Crítica: O Porto

A melhor definição para O Porto, nova produção do cineasta finlandês Aki Kaurismaki, seria um filme solidário. A solidariedade aparece desde a cena em que uma personagem faz questão de levar uma mulher doente ao hospital; no olhar de condescendência de um velho imigrante ilegal que, ao ver que não vai conseguir escapar dos policiais, incentiva um jovem a fugir em busca de uma vida melhor; e é a solidariedade que move o personagem principal a ajudar este mesmo jovem a realizar um sonho.

Com um enfoque simples e sensível, Kaurismaki conseguiu dar uma abordagem direta e, ao mesmo tempo, humana a mais uma história de imigração ilegal num país europeu. O país em questão é a França, mais precisamente na cidade portuária de Le Havre, onde acompanhamos a história de Idrissa, um garoto negro de Gabão que chega à cidade francesa escondido num contêiner.

Após conseguir escapar da inspeção local, o jovem é acolhido pelo engraxate idoso Marcel Marx (André Wilms). Além de abrigar Idrissa, Marcel ainda se desdobra para ajudá-lo a atravessar a fronteira entre a França e a Inglaterra, já que o jovem pretende reencontrar a mãe que trabalha em Londres. E, para piorar ainda mais a situação do idoso, a mulher dele é diagnosticada com um câncer terminal e é internada para um tratamento intensivo.

Como podem ver a história tinha tudo para acabar em mais um dramalhão choroso, mas nas mãos de Kaurismaki se torna um filme irônico e otimista. O diretor acerta em dosar com maestria um assunto polêmico como a imigração ilegal na Europa, ao mesmo tempo em que conduz a trama alternando momentos cômicos, tristes e, algumas vezes, bizarros, características presentes em quase todos os filmes de Kaurismaki, principalmente no sombrio Luzes da Escuridão (2006)  e na espetacular comédia dramática O Homem sem Passado (2002).

Estas características transformam O Porto em um misto de Bem-vindo (2009), que também retratava a imigração ilegal na França, mas com um viés mais dramático; e de O Fabuloso Destino de Amélie Poulain (2001), em que a personagem de Audrey Tautou era movida para ajudar o próximo e, consequentemente, tornar o ambiente em que vive melhor.

O ato de solidariedade de Marcel acaba contagiando a cidade de La Havre, provocando em praticamente todos os moradores o desejo de ajudar o jovem a chegar à Inglaterra, e esta ajuda vem desde a doação de um singelo pãozinho até um movimentado e bizarro show de rock. Por isso, detalhar mais o roteiro seria privar o espectador de embarcar na história e ver até onde pode chegar as ideias bizarras de Kaurismaki.

Ao final da sessão, você pode até sair falando: “pô, mas o filme não tem um conflito!”, ou então: “A vida real não é bem assim”. Questionamentos válidos, de fato. Mas o que ficará mesmo é a sensação de ter visto uma produção sensível e contundente, daquelas que nos fazem sair do cinema com um sorriso no rosto e uma leve sensação de dever cumprido. Mesmo que, em seguida, voltemos para a nossa realidade tão mais sombria, egoísta e preconceituosa.

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Jornalista, fã incondicional de Nick Hornby e coautor do livro inédito Cine Belas Artes: Um Olhar Sobre os Cinemas de Rua de São Paulo. Ainda não viu nada melhor que Asas do Desejo, de Wim Wenders... Mas Beleza Americana chegou perto. e-mail: cristiano@setimacena.com