Crítica: Histórias Cruzadas

Há alguns dias, conversava com o amigo, e também editor do Sétima Cena, Cristiano Filiciano, a respeito do que considerávamos ser um bom roteiro. Ambos concordamos, entre vários outros pontos, que um bom roteiro deve fazer com que você compre a história que está sendo contada, independente de qual seja, se boa ou ruim. Um bom roteiro te joga dentro dela e te envolve naquilo.

Pois bem, isto não é o que acontece com o filme Histórias Cruzadas, que recebeu quatro importantes indicações ao Oscar, em especial a de Melhor Filme (e que bom que não foi indicado por roteiro). O longa tem como base a personagem Skeeter, interpretada pela bela Emma Stone, que na década de 1960, recém formada em jornalismo, volta para sua cidade no sul dos Estados Unidos e resolve escrever um livro a partir do ponto de vista das empregadas negras e do tratamento que elas recebiam das famílias brancas para as quais trabalhavam.

Skeeter, então, convence as empregadas negras a contarem suas histórias de vida e o preconceito que sofrem por parte da sociedade branca. Até aí, a premissa do filme é muito boa. O problema é a execução do roteiro, que deveria focar nas tais histórias cruzadas, onde os problemas enfrentados pela comunidade negra americana na metade do século passado ainda eram muito grandes. Mas não, quase todo o foco fica voltado para o comportamento das famílias brancas e de como elas eram egoístas e tratavam mal as empregadas negras.

Salvo uma ou outra história das empregadas que vemos contadas (ainda que superficialmente) durante o filme, a maior parte do tempo assistimos ao desenrolar dos problemas da tradicional família branca americana. Skeeter com seu complexo imposto pela mãe e que desde criança não se achava bonita; Celia Foote, muito bem interpretada por Jessica Chastain (que pra mim é o grande destaque do filme, embora seja por uma personagem tão fraca), que sofre por não ser aceita no grupo de socialites brancas lideradas pela (também excelente no filme) Bryce Dallas Howard; e até o drama da própria mãe de Skeeter, que tem de lidar com um câncer enquanto tenta se tornar uma pessoa melhor, reconhecendo que agiu de maneira injusta demitindo a empregada negra.

Histórias Cruzadas, ao invés de trazer questionamentos que poderiam até partir para o lado da consciência negra, enfatizando sua luta durante aquele período da história americana, descamba para o dramalhão sem fim de uma visão superficial da sociedade branca sobre a questão do preconceito racial. É um preconceito às avessas, com máscara de bom-mocismo, onde a comunidade branca ajuda os negros a serem menos discriminados pelos próprios brancos.

Não entendo o motivo de tantos elogios em cima de Viola Davis, que está bem, sim, mas que não tem sequer a chance de desenvolver de maneira decente sua personagem. Octavia Spencer, que também está muito bem, serve apenas como alívio cômico para não chorarmos (não cheguei nem perto disso) durante os 146 minutos do dramalhão sem fim do filme, que é um erro em existir.

Por fim, gostaria apenas de saber a opinião de gente como Sidney Poitier sobre Histórias Cruzadas. Por dentro, ele deve estar um pouco decepcionado.

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Jornalista e crítico de cinema. Coautor do livrorreportagem Cine Belas Artes: Um Olhar Sobre os Cinemas de Rua de São Paulo. Acha O Poderoso Chefão o melhor filme do mundo, mas torce todos os dias para assistir a algum que o supere. Ainda não encontrou, mas continua buscando. E-mail: carlos@setimacena.com // Letterboxd: @CarlosCarvalho