Crítica: Boyhood: Da Infância à Juventude, de Richard Linklater

Boyhood: Da Infância à Juventude, novo filme de Richard Linklater, é o que podemos chamar, em sua essência, de cinematográfico. Aquilo que é próprio do cinema e que não pode ser alcançado por qualquer outra forma de arte. Seria simples dizer que este é o trabalho de uma vida, levando-se em conta que demorou 12 anos para ser rodado, mas é mais do que isso: Boyhood é um trabalho de cinco vidas. A do diretor e dos quatro atores principais que compõem aquela família: Patricia Arquette, Ethan Hawke, Lorelei Linklater (filha do cineasta) e Ellar Coltrane, o menino/jovem protagonista.

O longa acompanha a vida de Mason Jr. e sua família, a partir de seus 6 anos, quando entra para e escola, até os 18, quando irá para a faculdade. Mas, ao contrário do que seria comum nesse tipo de história, os atores não foram substituídos ao longo do tempo. Linklater optou por registrar esse crescimento de forma natural, rodando pequenas partes da história a cada ano.

Mason e sua irmã mais velha, Samantha, são filhos de pais separados. Criados pela mãe, Olivia, que começa como uma mulher que luta para concluir a universidade e dar uma vida mais digna à sua família. Mas, com o passar dos anos, vemos que ela não só termina seus estudos como passa a ministrar aulas de psicologia na faculdade.

O pai faz mais o estilo “descolado”. Está ausente há mais de um ano e retorna do Alasca, onde estava a trabalho, para visitá-los. Ninguém sabe direito o que ele faz, principalmente por não ter uma profissão e um emprego fixos. Dá-se a entender que ele faz uns bicos aqui e ali para pagar as contas, intercalando uma rotina de músico amador com a realização de exames para alguma espécie de concurso público.

O acompanhamento gradativo do crescimento de Mason se dá de maneira muito eficiente. Sem parecer que há uma alteração brusca nessa evolução. Em geral, só notamos a mudança de mais um ano ao notarmos os novos cortes de cabelo, tanto dele quanto da mãe e da irmã. A percepção sobre o crescimento do garoto, na maior parte das vezes, mal é notada. Assim como não percebemos o crescimento e envelhecimento de pessoas com quem temos contato diariamente. Isso mostra que Linklater nos envolve em sua história de tal forma que nos afeiçoamos a ela como se fôssemos parte integrante daquela rotina.

Nesse meio tempo, acompanhamos como Mason reage a esse crescimento, tendo de lidar com a rotina de ter pais separados e com os novos maridos de sua mãe, que sofre ao se relacionar sempre com homens que, futuramente, terão problemas com bebidas e ficarão violentos.

Essa vida atribulada dos casamentos de Olivia faz com que sua família tenha de se mudar a todo tempo, além do fato de Mason e sua irmã já terem de lidar com a guarda compartilhada de seus pais. Mas, ao contrário do que poderia se transformar, no típico filme de uma família disfuncional, no qual os filhos em algum momento se tornam garotos-problema, Linklater permanece em sua narrativa sóbria, sem forçar grandes acontecimentos ou polêmicas. Em especial, na vida de Mason, que até o final segue como um garoto comum, assim como sua irmã.

Esse retrato singelo da vida de um jovem do Texas nos faz prestar atenção nos pequenos momentos de brilhantismo de sua história. Seja quando é elogiado por uma colega de classe (volto a ela mais a frente) ao ter seu cabelo raspado por ordem do padrasto alcoólatra; quando ele e a irmã questionam o pai sobre o fato dele próprio não falar muito de sua vida; ou quando eles têm suas primeiras conversas sobre namorados e namoradas com ele, entre outros belíssimos e divertidos momentos.

Durante esses doze anos, não há qualquer indício de ruptura na lógica narrativa construída por Linklater, nem tampouco notamos qualquer diferença de qualidade das filmagens, por exemplo. Os diálogos, que particularmente são um dos fortes de seus filmes, são muito bem escritos, assim como as atuações, que soam bastante naturalistas. Quem teve a oportunidade de ver a trilogia Antes do Amanhecer, sabe que nesses dois quesitos (criação de diálogos e direção de atores) Linklater é mestre.

Boyhood não é apenas a história de Mason, mas também a de seus jovens pais e o processo de amadurecimento diante da criação de dois filhos. Da superação das pequenas dificuldades cotidianas comuns a quaisquer pessoas no mundo. Talvez por isso seja tão fácil se conectar com sua história e mal notar os 165 minutos do longa. No fim, a impressão que dá é de que seria fácil acompanhar toda a vida de Mason, até que envelhecesse.

No fundo, talvez a vida seja como o diálogo final entre Mason e sua nova colega (e provável interesse amoroso) de faculdade, Nicole. Eles concordam que, talvez, não sejam as pessoas que aproveitam os momentos, mas os momentos que aproveitam as pessoas. Boyhood é uma experiência que se aproveita de nós, não o contrário. A propósito, Nicole é o nome da garotinha que escreve o bilhete elogiando o cabelo raspado do pequeno Mason. Que desfecho bonito, Linklater.

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Jornalista e crítico de cinema. Coautor do livrorreportagem Cine Belas Artes: Um Olhar Sobre os Cinemas de Rua de São Paulo. Acha O Poderoso Chefão o melhor filme do mundo, mas torce todos os dias para assistir a algum que o supere. Ainda não encontrou, mas continua buscando. E-mail: carlos@setimacena.com // Letterboxd: @CarlosCarvalho