Crítica: Fausto

A premissa da história do Dr. Fausto todos conhecem: trata-se de um homem que, em busca de prazer, riqueza e poder, assina um contrato com o diabo vendendo a própria alma. A lenda é antiga, anterior ao próprio Goethe, que tomou contato com ela pela primeira vez quando ainda era menino, assistindo a um teatro de marionetes. Na versão do escritor alemão, Fausto é antes um cético, que aposta com o diabo Mefistófeles que nada do que este possa oferecê-lo será capaz de satisfazer suas angústias humanas.

O filme do cineasta russo Alexander Sokurov (Arca Russa) é declaradamente baseado na versão de Goethe (vide os letreiros iniciais). O tratamento, no entanto, é diferente, despido de qualquer solenidade poética. A deslumbrante e elogiada fotografia de Bruno Delbonnel desloca todos os tons para um verde asqueroso. Asquerosa também é a primeira aparição de Fausto (Johannes Zeiler), retirando os órgãos de um defunto.

Aqui, a personagem-título é um professor respeitado e conhecido no pequeno vilarejo onde mora, mas que nem por isso vive em boas condições. No início do filme, reclama de não ter dinheiro nem para comer. E é justamente por isso que vai procurar Mauricius (em maravilhosa atuação de Anton Adasinsky), o usurário da vila e novo avatar de Mefistófeles escolhido por Sokurov. Guiado e influenciado por Mauricius, Fausto acaba se atraindo pela jovem Margarida (interpretada pela bela Isolda Dychauk), envolvendo-a no destino trágico descrito na primeira parte da obra de Goethe.

O que domina no filme é a difusão, das cores e dos sons. Além do já citado tom esverdeado sujo, a imagem às vezes se distorce estranhamente. Em entrevista à revista Cahiers du Cinema de junho, Sokurov diz: “Infelizmente, o cinema permanece ainda hoje um domínio cultural extremamente grosseiro e inexpressivo do ponto de vista da arte. A imperfeição técnica, tecnológica e instrumental do cinema é evidente.” O diretor reconhece (vide documentário “Aleksandr Sokurov, questão de cinema”) que a câmera é um aparelho rudimentar que sequer se aproxima do complexo aparelho ótico humano. Embora o espectador o esqueça na maioria dos casos, toda imagem cinematográfica é distorcida; assim, o cineasta não tem escrúpulos de tornar essa distorção explícita, sem intenção de nos iludir do contrário.

É impossível não citar, também, o grande momento de exceção na fotografia suja do filme: a passagem em que admiramos o close de uma Margarida iluminada por uma fortíssima luz amarela e quente. No fundo, só se ouvem as respirações dela e de Fausto. O fascínio da cena é grande, e deixa a respiração do espectador em suspenso.

Também os sons da cidade se bagunçam, e nem as falas das personagens nem os pensamentos de Fausto (que às vezes podemos ouvir) se destacam. O movimento é contínuo ao longo de todo o filme, com Fausto sempre entrando e saindo de casas e caminhando pelas vielas, não raro se espremendo sofregamente entre pessoas que atrapalham seu caminho. A sensação provocada: a de nojo, com relação tanto ao lugar como às pessoas. Cinema não tem cheiro, mas de tanto as personagens reclamarem do mau odor, quase podemos senti-lo.

É assim que Sokurov vai buscar as origens da ambição humana pelo poder. Para quem não sabe, Fausto é o quarto filme da “tetralogia do poder” do diretor russo. Os primeiros três filmes foram sobre figuras históricas do século XX: o primeiro, Moloch (1999) sobre Hitler; depois veio Taurus (2001), sobre Lênin; por fim, O Sol (2005), sobre o imperador do Japão na época da Segunda Guerra, Hirohito. Três personalidades diferentes, exploradas em suas particularidades em cada filme, essas figuras compartilharam da óbvia característica de estarem em posições de poder, de já terem se erguido acima da sujeira e miséria do “povo” para patamares aparentemente mais confortáveis.

Não é difícil enxergar um possível círculo na tetralogia, que começa com um Hitler doentio e afastado de qualquer humanidade, passa por um Lênin que, à beira da morte, preocupa-se (e preocupa os próximos) sobre o futuro do mundo após sua morte, chegando num Imperador que na verdade não escolheu estar numa posição de poder e, tratado como divino por seus súditos, escolhe, no fim do filme, renunciar a esse status e se tornar (num gesto obviamente infantil) apenas “humano”. Fausto, assim, marcaria o recomeço do processo, em que o protagonista, agora completamente humano (sofrendo da nossa mais básica necessidade, a fome), e angustiado pela inutilidade do pequeno mundo em que vive, quer se libertar e se alçar além.

Embora Fausto tenha premissa simples e uma linha de evolução mais ou menos bem delineada, o filme evoca o simbolismo do livro com algumas passagens intrigantes: um espelho pendurado no céu, uma mulher que dá à luz um ovo e em seguida o come, e uma senhora (a já lendária Hanna Schygulla) que não tem outra função no filme que não a de seguir o diabo-usurário Mauricius.

Alexander Sokurov faz parte de uma linhagem já quase extinta no cinema (linhagem que brota do gigante Andrei Tarkovski). Com sua consciência da rudimentariedade de um filme, é talvez um dos cineastas que mais elevam o cinema aos patamares da grande arte. Fausto se agita isolado no panorama do cinema moderno. Sendo uma obra-prima, é, como todas, superior a nós. É preciso vê-lo com humildade, deixar-se deslumbrar pelos detalhes que somos capazes de admirar e, se possível, apreciá-lo mais de uma vez.

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Físico, cinéfilo e leitor. Faz mestrado na área de Teoria de Supercordas, improvisa nos ônibus e metrôs confortáveis salas de leitura e nas horas vagas (e em muitas das nem tão vagas assim) vê filmes, de Méliès a Bollywood. Twitter: @tpursulino - E-mail: tiago@setimacena.com