Crítica: A Árvore da Vida

É, gente, me incumbiram da tarefa de escrever a crítica de A Árvore da Vida. Então segura a peruca e vamos lá.

Esse é aquele tipo de filme intrigante, que você sai do cinema sem saber muito bem o que pensar, sem saber muito o que gostou (ou não gostou), fica meio quieto, meio introspectivo (aliás, como o filme não está mais em cartaz, veja em uma TV grande, por motivos que irei falar).

De qualquer forma, vá e veja. Vale a pena, apesar de as histórias de pessoas que largaram a sessão no meio não serem poucas. Isso porque é um filme devagar, quase sem diálogos, muito contemplativo e bem visual.

Mas, antes de qualquer coisa, essa dinâmica meio doida do longa não é uma surpresa. O diretor Terrence Malick é um velhinho de 68 anos, que em mais de 40 anos de carreira fez apenas 5 filmes, entre eles Além da Linha Vermelha e O Novo Mundo. Então, só os desavisados ficaram boquiabertos com tanta contemplação e lentidão.

A história é um mergulho existencialista narrado por integrantes de uma família, mas majoritariamente por Jack (Hunter McCracken, jovem; Sean Penn, adulto), o filho primogênito em uma família típica texana.

O filme traça o início dessa família, o crescimento dos três filhos, a educação rígida do pai (Brad Pitt), a indulgência e afetividade da mãe (Jessica Chastain, ótima no papel) até a perda do caçula com apenas 19 anos. Todas essas experiências moldaram o que Jack se tornou, coisa que não é mostrada, você apenas deduz pela narração de seus pensamentos.

Toda essa saga familiar é salpicada constantemente por pensamentos sussurrados, soltos na narração. Esses mesmos pensamentos nos deixam cientes do interior dos personagens, principalmente da mãe e do protagonista.

Ao mesmo tempo em que conta a vida dessas pessoas, inúmeras (e sensacionais) imagens mostram o que poderia se tomar como o início do universo, do nosso planeta, dos primeiros seres vivos, dos dinossauros, imagens em macro de nebulosas, estrelas; e em micro de seres unicelulares, células fagocitando, veias de um feto. Não sei se a inclusão dessas imagens teve um motivo muito particular, além de nos deslumbrar (por isso deve ser visto numa tela grande), mas o efeito em mim foi mensurar a nossa incapacidade de compreender o tempo de tudo que houve antes de nós e que irá acontecer depois que aqui não estivermos mais, e da pequenez das minúcias de uma família em comparação com a grandeza de todas as coisas que existem.

Tudo isso tem um profundo apelo religioso, coisa que sempre esteve presente nas obras de Malick. Em uma das narrações, a mãe diz que o homem pode escolher dois caminhos para a vida, o caminho da natureza, ou seja, o caminho dos prazeres e da auto-satisfação; e o caminho da graça, que é o da contemplação da criação divina e aceitação do seu destino individual, e que este último sempre acaba bem.

Claro que há aqueles momentos que você pensa “o que tá acontecendo?” ou “do que eles estão falando, meudeusdoceu?”, mas tudo bem, acho que isso é normal. Você tem que se entregar ao invés de questionar tudo, é a única maneira de ver o filme sem que ele te canse ou te deixe confuso.

A Árvore da Vida tem uma fotografia inacreditável, poucos diálogos e muita interpretação através de olhares, silêncios e closes de expressões. Deve ser visto sem que haja a necessidade de se entender uma história, um começo, meio e fim, assim como o universo, que não sabemos quando começou, quando vai acabar e se realmente fazemos parte do enredo principal.

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Jornalista, coautora do livro Cine Belas Artes: Um Olhar Sobre os Cinemas de Rua de São Paulo. Fã de Pink Floyd, ficção científica e mindfucks em geral. Acha que uma vingança bem arquitetada é um belo mote para qualquer filme. Twitter: @crismedias e-mail: cristiani@setimacena.com