Crítica: As Aventuras de Pi

Uma das grandes maravilhas da Arte, seja ela qual for, é o poder que tem de nos transportar para fora da nossa realidade e para dentro daquilo que ela decide retratar. Não são poucos os casos de artistas que conseguem realizar tal feito, mas isso exige uma soma de talento e trabalho, e não é qualquer um que atinge este objetivo.

Reconhecido por ser um dos cineastas mais sensíveis e talentosos em atividade, o taiwanês Ang Lee (O Tigre e o Dragão e O Segredo de Brokeback Mountain) nos transporta para dentro da vida do indiano Piscine Molitor Patel, ou apenas Pi, em As Aventuras de Pi. Sobrevivente de um naufrágio durante sua mudança da Índia para o Canadá com a família, o agora adulto Pi conta a um escritor, provavelmente um alter ego de Yann Martel, autor do livro, sua aventura em alto mar acompanhado de uma zebra, uma hiena, um orangotango e um tigre de bengala chamado Richard Parker.

Com a promessa de que sua história é capaz de fazer qualquer cético acreditar na existência de Deus, Pi narra sua trajetória de sobrevivência e fé em meio a todos os perigos que passa dentro (e fora) de um bote salva-vidas.

Com sua já citada sensibilidade, Ang Lee dá à narrativa um tom leve e divertido, intercalando momentos dramáticos e bem humorados, vividos com talento pelo estreante Suraj Sharma, que interpreta o protagonista em sua adolescência. Nas mãos de outro cineasta, a mesma história poderia virar um dramalhão sem fim, mas Lee sabe conduzir muito bem as emoções com calma e eficiência, cada uma a seu tempo.

Outro talento que o diretor possui, e é um dos poucos que domina com excelência, é a utilização de efeitos visuais com função narrativa. Sem qualquer exagero e totalmente voltada para a condução da história, o cineasta lança mão da tecnologia 3D, já muito bem utilizada por Martin Scorsese em A Invenção de Hugo Cabret, e dos efeitos digitais, que de tão perfeitos que são, em nenhum momento nos fazem pensar que não estamos vendo um tigre de verdade.

Eu acredito no poder que uma boa (e bem contada) história tem de nos inserir na realidade de seus personagens, e de nos dar a chance de viver, ainda que por algumas poucas horas, em um mundo fantástico como o de As Aventuras de Pi. Em uma época carente de boas e bem contadas histórias, o cinema ganha uma simples,  mas jamais simplista, sensível, mas não piegas, aventureira, mas crível, por incrível que pareça, história de esperança e fé.

Fé que também depositamos no trabalho primoroso que Lee nos apresenta ao longo de 127 minutos e que traça um paralelo metalinguístico com a fé do protagonista nos diversos deuses e religiões a que se dedica, além da mágica história que conta ao cético escritor. É disso que o filme se trata, de fé. Sem dogmas, sem preconceitos, sem julgamentos. E, no fim, cada um acredita no que se sentir mais à vontade a acreditar.

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Jornalista e crítico de cinema. Coautor do livrorreportagem Cine Belas Artes: Um Olhar Sobre os Cinemas de Rua de São Paulo. Acha O Poderoso Chefão o melhor filme do mundo, mas torce todos os dias para assistir a algum que o supere. Ainda não encontrou, mas continua buscando. E-mail: carlos@setimacena.com // Letterboxd: @CarlosCarvalho