida ao personagem título, um homem metido a valentão que acaba perdendo a esposa e a filha para um fazendeiro rival e quase a própria vida em uma emboscada armada por outro desafeto. Ao se salvar milagrosamente dessa arapuca, Augusto Matraga acaba resgatado por um casal que o “adota” e tenta buscar redenção entregando sua vida a deus, em troca de um lugar no céu.

Durante anos, Matraga recupera corpo e alma enquanto dedica todos os seus dias ao trabalho duro em troca do perdão divino, abrindo mão, inclusive, de uma justificada vingança, tanto do homem que tentou matá-lo e que atualmente assumiu suas fazendas, quanto do rival que lhe roubou a família. O problema é que a tentação não tarda em aparecer e encontra um antigo conhecido, que lhe revela toda a história que ele não pôde presenciar em seus anos de exílio, e lhe desperta aos poucos parte dos sentimentos de outrora, reforçados ainda mais quando conhece Joãozinho Bem-Bem, outro encrenqueiro afamado na região.

Essa batalha diária consigo mesmo, nessa vida dividida entre o desejo de ir para o céu (nem que seja a porrete!) e a ânsia de resgatar o brio dos tempos de valentão, faz de Matraga um dos personagens mais interessantes de toda a obra rosiana. Com muita sensibilidade e versatilidade, João Miguel constrói essas duas facetas de Matraga com o mesmo primor que Leonardo Villar (um de nossos maiores atores) o fizera no filme de 1965. Ambos atores, inclusive, possuem uma característica bastante admirável que é a de, com um simples ajuste de olhar, saírem de uma feição singela e até mesmo inocente para uma mais amedrontadora e incisiva. Com isso, fica “fácil” (pra eles, claro) darem vida a uma persona que começa sua história carregado de violência, passa por uma fase totalmente apaziguadora e, finalmente, retorna às origens, mas agora também sob influência de seu período de devoção a deus, que lhe concede a percepção de que pode entrar no céu mesmo que seja por meio da violência.

Outra atuação que merece destaque é a de José Wilker, que interpreta o arranca-toco, o treme-terra, o come-brasa, o pega-à-unha, o fecha-treta, o tira-prosa, o parte-ferro, o rompe-racha, o rompe-e-arrasa: Seu Joãozinho Bem-Bem, o famoso jagunço que percorre o sertão de Minas Gerais tocando o terror com seu bando e que encontra em Augusto Matraga um amigo dos mais improváveis. Com uma postura quase solene e um vozeirão de impor respeito, Wilker dá a Joãozinho Bem-Bem o tamanho que a fama na região lhe consagra. Soma-se a isso a química que desenvolve com João Miguel desde o momento em que Bem-Bem e Matraga se conhecem até a trágica cena final.

Com um roteiro bastante fiel à atmosfera construída por Guimarães Rosa em seu conto, e mantendo a maior parte dos diálogos exatamente como os do livro, Coimbra e sua parceira de caneta, Manuela Dias, não se furtam diante do desafio que é levar para o cinema uma narrativa extremamente calcada no virtuosismo da palavra, tanto em relação aos neologismos do autor quanto nas características do falar sertanejo de seus personagens. Não obstante, terem sido fiéis ao material original se apresenta tanto como uma característica positiva quanto negativa, já que quando falado pelos atores de maior destaque, como os já citados João Miguel e José Wilker, mas também por Irandhir Santos (Quim Recadeiro) e Chico Anysio (Major Consilva), o texto se desenvolve com naturalidade, mas quando acaba dito por personagens mais secundários, soam um pouco mais artificiais, tirando parte da verossimilhança da adaptação.

Mas se, por alguns momentos, certos diálogos soam menos naturais, o mesmo não se pode dizer da fotografia de Lula Carvalho, que acompanha com muita elegância a vida de Matraga no sertão mineiro e lança mão de certos movimentos de câmera mais realistas, com câmera na mão quando a ação toma conta da tela, como na cena inicial em que o protagonista se vê envolvido em um tiroteio, ou na épica batalha final do nosso anti-herói contra a injustiça de seu amigo Joãozinho Bem-Bem. Em outros momentos, a câmera de Lula Carvalho chega a lembrar (guardando as devidas proporções, claro) alguns planos de John Ford em Rastros de Ódio, seja nos planos mais abertos, em que ele faz questão de valorizar a topografia do interior mineiro, como Ford e o Monument Valley, ou em tomadas internas, como no momento em que Matraga se despede do casal que o ajudara para partir em busca de sua hora e sua vez.

A montagem é outro ponto de destaque no longa de Coimbra. Desde a abertura, que mostra logo de cara a valentia de Matraga, até o desenrolar de sua vida no exílio, as cenas vão se escalonando de forma a sempre avançar a narrativa dessa história. E, a partir do momento em que o anti-herói se vê tentado a retornar à sua vida de vícios (cigarro, mulheres e violência), as sequências vão ganhando um ar mais de épico de faroeste, até chegarem ao confronto final, com toques de tragédia grega.

Com tudo isso, é de se lamentar que um filme baseado em um dos contos mais clássicos de nossa literatura tenha sido tão pouco visto e debatido, ainda mais ao respeitar tão bem o material original e não se limitar a tentar refazer o clássico de Roberto Santos. Sendo assim, A Hora e Vez de Augusto Matraga, de Guimarães Rosa, pode se dar ao luxo de contar com duas ótimas adaptações cinematográficas, criativas e autorais, cada uma à sua maneira.

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Jornalista e crítico de cinema. Coautor do livrorreportagem Cine Belas Artes: Um Olhar Sobre os Cinemas de Rua de São Paulo. Acha O Poderoso Chefão o melhor filme do mundo, mas torce todos os dias para assistir a algum que o supere. Ainda não encontrou, mas continua buscando. E-mail: carlos@setimacena.com // Letterboxd: @CarlosCarvalho