Crítica: Para Roma com Amor

Depois de emplacar seu maior sucesso comercial com Meia-Noite em Paris, que lhe rendeu o Oscar de Melhor Roteiro Original, Woody Allen acaba de lançar Para Roma com Amor, baseado na obra Decamerão, de Giovanni Boccaccio.

O longa mostra quatro histórias distintas: a do casal de americanos, vividos por Woody Allen e Judy Davis, que vai até Roma para visitar a filha e conhecer seu novo namorado; a de um homem comum, interpretado por Roberto Begnini, que é confundido com um astro de cinema; a de um jovem casal que se mete em confusões pelas ruas da cidade; e a do estudante de arquitetura vivido por Jesse Eisenberg, que conhece um arquiteto veterano (Alec Baldwin) e vai se meter em um triângulo amoroso envolvendo sua namorada e a melhor amiga dela, papel de Ellen Page.

As histórias não se cruzam, mas têm alguma relação temática, pois acabam girando em torno do mundo das aparências e de como as pessoas são enxergadas na sociedade em que vivemos. Da noite para o dia, Leopoldo (Begnini), um homem simples, passa a ser considerado uma grande celebridade, mesmo sem ter feito nada para merecer este reconhecimento. “É famoso por ser famoso”, como é dito.

Além de ser o dono de algumas das melhores piadas do filme, méritos do texto preciso de Woody Allen, o personagem de Roberto Begnini é o gancho para uma crítica à imprensa e o mundo dos paparazzi, já que mostra o quão vazio é o jornalismo de celebridades no mundo, que chega a dar importância à cor da cueca vestida por Leopoldo, ou até mesmo como ele prefere seu pão no café da manhã, normal ou tostado.

Também vemos este mundo de aparências em Monica (Page), uma jovem atriz que vai passar uns dias na casa da melhor amiga e acaba se envolvendo com Jack (Eisenberg). Monica veste a persona de mulher fatal (embora esteja muito pouco atraente), que faz com que qualquer homem caia de joelhos por ela, não apenas por sua personalidade “que exala sexualidade”, como diz a namorada de Jack, mas também porque usa de artifícios para demonstrar conhecimentos que não tem, fazendo-se de intelectual. Aliás, esse também é um tema recorrente na filmografia de Allen, que chegou a tratá-lo com bastante destaque em seu último filme.

Durante o processo de encantamento de Jack por Monica, John (Baldwin), o arquiteto mais velho que o jovem estudante conheceu pelas ruas de Roma, serve de consciência para o rapaz, como se tivesse vindo do futuro para alertá-lo dos riscos que corre. Curioso como essa ligação entre os dois é mostrada, pois além da profissão que os dois compartilham, John morou na mesma rua em que Jack mora. Isso fica ainda mais claro quando ele cita uma frase que depois é falada por Monica para Jack, como se o rapaz tivesse guardado aquilo em sua mente e pegado para ele no futuro.

Quem também acaba vítima desse mundo das aparências é o casal Antonio e Milly, que se muda para Roma para tentar uma nova vida com a oferta de trabalho que ele recebe de alguns tios. Porém, após a moça se perder pela cidade enquanto procurava um cabeleireiro para se preparar para o encontro que teria com a família do rapaz e acabar caindo nas graças de um “charmoso” ator, Antonio é confundido pela prostituta Anna, vivida por Penélope Cruz, que entra em seu quarto e é pega “atacando” o rapaz justamente quando os tios dele chegam ao quarto. Esta é a história menos interessante do filme e traz poucos momentos realmente engraçados, o que prejudica um pouco seu andamento, que perde o ritmo nas fragmentadas cenas do casal.

Sem atuar desde 2006, quando fez Scoop – O Grande Furo com Scarlett Johansson, Woody Allen é, ao lado de Begnini, o grande destaque do filme. Interpretando melhor do que qualquer um suas próprias piadas, Woody é o neurótico e ranzinza de sempre, com um humor afiadíssimo, que já demonstra desde a primeira cena em que aparece, ainda no avião, falando sobre o novo namorado da filha e sua veia comunista. Produtor de óperas já aposentado, Jerry vê no pai de seu novo genro uma oportunidade de voltar a trabalhar, pois o agente funerário mostra ser um exímio tenor, mas de chuveiro. Fato que gera algumas das melhores e mais absurdas cenas do filme.

Assim como nos outros filmes que realizou na Europa, o cineasta consegue captar o espírito de Roma sem necessariamente se prender aos pontos turísticos da cidade, caracterizado pela fotografia alegre e colorida, que não chega a ser quente como a de Vicky Cristina Barcelona, mas também não é fria como a de Match Point, e pela trilha sonora, que já abre o filme com a clássica Volare, ao contrário dos jazz comumente usados por Woody Allen em suas obras.

Para Roma com Amor é uma comédia que acerta no tom de algumas piadas, principalmente as de Begnini e Woody Allen, mas peca pelo excesso de personagens e histórias, que às vezes tomam tempo demais de tela e fragmentam o filme, que certamente não está entre os melhores do diretor e pode não ficar guardado na memória do espectador, mas diverte.

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Jornalista e crítico de cinema. Coautor do livrorreportagem Cine Belas Artes: Um Olhar Sobre os Cinemas de Rua de São Paulo. Acha O Poderoso Chefão o melhor filme do mundo, mas torce todos os dias para assistir a algum que o supere. Ainda não encontrou, mas continua buscando. E-mail: carlos@setimacena.com // Letterboxd: @CarlosCarvalho