Crítica: A Invenção de Hugo Cabret

Quando terminei de ler A Invenção de Hugo Cabret, de Brian Selznick, tive a certeza do motivo pelo qual Martin Scorsese o estava adaptando, já que este é o primeiro longa do diretor com temática infantil e em 3D. Melhor, tive a certeza de que, talvez, nenhuma outra pessoa pudesse adaptá-lo de forma mais honesta e pessoal.

Ao longo de suas mais de 500 páginas, Selznick nos apresenta, de forma leve e usando dezenas de ilustrações que nos transportam para dentro da trama, o jovem Hugo Cabret, um órfão que vive na estação ferroviária central em Paris, na década de 1930, que é filho de um relojoeiro que acabou morrendo em um incêndio no museu onde trabalhava. O garoto passa a morar com seu tio bêbado nas entranhas da estação, até que este desaparece e Hugo passa a cuidar sozinho dos grandes relógios.

Carregando consigo um pequeno caderno onde seu pai tinha feito anotações sobre a montagem de um autômato (espécie de robô preparado para exercer uma função), Hugo encontra este “robô” e acredita que, se conseguir consertá-lo, ele escreverá uma mensagem para ele, deixada por seu pai. Mas, quando consegue consertar o mecanismo, é surpreendido não por uma carta ou bilhete, mas por um desenho (que não contarei aqui para não estragar a grata surpresa) e é aí que a história passa a homenagear Georges Méliès, gênio reconhecido por ser um dos pioneiros do cinema, onde desenvolveu os primeiros efeitos especiais e começou a utilizar storyboards para realizar seus filmes.

Em sua primeira incursão no mundo do 3D, Martin Scorsese faz de Hugo um referencial para os filmes realizados com essa tecnologia, já que o cineasta explora muito bem os espaços abertos para criar os efeitos de profundidade e aproveitar o potencial do recurso. Poucos filmes até hoje conseguiram utilizar tão bem o 3D como este, que apresenta uma direção de arte e fotografia muito bonitas, principalmente pelos tons arroxeados pouco comuns nos filmes.

Além de toda a sua contribuição no “fazer cinema”, Scorsese também é reconhecido por ser um dos maiores defensores de sua preservação. E Hugo trata exatamente deste assunto quando resolve homenagear Méliès, que na história, havia sido dado como morto durante a Primeira Guerra Mundial. Ao encontrá-lo e trazê-lo à tona, Hugo se torna um alter ego do próprio Scorsese, já que o garoto ajuda-o à resgatar parte de sua obra que não havia se perdido e fazê-lo ser reconhecido em vida, ao contrário da realidade, na qual Méliès morreu pobre e esquecido.

Apesar da história simples de Hugo, obviamente voltada para o público infantil, o filme não deixa de ser interessante em momento algum, principalmente porque é muito bem sustentado por suas atuações. Asa Butterfield (O Menino do Pijama Listrado), que interpreta o protagonista, e Chloë Grace Moretz (Deixe-me Entrar e Kick-Ass) formam uma dupla bastante convincente, especialmente nos momentos mais dramáticos.

Georges Méliès e Ben Kingsley (não necessariamente nesta ordem)

Sacha Baron Cohen (Borat), que interpreta o inspetor da estação, personagem que tem pouca participação no livro, mas ganha destaque no filme de Scorsese, serve de alívio cômico para a história. E não podemos esquecer da lenda Ben Kingsley, que é o próprio Méliès reencarnado nesta obra e que nos presenteia com uma atuação elegante, tanto na primeira parte do filme, quando ainda é apenas o dono de uma loja de brinquedos na estação ferroviária, quanto no momento em que seu personagem se depara com o passado glorioso de outrora, mas que agora se vê ignorado por todos.

A Invenção de Hugo Cabret pode até ser filme para crianças, mas jamais poderá ser chamado de filme DE criança. A excelente adaptação de Scorsese para o livro de Selznick capta bem o espírito dos personagens e traz pequenas modificações para que a história se torne mais consistente nas telas. E embora o cineasta seja mais conhecido por filmes de gângster e violência, Scorsese já se aventurou por diversos estilos, como comédia, musical, documentários, suspense, drama… sempre com trabalhos no mínimo excelentes.

Com isto, A Invenção de Hugo Cabret se torna mais uma pequena obra-prima na brilhante carreira do cineasta mais cinéfilo de Hollywood, que pode acabar levando (merecidamente) sua segunda estatueta no Oscar, no dia 26 de fevereiro. Confesso que já estou na torcida.

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Jornalista e crítico de cinema. Coautor do livrorreportagem Cine Belas Artes: Um Olhar Sobre os Cinemas de Rua de São Paulo. Acha O Poderoso Chefão o melhor filme do mundo, mas torce todos os dias para assistir a algum que o supere. Ainda não encontrou, mas continua buscando. E-mail: carlos@setimacena.com // Letterboxd: @CarlosCarvalho