Crítica: Antes do Pôr-do-Sol

Nove anos depois de se conhecerem numa viagem de trem pela Europa, Jesse (Ethan Hawke) e Celine (Julie Delpy) se reencontram em Paris quando ele está em uma turnê de lançamento do seu livro, que conta exatamente a única noite que passou com ela pelas ruas de Viena, na Áustria.

Faltando poucas horas para que ele embarque de volta aos Estados Unidos, os dois decidem flanar pela cidade luz antes do pôr-do-sol e matar o tempo, as saudades e qualquer resquício do ingênuo romantismo dos vinte e poucos anos, substituindo-o por um realismo quase cínico, mas ainda belo, que talvez só os trinta e poucos podem causar.

Logo no início do passeio, ela interrompe o caminhar para questioná-lo se ele realmente voltou à Viena seis meses depois daquele encontro, como haviam combinado, já que ela não pôde ir devido à morte de sua avó, que acabou enterrada no mesmo dia marcado por eles. Ele mente, dizendo que também não foi, mas logo é questionado por ela, que espera uma boa justificativa para a ausência, e cede, confessando ter ido.

Depois disso, o que se vê é Celine caminhando cada vez mais para um sentimento de frustração com a própria vida, já que ela nunca conseguiu ser completamente feliz em um relacionamento, cujos ex-namorados sempre a procuravam depois do término para dizer que estavam felizes e que iam se casar.

Aliás, situação até um pouco parecida com a de Jesse, que depois de voltar frustrado de Viena por não tê-la reencontrado, conheceu uma nova mulher, com quem teve um filho. Mas seu casamento também não anda bem das pernas e ele dá a entender que só o mantém para não diminuir o contato com o filho.

Mais realista e cínico que o primeiro filme, Antes do Pôr-do-Sol tem seus pontos altos exatamente nos mesmos quesitos que Antes do Amanhecer: o roteiro de Richard Linklater, desta vez também assinado por Ethan e Julie, e a química entre o casal, que domina muito bem as características de seus personagens e empregam muita veracidade em suas atuações.

Poucos casais do cinema passam tanta empatia quanto Jesse e Celine, principalmente porque ambos têm suas próprias idiossincrasias, que quebram um pouco das características mais acentuadas deles. Celine continua doce e idealista, mas também é um pouco paranoica e de saco cheio das coisas. Jesse se mantém como um cara cético em relação a muitas coisas, mas carrega em si traços de uma sensibilidade que talvez a paternidade tenha trazido.

Embora a maturidade e os anos separados mostrem certas mudanças na personalidade de cada um, fica claro que ambos mantêm sua essência e o que de mais bonito mostraram nove anos antes: a cumplicidade um com o outro e a capacidade de refletirem sobre a vida de formas muito peculiares.

E se o filme começa nos mostrando o que significou aquela noite, nove anos antes, para Jesse, ao saber que ele foi capaz de escrever um livro inteiro sobre ela, nada mais justo do que encerrar com o que realmente significou para Celine, em sua bela valsa A Waltz for a Night.


PS: Perdoem-me pelo vídeo, não achei outro melhor com legendas.

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Jornalista e crítico de cinema. Coautor do livrorreportagem Cine Belas Artes: Um Olhar Sobre os Cinemas de Rua de São Paulo. Acha O Poderoso Chefão o melhor filme do mundo, mas torce todos os dias para assistir a algum que o supere. Ainda não encontrou, mas continua buscando. E-mail: carlos@setimacena.com // Letterboxd: @CarlosCarvalho