Crítica: Azul é a Cor Mais Quente, de Abdellatif Kechiche

Apenas uma história de amor. É isso o que Azul é a Cor Mais Quente, vencedor da Palma de Ouro em Cannes 2013, é. Infelizmente, para muita gente, o fato de o filme mostrar um relacionamento envolvendo duas pessoas do mesmo sexo continua sendo tabu. Isso é aumentado quando esse amor envolve cenas de sexo. Quando esse sexo é explícito, então, a palavra “polêmica” certamente vai figurar ao lado da obra por tudo quanto é lugar. Uma bobagem, já que se trata apenas de uma história de amor, como outra qualquer.

Dirigido por Abdellatif Kechiche e protagonizado por Adèle Exarchopoulos e Léa Seydoux, o filme é livremente baseado na HQ homônima de Julie Maroh e conta a história de Adèle, uma colegial de 17 anos que está entrando em sua fase adulta e de conhecimento do próprio corpo e de sua sexualidade. Num primeiro momento, ela inicia um relacionamento com um colega de escola, mas em pouco tempo percebe que não está sendo verdadeira com seus sentimentos e desejos.

Essa confusão é aumentada pelo fato de começar a demonstrar interesse em outras garotas, como uma amiga que certa vez lhe rouba um beijo na escola, e Emma (Léa Seydoux), uma moça mais velha com quem cruzou certa vez na rua e que acabou indo parar em seus sonhos, literalmente. Depois de se reencontrarem em um bar gay, as duas começam uma relação de amizade/flerte que não demora muito para que se transforme em um relacionamento amoroso e sexual.

Sim, as duas transam, e o sexo é explícito em longas cenas durante o filme. No entanto, é um tempo praticamente curto em relação aos 179 minutos da obra, que poderia ser enxergada como um libelo contra o conservadorismo da nossa sociedade e contra o preconceito com a homossexualidade. Mas o que se vê é sempre essa insistência em taxar esses assuntos como polêmicos e dar tratativas rasas a eles, ao invés de mergulhar mais fundo nas temáticas abordadas no filme.

Ao mesmo tempo em que podemos classificar Azul é a Cor Mais Quente como um romance, não podemos nos esquecer do forte drama presente na história, principalmente pelo fato de a protagonista ter de enfrentar o preconceito dos amigos mais próximos em relação à sua sexualidade, além de outros dramas comuns a qualquer casal, hétero ou homossexual.

Aliás, é de se aplaudir de pé a atuação de Adèle Exarchopoulos, que se entrega a um papel extremamente complexo, tanto por conta das confusões que a idade carrega como características quanto dos sofrimentos pelos quais passa sua personagem. Há tempos, que não acreditava tão verdadeiramente no choro de alguém como acreditei no seu.

Léa Seydoux também não deixa por menos, e sua Emma, um pouco mais velha, universitária e, em teoria, mais bem resolvida, tampouco é uma personagem fácil, já que também tem de lidar com o fato de que está envolvida com uma garota cuja bagagem (intelectual, cultural e de vida) é bem menor que a sua, o que lhe dá certa responsabilidade sobre sua parceira mais nova.

Ao contrário do que já foi comentado mundo a fora, a direção de Abdellatif Kechiche não é exagerada, muito menos traz uma visão machista sobre a relação das duas, em especial nas cenas de sexo. Em nenhum momento, há a impressão de que ele passou dos limites e de que as cenas mais quentes são decorrentes de seu próprio hedonismo. Elas podem, no máximo, ser consideradas pouco comuns no cinema contemporâneo.

Mas não tenho dúvidas de que esse julgamento moralista é culpa de um conservadorismo barato, que faz vistas grossas a atos de extrema violência, mortes, assassinatos e outras brutalidades comumente vistas no cinema, e taxa como polêmicas as relações de amor que envolvam sexo e/ou casais homossexuais.

Azul é a Cor Mais Quente é um belo recorte na vida de uma jovem que tem muito em comum com milhões de outros jovens pelo mundo, homossexuais ou não, pois trata do amadurecimento de qualquer ser humano nessa faixa etária. Dos seus questionamentos, suas descobertas e enfrentamentos da realidade jovem adulta. É um filme universal, pois. E bonito. Como também seria se fosse protagonizado por um casal hétero, ou por gays do sexo masculino.

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Jornalista e crítico de cinema. Coautor do livrorreportagem Cine Belas Artes: Um Olhar Sobre os Cinemas de Rua de São Paulo. Acha O Poderoso Chefão o melhor filme do mundo, mas torce todos os dias para assistir a algum que o supere. Ainda não encontrou, mas continua buscando. E-mail: carlos@setimacena.com // Letterboxd: @CarlosCarvalho