Crítica: Millennium – Os Homens que Não Amavam as Mulheres

A adaptação de um livro famoso para o cinema, normalmente, é um trabalho de alto risco para um cineasta, pois exige a preocupação em transpor para as telas a essência principal da obra e, o pior de tudo, enfrentar a ira dos fãs a respeito das mudanças acerca de seus queridos personagens. O cineasta David Fincher teve de enfrentar esses percalços com Millennium – Os Homens que Não Amavam as Mulheres, não sem antes inserir mais um à lista: uma elogiada versão sueca, adaptada do mesmo romance de Stieg Larsson, para servir de comparação.

Bastou surgirem os primeiros boatos de que Fincher seria o responsável pela refilmagem americana de Os Homens que Não Amavam as Mulheres para que os cinéfilos entrassem em alvoroço. Afinal, o diretor foi responsável por duas excelentes produções sobre serial killers: Seven (1995) e, principalmente,  Zodíaco (2007); sem contar o grande apelo visual e a capacidade de chocar a plateia com reviravoltas na trama e personagens ambíguos.

Todos esses elementos aparecem em Millennium, cuja história gira em torno do misterioso desaparecimento da jovem Harriet Vanger há 40 anos. Inconformado com a não solução do caso de sua sobrinha, mesmo com todas as investigações possíveis, o magnata da indústria sueca Henry Vanger aciona os serviços de Mikael Blomkvist (Daniel Craig), um experiente jornalista da revista Millennium, para desvendar o que aconteceu com Harriet.

Mikael aceita o convite e, ao lado da hacker Lisbeth Salander, interpretada brilhantemente por Rooney Mara, começa a remoer o passado da família Vanger para descobrir quem é o possível assassino de Harriet. É neste momento que Fincher começa a dar show. Empregando uma narrativa envolvente e uma ambientação do inverno da Suécia que, praticamente, faz o cinema tremer de frio, o cineasta consegue o que parecia impossível: superar a adaptação sueca e dar soluções mais plausíveis para alguns personagens e passagens do livro, sem deixar de ser fiel à obra.

Esta coragem de Fincher se reflete também na escolha da protagonista Lisbeth. O diretor se impôs diante do estúdio, que preferia um nome mais badalado, e bancou a presença de Rooney, que já havia trabalhado com ele em A Rede Social (2010). A jovem atriz não decepcionou e ofereceu uma atuação em pé de igualdade com a da intérprete da versão sueca Noomi Rapace. Com isto, conseguiu uma merecida indicação ao Oscar de Melhor Atriz (o filme também concorre em outras quatro categorias).

O resto do elenco também está excelente, inclusive Craig, que oferece a melhor interpretação da sua carreira, e em nenhum  momento deixa transparecer um resquício sequer de James Bond. Além disso, o ator demonstra um entrosamento sensacional com Rooney, o que ajuda a deixar o filme mais envolvente e dinâmico, qualidades fundamentais para a imersão da plateia na história.

Mas não tem jeito, é mesmo a caracterização de Rooney, tatuada e cheia de piercings que ficará na memória ao fim da sessão. Sua Lisbeth Salander, assim como no livro e na adaptação sueca, é um dos personagens femininos mais fascinantes dos últimos tempos. Daqueles que fazem a plateia torcer nos momentos de suspense, vibrar a cada descoberta e sofrer nas cenas de violência (que não são poucas) envolvendo a protagonista.

O melhor de tudo é que a personagem também aparece nos outros dois livros da trilogia: A Menina que Brincava com Fogo e A Rainha do Castelo de Ar, que inclusive já foram filmados na Suécia e, claro, ganhará também versões americanas. Resta saber se Fincher assumirá novamente a direção e se Rooney retornará  na pele de Lisbeth. Torcida para isto não vai faltar.

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Jornalista, fã incondicional de Nick Hornby e coautor do livro inédito Cine Belas Artes: Um Olhar Sobre os Cinemas de Rua de São Paulo. Ainda não viu nada melhor que Asas do Desejo, de Wim Wenders... Mas Beleza Americana chegou perto. e-mail: cristiano@setimacena.com