Crítica: Na Estrada

Finalmente chega aos cinemas brasileiros Na Estrada, a aguardada adaptação de Walter Salles do livro que marcou sua geração e continuou a inspirar as gerações seguintes: On the Road, de Jack Kerouac – publicado em 1957 mas escrito em 1951, e largamente baseado na vida do próprio escritor. O roteiro do filme é assinado por Jose Rivera, que já tinha trabalho com Salles escrevendo o roteiro do seu Diários de Motocicleta (sobre a viagem que inspirou Che Guevara a lutar por seus ideais). O filme acompanha as andanças do jovem escritor Sal Paradise (Sam Riley) e seus amigos Carlo Marx (Tom Sturridge) e Dean Moriarty (Garrett Hedlund) pelos Estados Unidos da metade do século XX.

Sal mora em Nova Iorque e acabou de perder seu pai. Cansado do tédio da vida americana pós-Segunda-Guerra – com seu consumismo emergente e seu jogo político alienante –, é levado por Carlo (que corresponderia, na realidade, ao escritor beat Allen Ginsberg) ao apartamento de Dean, que os recebe nu e os apresenta à sua namorada também nua Marylou (a estrela da série de filmes Crepúsculo Kristen Stewart; mais sobre ela depois).

Dean, com sua irracionalidade, seu gosto pelas bebidas, drogas e experiências extremas, servirá a Sal como um guru ou messias da ousadia – estrutura não rara em histórias e que todo mundo facilmente se lembrará de encontrar, por exemplo, no Clube da Luta, de 1999. A história é a narração por Sal das viagens que os quatro (às vezes com ausência de alguns e presença de outros) fazem ao longo da América, sobretudo em direção à Califórnia, seguindo o impulso de uma conquista, já não do oeste, mas de si.

Com essa premissa, não é difícil entender a influência que o livro teve na geração beat e na posterior geração hippie, nem em que medida a obra continua a inspirar adolescentes e jovens nos dias de hoje. O filme, no entanto, não porta o mesmo poder de inspiração nem a mesma ousadia.

Trabalhado com uma fotografia perfeita, que não deixa de fazer admirar as belas paisagens rurais americanas, o filme, não se pode negar, é perfeitamente bem construído. Mas justamente aí talvez esteja sua fraqueza: o espírito livre, contestador e provocador das personagens, do livro em si e da geração que ele representa tornam-se aqui menos inflamados. Nem as cenas de uso de drogas ou de experimentações sexuais são exatamente fortes: todas são tratadas de forma abrandada, não arranhando severamente limites morais de espectadores do século XXI.

As atuações são apenas competentes, incluindo aqui a de Kristen Stewart, que faz um trabalho tão bom quanto dos demais atores – apesar das inevitáveis suspeitas do público – e não deveria ser analisada separadamente. Sendo uma adaptação, também se pode notar certa pressa na passagem dos fatos, deixando apenas em primeiro grau a identificação com as trajetórias das personagens.

Walter Salles, que parece ter afeição pelos chamados “road movies” (veja-se Central do Brasil e Diários de Motocicleta, e também o livro Na Estrada – O Cinema de Walter Salles, de Marcos Strecker), não consegue – neste que deveria ser o modelo das histórias de longas e desatinadas viagens –, empolgar o espectador com a mesma expectativa que cria muito bem no filme sobre a juventude de Che. Mesmo a passagem famosa e definidora do livro, em que Sal diz se interessar apenas por pessoas “loucas, aquelas que são loucas para viver, loucas para falar, que querem tudo ao mesmo tempo”, etc., é ouvida num momento sem grande ênfase.

Com tudo isso, e considerando que o longa é feito para adultos que vivem 60 anos depois das aventuras contadas, a sensação é de que o filme não busca (ou, se busca, não consegue) alcançar o mesmo nível de iluminação, inspiração e liberação do livro, mas antes serve como homenagem a este, como documento que relembra às novas gerações o espírito daquela década de 50. Não inflamará o espectador, mas servirá ao menos como lembrança do momento e lugar onde uma chama um dia queimou.

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Físico, cinéfilo e leitor. Faz mestrado na área de Teoria de Supercordas, improvisa nos ônibus e metrôs confortáveis salas de leitura e nas horas vagas (e em muitas das nem tão vagas assim) vê filmes, de Méliès a Bollywood. Twitter: @tpursulino - E-mail: tiago@setimacena.com