Crítica: A Toda Prova

Dentre os vários cineastas workaholics de Hollywood, um dos que mais se destacam é Steven Soderbergh. Com mais de 20 filmes no currículo, em uma carreira de pouco mais de 20 anos, o diretor costuma trafegar entre o cinema comercial e independente, fazendo longas bastante distintos, mas igualmente bem sucedidos nas duas áreas.

A Toda Prova, seu mais recente trabalho, está mais na linha dos filmes comerciais do diretor, assim como sua famosa trilogia iniciada em Onze Homens e Um Segredo. No longa, a agente especial Mallory Kane, interpretada pela lutadora de MMA Gina Carano, tenta se vingar da traição de um membro da equipe de operações militares da qual faz parte.

O filme começa com Mallory chegando a uma lanchonete e minutos depois encontrando um dos integrantes desse grupo, interpretado por Channing Tatum. Ali, os dois travam uma luta muito bem coreografada e que dá mostras de que a escolha da lutadora para o papel principal foi um grande acerto de Soderbergh, principalmente porque dá um ar de realismo aos combates, que muitas vezes falta em filmes desse gênero.

Mallory foge levando consigo um dos clientes e começa a contá-lo o motivo de ter sido seguida pelo rapaz. A partir daí, a história começa a se dividir entre a presente fuga e o recente passado, marcado por uma operação especial em Barcelona, que a levou até aquele ponto. Este é, talvez, o maior erro do trabalho de Soderbergh neste longa.

O uso desses flashbacks não se justifica a partir do momento em que o presente é completamente descartável. Durante sua fuga, Mallory conta ao rapaz que a acompanha sobre esta operação que parece ter sido o estopim para toda a confusão. O problema é que, ao fazer uma colcha de retalhos da história, o diretor tenta complicar o que é absurdamente simples e raso. A história toda poderia se passar em um único tempo narrativo, sem correr o risco de se tornar desnecessariamete confusa, como acontece.

Entretanto, o erro na condução da história não é o único de Soderbergh. Sua mania de querer trabalhar com vários astros em um mesmo filme já deu o que tinha de dar. Ultimamente, como já foi visto no fraquíssimo Contágio, esse excesso de estrelas tem trazido a seus filmes personagens pouco desenvolvidos e quase nada importantes.

Aqui, Michael Fassbender, Antonio Banderas, Michael Douglas, Bill Paxton, e Ewan McGregor são mal utilizados e desperdiçam seus talentos em um filme com uma história tão pobre. Pior, assim como em Contágio, Soderbergh sequer soube desenvolver esta história durante todo o filme e caiu no mesmo erro do longa lançado no ano passado, separou um trecho do final para explicar praticamente toda a história.

Para não dar a impressão de que o filme é um desastre completo, a trilha sonora composta por David Holmes (o mesmo da trilogia Onze Homens e Um Segredo) traz um clima bem legal de espionagem, além do fato de Soderbergh ter optado por não utilizá-la durante as lutas, fazendo com que elas soem bastante realistas.

Se você não tem grandes expectativas com A Toda Prova, o filme pode te divertir, pois tem cenas muito boas de ação. Mas se espera uma história bem contada, corra para as colinas, porque aqui vai ser difícil.

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Jornalista e crítico de cinema. Coautor do livrorreportagem Cine Belas Artes: Um Olhar Sobre os Cinemas de Rua de São Paulo. Acha O Poderoso Chefão o melhor filme do mundo, mas torce todos os dias para assistir a algum que o supere. Ainda não encontrou, mas continua buscando. E-mail: carlos@setimacena.com // Letterboxd: @CarlosCarvalho