Crítica: Cara ou Coroa

Filmes ambientados no período da ditadura militar se tornaram quase um gênero na filmografia nacional. Basta lembrarmos de O que é isto, companheiro?, Cabra Cega e, mais recentemente, O ano em que meus pais saíram de férias e Uma Longa Viagem. E é justamente a essas duas últimas produções que Cara ou Coroa, novo trabalho de Ugo Giorgetti (Boleiros), mais se assemelha, principalmente por abordar este momento tão complicado do cenário político brasileiro com um olhar mais intimista.

Desde a primeira cena do filme percebemos em qual contexto histórico ele está inserido: vemos jovens com calças boca de sino; bilhetinhos de reuniões entreguem às escondidas; manifestações de protestos nas ruas; e diálogos sobre determinadas pessoas que foram presas por “não obedecerem as ordens”.

O ano é o de 1971, e nesse cenário de medo e privações somos apresentados aos irmãos João Pedro (Emílio de Mello) e Getúlio (Geraldo Rodrigues), que empregam as expectativas de uma vida promissora na montagem de uma peça de teatro (dirigida pelo primeiro e escrita pelo segundo), ao mesmo tempo em que precisam decidir se devem ou não se engajar nas questões de resistência da ditadura.

João Pedro está atolado em dívidas, deve quatro meses de aluguel e vive sob pressões de todos os lados. Seja dos sensores do governo, que avaliam, minuciosamente, o conteúdo da sua peça; dos críticos, que detonaram a sua obra anterior; do elenco, que não entende qual é o método que o diretor pretende seguir; da esposa, que vive às turras com as irresponsabilidades do marido; e de si próprio, já que acredita ter perdido o potencial criativo e está prestes a lançar outro fracasso.

Getúlio, por sua vez, é o típico jovem que ainda não se encontrou na vida. Mora de favor na casa do tio (Otávio Augusto); mudou várias vezes de curso na faculdade; já tentou ser poeta, jornalista e acredita, agora, que o seu real talento encontra-se no teatro. Esta eterna inconstância faz com o que o rapaz seja questionado pelos membros da família, amigos e pela lindinha Lilian (Julia Ianina), que mantém um namorico com Getúlio escondido do poderoso e respeitado avô, um coronel aposentado conhecido pela acunha de O General (Walmor Chagas).

O roteiro, escrito brilhantemente por Giorgetti, se preocupa em capturar aquele momento de questionamentos e inquietação comuns a todos os jovens. Aquele desejo desenfreado de transgressão a uma regra que, mesmo sabendo ser absurda, jamais deve ser questionada. Por isso, a reação transmitida pelo jovem casal diante da missão de abrigar dois “companheiros” perseguidos pelo Governo soa tão verdadeira.

O elenco entrosado também merece aplausos. Com destaque para a segura atuação de Emílio de Mello, de Walmor Chagas e, principalmente, de Otávio Augusto, que rouba todas as cenas em que aparece na pele de um personagem, aparentemente, desagradável e preconceituoso, rotulando todos de “comunistas” e responsável por frases geniais. Esperem para a ver a cena de Paulo Maluf.

Em Cara ou Coroa, aquela violência tão habitual dos filmes de ditadura militar é substituída por um suspense psicológico. Por aqui, não vemos grandes cenas de tortura, ou aquelas famosas musicas cantadas pelo trio Chico, Caetano e Gil; mas, sim, cenas tensas, com diálogos bem escritos, conduzidos por uma trilha sonora pontual, que demonstra a tensão dos personagens e o clima de conspiração em épocas de AI-5.

Eis aqui um trabalho simples, bonito e eficiente de Ugo Giorgetti, que reflete uma geração e, ao mesmo tempo, promove uma providencial repaginada naqueles tradicionais e burocráticos filmes sobre ditadura militar brasileira.

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Jornalista, fã incondicional de Nick Hornby e coautor do livro inédito Cine Belas Artes: Um Olhar Sobre os Cinemas de Rua de São Paulo. Ainda não viu nada melhor que Asas do Desejo, de Wim Wenders... Mas Beleza Americana chegou perto. e-mail: cristiano@setimacena.com