Crítica: Sombras da Noite

Adaptado da série Dark Shadows, exibida nos Estados Unidos no final da década de 1960, Sombras da Noite apresenta todos os defeitos e as qualidades habituais de um filme da parceria Tim Burton/Johnny Depp. Só que desta vez, os pontos negativos sobressaem, revelando que aquele cineasta acostumado a encantar a plateia com histórias oníricas e personagens interessantes e bizarros ficou no passado.

O filme até começa de maneira empolgante, no ano 1752, vemos o protagonista Barnabas Collins (Depp) vivendo um tórrido caso de amor com a bela Josette (Bella Heathcote). Só que a bruxa Angelique (Eva Green) é apaixonada pelo rapaz e, para não vê-lo nos braços de outra, cria um feitiço que, além de levar Josette a cometer suicídio, transforma Barnabas num vampiro e o enterra vivo em seguida.

Após 176 anos desta trágica história, Barnabas desperta do sono e tenta retomar a sua história na família Collins, atualmente, com apenas quatro descendentes ainda vivos, liderados por Elizabeth (Michelle Pfeiffer), e não ostentando mais a mesma riqueza de quase dois séculos atrás.

Sombras da Noite pretende retratar esta nova ambientação do protagonista vampiro ao seio dos seus parentes e também do cenário atual da década de 1970, em plena época de liberação sexual, contracultura e drogas, mas o filme se perde na tentativa de criar situações cômicas para Barnabas, transformando-se num arsenal de piadas sem graça e clichês que embolam a narrativa, deixando o longa sem ritmo e cansativo.

Outro ponto negativo é o elenco. Michelle Pfeiffer continua linda e talentosa, mas não tem grandes chances de mostrar a que veio, fazendo com que a plateia fique esperando uma reviravolta para a sua personagem; Bonham Carter, mesmo que mais contida que o habitual, tem uma atuação preguiçosa na pele da Dr. Julia; já Heathcote é totalmente inexpressiva, seja como Josette ou Victória, novo interesse romântico de Barnabas.

E, por mais que Depp esteja bem como Barnabas, não deixa de ser irritante ver o ator, mais uma vez, vivendo um personagem bizarro e esquisitão, que tem na maquiagem boa parte dos méritos de sua interpretação. De fato, o ator é talentoso, e já provou com os filmes Profissão de Risco, Em Busca da Terra do Nunca e Inimigos Públicos que pode viver muito bem um personagem de “cara limpa”, basta ter um pouco mais de coragem e escolher papeis mais ousados.

Portanto, sobra para Eva Green o melhor papel do longa. Na pele da feiticeira Angelique, a atriz consegue aliar a mesma sensualidade demonstrada em Os Sonhadores com o carisma suficiente para deixar críveis as artimanhas da vilã, acertando na composição, propositalmente, exagerada da personagem.

A parte estética do filme, assim como em praticamente todas as produções de Burton, é impecável. Os figurinos vibrantes misturam cores quentes e góticas que ajudam a pontuar o desenvolvimento dos personagens; os cenários são grandiosos e convincentes, principalmente, a Mansão Collins; e a fotografia continua parecendo uma pintura.

Ou seja, Sombras da Noite é apenas mais um filme bonitinho, porém ordinário; visualmente lindo, mas pobre de conteúdo, que se torna facilmente esquecível após a projeção e acende um sinal de alerta para a carreira de Burton. Aliás, não custa lembrar que o diretor não acerta a mão desde o ótimo Peixe Grande (2003), que, por coincidência (ou não), não era protagonizado por Johnny Depp.

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Jornalista, fã incondicional de Nick Hornby e coautor do livro inédito Cine Belas Artes: Um Olhar Sobre os Cinemas de Rua de São Paulo. Ainda não viu nada melhor que Asas do Desejo, de Wim Wenders... Mas Beleza Americana chegou perto. e-mail: cristiano@setimacena.com