Crítica: A Hora Mais Escura

Dirigido por Kathryn Bigelow e escrito por Mark Boal, ambos de Guerra ao Terror, A Hora Mais Escura é o filme que retrata a missão de caça e morte do terrorista saudita Osama Bin Laden. O filme tem gerado polêmicas por conta de suas cenas de tortura e tem sido acusado de ser conivente com a prática.

Discordo.

Tem se falado tanto das cenas de tortura no filme, que pensei que fossem em maior quantidade durante toda a trama, mas limitam-se ao início do filme. Condeno a prática, já adianto, mas as cenas mostradas não me chocaram tanto quanto imaginava que me chocariam. Não entendo por que tanto burburinho agora, já que estamos cansados de ver esse tipo de coisa em diversos outros filmes e séries. Jack Bauer riria das cenas de tortura apresentadas no filme de Bigelow.

O longa é contado a partir do ponto de vista da personagem Maya, uma agente da CIA muito bem interpretada por Jessica Chastain que atua nos bastidores da busca por Bin Laden. Não é uma agente de campo, não pega em armas, não é uma heroína. Maya, ao contrário, reúne em si mesma a soma de características de toda uma equipe, que deve ter atuado na história real.

Diferentemente de Guerra ao Terror, onde acho que Bigelow pesou a mão e fez do filme um dramalhão não apenas defensor da Guerra do Afeganistão, ao usar da humanização dos soldados americanos para convencer-nos de que, “se não era necessária, embora ‘inevitável’, a guerra, que ao menos torcêssemos pelos nossos bravos soldados americanos”, aqui, A Hora Mais Escura soa mais moderado, menos ufanista.

A personagem vivida por Chastain não quer “acabar com o inimigo”, quer apenas cumprir o seu trabalho. Encontrar o responsável pelos ataques de 11 de setembro. Não é uma incentivadora da tortura, e até se incomoda com isso no início do longa, mas é apenas um peão dentro da corporação e não contesta o sistema, embora confronte seu chefe. É mais realista do que idealista, que seria a característica mais comum nesse tipo de personagem. Com o passar dos anos, acostuma-se aos males, vamos dizer assim, do seu trabalho. Como todos nós nos acostumamos um pouco, assim é a vida.

Durante seus longos 157 minutos, Bigelow constrói tão bem a tensão de toda a operação para a caçada de Bin Laden, que quando a hora chega, tomamos um banho de água fria com um clímax fraco, deixando um pouco a desejar justamente em sua cena mais importante, a invasão da casa onde estava escondido o terrorista. Justificando o nome que o filme recebeu no Brasil, a cena é extremamente escura durante a aproximação dos helicópteros. A invasão é muito mais demorada do que eu imaginava que fosse e até diferente do que costumamos ver na maior parte dos filmes de ação onde são retratadas operações de invasão de residências.

Como o roteirista Mark Boal afirma ter recebido informações de uma fonte ligada à CIA para a construção da história, talvez essa seja de verdade mais próxima da realidade, mas do ponto de vista da emoção que uma cena desse tipo costuma causar no expectador, é quase um anti-clímax.

Em contrapartida, Bigelow acerta em duas decisões que acho importantíssimas e que poderiam transformar o filme em mais um instrumento do ufanismo americano. O fato de não mostrar diretamente o rosto de Bin Laden, ficando apenas naquilo que, para nós, de uma forma minimalista, já é o suficiente para deduzirmos que é ele, a silhueta e a barba. E segundo, o de não transformar a reação dos envolvidos em gritos escandalosos de comemoração da morte do terrorista.

Os militares participantes da operação comemoram moderadamente, como comemorariam o sucesso de qualquer outra operação, com a sensação de dever cumprido e a alegria por não ter morrido. Não se mostra o pronunciamento do presidente Barack Obama, não se mostra a população em festa, não se exalta o orgulho americano por ter “salvado o dia”.

Ao contrário, mostra-se a solidão de uma agente da CIA, que passou 12 anos de sua vida dedicada a encontrar o homem mais procurado do mundo, e suas lágrimas de desespero (?), dor (?), satisfação (?), por ter sido a “filha da puta” (palavras dela) que o encontrou.

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Jornalista e crítico de cinema. Coautor do livrorreportagem Cine Belas Artes: Um Olhar Sobre os Cinemas de Rua de São Paulo. Acha O Poderoso Chefão o melhor filme do mundo, mas torce todos os dias para assistir a algum que o supere. Ainda não encontrou, mas continua buscando. E-mail: carlos@setimacena.com // Letterboxd: @CarlosCarvalho