Crítica: O Espetacular Homem-Aranha

Dirigido por Marc Webb (500 Dias com Ela) e com um roteiro escrito a seis mãos por James Vanderbilt (Zodíaco), Steve Kloves (toda a série Harry Potter) e Alvin Sargent (Homem-Aranha 2 e 3), O Espetacular Homem-Aranha mostra um herói diferente do que vimos na trilogia dirigida por Sam Raimi e estrelada por Tobey Maguire.

Aqui, Andrew Garfield faz as vezes do adolescente Peter Parker, que é deixado pelos pais ainda criança para ser cuidado pelos tios Ben (Martin Sheen) e May (Sally Field), que educam-no como se ele fosse filho do casal. Os pais de Peter, supostamente, morreram em um acidente de avião. Este é o estopim para a trama que se desenvolve a partir do momento em que o rapaz encontra uma maleta que foi de seu pai e descobre documentos e anotações sobre seu trabalho ao lado do cientista Dr. Connors (Rhys Ifans), que quer encontrar uma vacina para que o corpo humano possa se regenerar. Assim, além de ajudar deficientes físicos que podem ser beneficiados pelo estudo, Connors tem um desejo pessoal, já que ele próprio não tem parte de um dos braços.

Com um roteiro simples, mas bem estruturado, vemos a relação de Peter com os tios construída de forma verossímil, principalmente por conta da atuação do experiente Martin Sheen, que rouba a cena em todas as vezes em que aparece, seja nos momentos mais afetuosos ou nos mais ríspidos, quando precisa dar alguma bronca em Peter, como na cena em que vai até a escola por conta de uma briga na qual o rapaz se envolveu. No diálogo entre os dois, a impressão que se dá é de que, no final, o tio dará uma abrandada na situação, mas há uma subversão de expectativa que não deixa com que o filme escorregue neste clichê.

Quem também reforça as relações de Peter é Gwen Stacy, a colega de classe por quem o rapaz nutre certa paixão, interpretada por Emma Stone (SUA LINDA!), e que também trabalha no laboratório do Dr. Connors, interligando ainda mais as histórias. A química entre Peter e Gwen é um dos pontos altos do filme e destaca o espírito de adolescente do casal, com diálogos propositalmente bobinhos e, por isso mesmo, extremamente convincentes. Nada de declarações de amor explícitas, mas gestos, olhares e sorrisos tímidos e cúmplices.

Esse espírito juvenil do personagem combina muito mais com Andrew Garfield do que combinou com Tobey Maguire nos filmes de Sam Raimi. Peter mantém a característica de aluno atormentado no colégio, que sofre bullying dos colegas “mais espertos”. No entanto, fica mais explícito seu lado nerd estudante, amante da ciência (fato que o inspira a ir atrás dos estudos do pai e do Dr. Connors) e habilidoso na construção de engenhocas (a porta de seu quarto tem uma tranca automática e ele consertaria o vazamento no porão de casa). Nada de teias orgânicas como nos primeiros filmes do Aranha. Neste, Peter desenvolve as próprias teias e o mecanismo que as lança, assim como nos quadrinhos.

Suas habilidades como skatista também ajudam a sustentar o “realismo” dos saltos (de parkour) do Homem-Aranha. Aliás, o Peter de Garfield também se mostra mais carismático e convincente quando decide usar do humor quando está vestido com a roupa do Aranha. A cena com o ladrão de carros é engraçada e mostra um herói mais “moleque” do que estávamos acostumados a ver.

Mas nem só de qualidades é feito O Espetacular Homem-Aranha. Alguns pequenos acontecimentos, que não chegam a estragar o filme, tiram um pouco das características mais realistas da história, como o fato de Peter praticamente não se assustar ao ser picado por uma das milhares de aranhas geneticamente modificadas do laboratório do Dr. Connors. Ou começar a usar os óculos do pai, como se fosse óbvio que apenas por terem as ligações biológicas, o rapaz teria os mesmos problemas de visão (e na mesma intensidade) que o pai.

Depois que Peter o ajuda em sua pesquisa e ele a testa em seu próprio corpo, Connors acaba se transformando no vilão Lagarto, que perde o controle de sua mutação e acaba se tornando um monstro a ser combatido, mas em nenhum momento ficam muito claras as motivações do personagem, que “precisa” concluir suas pesquisas para ajudar a salvar Norman Osborne, o Duende Verde, que provavelmente deve aparecer na sequência.

Outro ponto negativo de O Espetacular Homem-Aranha é a fraca cena da morte do Tio Ben, que merecia um clímax maior do que o realizado, primeiro porque o personagem demonstrou carisma nas cenas anteriores, mas também porque o acontecimento carrega uma carga emocional muito grande para Peter, que tem de ligar com o fato de que algumas de suas escolhas causaram a morte do tio, que nesse momento o procurava pelas ruas de Nova York depois dele ter fugido de casa.

No geral, O Espetacular Homem-Aranha cria uma base sólida para novas sequências, já que aqui, apesar das boas cenas de ação, o foco parece ser mostrar o desenvolvimento de Peter até se tornar um super-herói e não criar um filme que seja memorável pelos feitos do próprio Aranha. Nisso, o filme se assemelha com algumas características de Batman Begins, de Christopher Nolan, que também foca na evolução do personagem, deixando a ação em segundo plano. Na trama do Homem-Morcego, no entanto, Nolan conseguiu uma sequência memorável com O Cavaleiro das Trevas. Será que o cabeça de teia também vai conseguir um segundo filme que vire referência para a posteridade?

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Jornalista e crítico de cinema. Coautor do livrorreportagem Cine Belas Artes: Um Olhar Sobre os Cinemas de Rua de São Paulo. Acha O Poderoso Chefão o melhor filme do mundo, mas torce todos os dias para assistir a algum que o supere. Ainda não encontrou, mas continua buscando. E-mail: carlos@setimacena.com // Letterboxd: @CarlosCarvalho