Crítica: Polissia

Estreia em São Paulo outro filme que fez parte do Festival Varilux de Cinema Francês (outro tendo sido Intocáveis, que ainda está em cartaz; crítica aqui): Polissia. O nome do filme veio da escrita incorreta da palavra “polícia” (na verdade “police”, em francês) pela filha da atriz e diretora Maïwenn, e é uma forma criativa de encapsular no título o tema do longa: acompanhar a rotina da brigada da polícia francesa responsável pela proteção de menores.

Com um tratamento e uma dinâmica que o deixa próximo de um documentário, Polissia acompanha todos os passos, os profissionais e os íntimos, da vida desses policiais que tem no seu dia a dia que enfrentar casos de aliciamento de menores para venda de drogas, mães que querem abandonar seus filhos pois não têm como sustentá-los e, mais comumente, as mais variadas e absurdas histórias de estupro.

Com todos os golpes que levam de uma realidade impressionantemente crua, o mais difícil para esses profissionais é manter a sanidade e separar as pressões do trabalho dos problemas da vida privada. O filme nos leva por muitos lugares que não gostaríamos de ir, e é inevitável se perguntar a cada cinco minutos: “Na realidade, as coisas são assim mesmo?”

Provavelmente sim. O filme é resultado de uma pesquisa de campo real feita por Maïwenn, que conviveu durante certo tempo com a verdadeira brigada. A diretora, inclusive, cria na história uma versão ficcional de si mesma na personagem Melissa, uma fotógrafa enviada pelo ministério francês para registrar as atividades da polícia. (Esta personagem, inclusive, deve ser celebrada pela modéstia e autocrítica, e pela grande humanidade que gera na sua relação com um dos policiais da brigada.)

Pouco recomendável para quem costuma sair muito impressionado da sala de cinema, Polissia surpreendentemente, no entanto, se depara aqui e ali com momentos de irresistível humor, apesar de toda a seriedade do assunto abordado. A diretora disse, em Cannes (onde levou em 2011 o prêmio do júri) que demorou a entender que as risadas, naquele mundo, eram uma forma de proteção para pessoas que muito raramente conseguem encontrar alívio das suas tensões.

Lembro de ver Maïwenn subindo ao palco em Cannes para receber seu prêmio. Estava sem fôlego e, ao discursar, parecia que ia desmaiar a qualquer momento. É um pouco essa a sensação que Polissia deixa no espectador: falta de ar diante de um lado do mundo que a maioria de nós prefere nunca ver, mas que, corajosamente, foi observado e retratado com vigor em forma de filme.

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Físico, cinéfilo e leitor. Faz mestrado na área de Teoria de Supercordas, improvisa nos ônibus e metrôs confortáveis salas de leitura e nas horas vagas (e em muitas das nem tão vagas assim) vê filmes, de Méliès a Bollywood. Twitter: @tpursulino - E-mail: tiago@setimacena.com