Crítica: Antes da Meia-Noite

– Sabe que, com a idade, os casais não ouvem direito um ao outro?
– Não…
– Os homens perdem a capacidade de distinguir sons agudos e as mulheres, de distinguir sons graves. Eles se anulam.
– Acho que sim. Assim os casais envelhecem juntos sem matar um ao outro.

Celine e Jesse, quando se conhecem, em Antes do Amanhecer

Mais uma vez, nove anos após o filme anterior, este terceiro filme de Richard Linklater sobre os personagens Jesse e Celine, Antes da Meia-Noite, chega aos cinemas para nos mostrar como está e o que aconteceu com a vida de um dos casais mais cultuados do cinema. Com um plano de abertura que remete já ao primeiro filme, mostrando os pés de duas pessoas caminhando, logo percebemos que elas são Jesse e o filho, Hank, fruto de seu casamento fracassado citado no segundo filme, Antes do Pôr-do-Sol. Pai e filho caminham pelo aeroporto, onde o menino embarcará em um voo de volta aos Estados Unidos, após as férias que tiveram na Grécia.

Monossilábico, o menino praticamente não compactua do diálogo (quase um monólogo) constante incentivado pelo pai que, agitado por tê-lo de “devolver” à mãe, não para de insistir que vai se esforçar para visitá-lo logo. Antes de partir, Hank diz que teve as melhores férias de sua vida, e embarca rumo à casa da mãe. Está ligado o motor de todo o desenrolar de Antes da Meia-Noite. Ao acompanharmos Jesse para fora do aeroporto, vemos Celine encostada em um carro, esperando por ele. Não restam mais dúvidas, estão juntos. No carro, duas gêmeas, dormem no banco de trás, filhas do casal. É o que precisávamos saber do que aconteceu após o término do segundo filme, quando Celine diz a Jesse que ele vai perder seu avião de Paris para os Estados Unidos.

Em uma longa conversa no carro, de volta à casa onde estão hospedados, Jesse e Celine travam um tradicional diálogo linklateriano, bem humorado, cheio de ironias e sobre a vida, trabalho, amor e, principalmente, a angústia de Jesse ao ter de se afastar de Hank todos os anos. Ele se culpa por ter se separado da esposa e, consequentemente, do filho. Ali é plantada a semente do que veríamos no decorrer do longa, todas as conversas caminhando na linha tênue que divide a vida conjunta de um casal entrando na crise da meia-idade e a própria separação, que em diversos momentos do filme quase soa como inevitável.

Diferentemente dos dois primeiros longas, onde praticamente todos os grandes diálogos são travados apenas entre Jesse e Celine, aqui, temos algumas cenas divididas com os anfitriões do casal na Grécia, principalmente na longa cena do almoço, onde os diálogos caminham todos sobre a visão de três casais de diferentes idades, além de um senhor e uma senhora viúvos, sobre o amor. É curioso ver que, quanto mais jovens, mais práticas e minimalistas são as opiniões sobre o assunto. De acordo com os mais jovens, eles já sabem que uma hora o amor vai acabar e eles se separarão, ao passo que os mais velhos, tentam manter esse amor mesmo após a morte do(a) parceiro(a).

Mais uma vez, Ethan Hawke e Julie Delpy demonstram uma química perfeita, onde é difícil não acreditar que ambos são de verdade Jesse e Celine. A naturalidade com que dialogam pelo texto fluido, assinado mais uma vez por eles e pelo diretor, impressiona. Tudo soa tão espontâneo que parece ter sido rodado de improviso, que não aconteceu. Quando sozinhos, caminhando pelas ruínas e paisagens belíssimas da Grécia, Jesse e Celine se entregam a conversar sobre o próprio amor, sobre o futuro que os espera e sobre alguns acontecimentos do passado, que ocorreram no intervalo entre os dois últimos filmes, como o casamento quaker e o segundo livro escrito por Jesse, exatamente sobre o reencontro com Celine, mostrado em Antes do Pôr-do-Sol.

Já próximo do final do dia, os dois se hospedam em um hotel, a convite de um dos casais amigos que estavam com eles nas férias, e a conversa culmina em uma inevitável discussão, ainda sobre a questão da vontade de Jesse de estar mais próximo do filho, de uma possível mudança dos dois de Paris para Chicago, da troca de emprego de Celine e do que ela teria de abrir mão para que essa aproximação acontecesse.

Inevitavelmente, Jesse e Celine se transformaram no casal austríaco da viagem de trem de Antes do Amanhecer. Envelheceram, e a capacidade de se ouvirem foi anulada. Não importa quem está certo ou errado naquela discussão, nem ao menos se há algum lado certo ou errado. O que realmente importa, é como cada um lida com as características do outro, o que toleram ou não naquele relacionamento e até que ponto são capazes de ceder em nome do amor, que reside não nas qualidades de cada um, mas como cada um tolera os defeitos um do outro.

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Jornalista e crítico de cinema. Coautor do livrorreportagem Cine Belas Artes: Um Olhar Sobre os Cinemas de Rua de São Paulo. Acha O Poderoso Chefão o melhor filme do mundo, mas torce todos os dias para assistir a algum que o supere. Ainda não encontrou, mas continua buscando. E-mail: carlos@setimacena.com // Letterboxd: @CarlosCarvalho