Crítica: Django Livre

Quentin Tarantino é um cineasta que faz filmes sobre cinema. E com Django Livre isso não seria diferente. Tendo como base de inspiração o clássico do western spaghetti Django, de Sergio Corbucci, o cineasta se aproveita não apenas da estética e da linguagem do gênero, como também de cenas e temáticas tratadas no próprio filme de Corbucci. À sua maneira, claro.

Django Livre abre com uma bela homenagem ao filme de Corbucci, ao utilizar a mesma música do clássico de 1966, mas aqui em uma versão cantada em inglês, assim como a tipologia dos créditos iniciais, que emula a do Django italiano. Vemos uma fila de escravos acorrentados caminhando lentamente, presos às carroças de seus donos e mercadores.

Abordados pela figura do ex-dentista e agora caçador de recompensas Dr. King Schultz (Christoph Waltz), os traficantes de escravos são obrigados, de maneira tarantinesca, a venderem o escravo Django (Jamie Foxx) para Schultz, que ironicamente permite que os demais acorrentados escolham por ajudar o traficante sobrevivente, ou matá-lo e partiram para o norte do país, em busca de terras mais liberais.

E logo de cara somos apresentados à temática escravagista abordada no filme de Tarantino. O filme se passa em 1858, alguns anos antes da Guerra de Secessão, que culminaria na libertação dos escravos anos depois, após a aprovação da 13ª Emenda. Aqui, Tarantino aponta o preconceito contra os negros tal como Corbucci o fez com o preconceito contra os latinos em seu filme. Em outra cena, o cineasta aproveita para ridicularizar com muito bom humor o que podemos chamar de embrião da Ku Klux Klan, com seus mambembes capuzes brancos, que no Django de 66 eram vermelhos.

Dr. Schultz compra Django para que ele o ajude na caçada de três irmãos que podem lhe render uma boa recompensa. Durante a realização do trabalho, Django acaba revelando que é casado e que foi separado de sua esposa, e recebe a proposta de seguir por mais um tempo ajudando Schultz, em troca de sua liberdade e da possibilidade de reencontrá-la.

Os dois, então, vão em busca de Broomhilda (Kerry Washington), que foi comprada por Calvin Candie (Leonardo DiCaprio), um milionário fã de “mandingo fighting”, uma espécie de vale-tudo com escravos. Nesta cena, aliás, se registra mais uma homenagem de Tarantino ao filme italiano, ao colocar o ator Franco Nero, o Django original, para contracenar com Jamie Foxx, em um diálogo irônico e muito divertido.

Em um primeiro momento, o plano de Django e Schultz era conseguir comprar Bromhilda do fazendeiro em um negócio que simularia a compra de um escravo lutador, mas os dois são descobertos pelo mordomo de Candie, interpretado por Samuel L. Jackson, e os planos iniciais têm de ser mudados para algo mais drástico, que merece ser visto e não contado aqui.

Entusiasta e conhecedor de cinema que é, Tarantino abusa dos supercloses, zooms e contra-zooms rápidos, característicos do western spaghetti, e da inserção de uma trilha sonora moderna, que destoa de forma positiva da época na qual o filme se passa, para dar os climas certos para cada sequência.

Como não poderia deixar de ser, sendo um filme do Tarantino, Django Livre é uma ode à violência e à vingança. Uma violência catártica, bonita de se ver apenas por ser feita por quem sabe como utilizar da ironia, da técnica e do humor para compensar o horror que isso tudo deveria nos causar. É uma ode ao western spaghetti, ao blaxpoitation e a nomes como Sergio Corbucci e Sergio Leone, ídolos do cineasta. Uma ode ao próprio cinema, como há 20 anos Tarantino tem feito e nos encantado.

Share on FacebookTweet about this on TwitterShare on Google+Share on TumblrEmail this to someone

Jornalista e crítico de cinema. Coautor do livrorreportagem Cine Belas Artes: Um Olhar Sobre os Cinemas de Rua de São Paulo. Acha O Poderoso Chefão o melhor filme do mundo, mas torce todos os dias para assistir a algum que o supere. Ainda não encontrou, mas continua buscando. E-mail: carlos@setimacena.com // Letterboxd: @CarlosCarvalho