Crítica: Tropicália

Uma onda de documentários musicais vem se pronunciando no mercado brasileiro e parece querer fazer um registro exaustivo da história desse que é o domínio artístico em que o nosso país mais se destaca, e se destaca muito. Já vimos recentemente documentários sobre Tom Jobim (A Música Segundo Tom Jobim, de Nelson Pereira dos Santos e Dora Jobim) e o completíssimo Raul – O Início, o Fim e o Meio (de Walter Carvalho). Agora somos presenteados com o apaixonante Tropicália, dirigo por  Marcelo Machado.

Passando pelos anos de 1967, 1968 e 1969, o documentário nos apresenta ao cenário cultural brasileiro que inspirou Caetano Veloso e Gilberto Gil a criar uma forma de música antropofágica, que engolisse todos os aspectos da cultura nacional, e mesmo a influência estrangeira (dos Beatles, por exemplo) da mesma forma que a poesia de Oswald de Andrade havia feito antes. Cenário que contava com Glauber Rocha e seu cinema novo, com Zé Celso (ambos aparecem em imagens de época) e seu Teatro Oficina e com a poesia concreta dos irmãos Campos.

O filme é uma colagem vibrante – com efeitos especiais de lápis de cor sobre imagens em branco e preto – e vertiginosa de preciosas filmagens da época (algumas os próprios protagonistas do movimento não sabiam que existiam!), filmes do cinema novo e outros documentários e entrevistas com todos os remanescentes: além das participações mais significativas de Gil e Caetano, vamos ouvir Rita Lee, Arnaldo Baptista, o sempre irreverente Tom Zé, e outros.

A primeira cena do filme nos apresenta Caetano e Gil num programa da televisão portuguesa. Solicitado a explicar para o público, em inglês, o que é o Tropicalismo, Caetano hesita: “Well…” O filme felizmente não tenta ser mais preciso do que Caetano. A ideia é menos explicar o movimento do que jogar o espectador no clima da época, fazê-lo sentir as angústias e dilemas que incomodavam os artistas do período. Mesmo as fundamentais entrevistas não pretendem outra coisa: o Tropicalismo, ao que parece, era menos uma ideia do que um espírito, uma energia.

Tudo isso para não falar das músicas em si que entremeiam o documentário. Músicas que, claro, fazem parte do imaginário brasileiro, e que mais uma vez emocionam e nos fazem entender melhor do que de qualquer outra forma o que é a Tropicália (nas palavras de Gil, “uma ilha, uma utopia”).

Não existe uma conclusão lógica, uma lição a ser tirada: o documentário termina com Gil e Caetano vendo imagens de seu retorno ao Brasil após o exílio em Londres. As lágrimas de Gil são a conclusão do filme, um olhar rico e apaixonado sobre uma época que, ao mesmo tempo, foi breve mas cujos sentimentos ainda hoje de alguma forma perduram nos que não se contentam em ser uma dessas “pessoas da sala de jantar”.

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Físico, cinéfilo e leitor. Faz mestrado na área de Teoria de Supercordas, improvisa nos ônibus e metrôs confortáveis salas de leitura e nas horas vagas (e em muitas das nem tão vagas assim) vê filmes, de Méliès a Bollywood. Twitter: @tpursulino - E-mail: tiago@setimacena.com

Comentários

  1. José Machado disse:

    Bacana… Agora vou escutar Michel Teló e me preparar pro show do Jorge e Marheus. Hahahaha….