Crítica: Uma Longa Viagem

Muitas pessoas não gostam de documentários, a sucessão de imagens, talking heads e registros históricos pode facilmente se tornar maçante e pouco interessante para quem não é fã do gênero. Mas, isso não acontece em Uma Longa Viagem, filme dirigido por Lúcia Murat e premiado no Festival de Paulínia, pela crítica, e em Gramado, nas categorias Melhor Filme, Melhor Ator, Melhor Direção de Arte, Prêmio do Júri Popular e Prêmio Estudantil.

Com uma aura extremamente pessoal, o filme é sobre o amor entre irmãos, nostalgia e retrato de uma geração. O longa, que inicia com a trilha sonora Summertime, de Janis Joplin (já querendo ganhar meu coração logo no começo), conta a história da diretora Lúcia Murat (que faz as narrativas em off) e de seus dois irmãos Heitor e Miguel. O que impulsionou a produção do documentário foi a recente morte de Miguel e, a partir disso, a diretora decidiu abrir o baú de suas lembranças e trazer à tona fotos, cartas e histórias sobre a época da juventude dos irmãos.

Lúcia se envolveu com a luta armada e foi presa durante a ditadura militar. Para não seguir os mesmos passos da irmã, a mãe resolve mandar o caçula Heitor para o exterior, onde ele segue uma vida nômade durante 9 anos. Durante esse tempo, ele escreve cartas para a família e estas são o fio condutor do filme. As narrativas/leituras são muito bem interpretadas por Caio Blat, que interage com projeções dos lugares que Heitor descreve, dando um efeito de lembrança e saudosismo que gravações no próprio local não conseguiriam, e, ao mesmo tempo, contadas pelo próprio Heitor, fumando loucamente num talking head em uma biblioteca.

Heitor é uma figura extremamente carismática, excêntrica e não há possibilidade do público não se encantar por ele. Sua história é a personificação da geração beatnik, com loucas andanças pelo mundo, regadas a todas as drogas imagináveis e ideais contra o sistema. Heitor consegue tirar boas risadas da plateia com histórias de prisão; “era uma maravilha. Tinha cinema, televisão. No quarto só tinha um radinho… Mas tocava rock!”; e de viagens impensáveis; “queríamos ir de Londres para Amsterdã de bicicleta” ou “Eu queria atravessar a Índia a pé”.

O irmão Miguel é o que fica mais apagado na história, por ser o único a não participar da narração e aparecer unicamente em fotos e relatos de Lúcia. As visões de mundo de Lúcia e Heitor, naquela época, são antagônicas. Ela é uma prisioneira política que não sabe nada do que acontece do lado de fora, não tem acesso à informação e as correspondências são passadas pela censura; e Heitor está em constante movimento, experimenta e vive tudo que o mundo oferece. O interessante é perceber que, no final do trajeto, Heitor é quem não assimila a realidade ao voltar para casa. Ele é internado e recebe tratamento psiquiátrico. O que nos faz pensar nos diferentes níveis de dano que a clausura ou o excesso de tudo traz ao indivíduo.

Intercalando a dinâmica de documentário com interpretação, Uma Longa Viagem é um excelente filme, que dialoga com todas as gerações, até mesmo com as mais novas como a minha, nascida no fim dos anos 80 e que não viveu a época de chumbo, mas que sentiu, no ápice de sua juventude, dois sentimentos distintos ou misturados, a vontade de mudar o mundo ou de, pelo menos, desbravar os horizontes, no maior estilo On The Road.

Uma Longa Viagem estreia esta sexta feira (11). Confira o trailer.

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Jornalista, coautora do livro Cine Belas Artes: Um Olhar Sobre os Cinemas de Rua de São Paulo. Fã de Pink Floyd, ficção científica e mindfucks em geral. Acha que uma vingança bem arquitetada é um belo mote para qualquer filme. Twitter: @crismedias e-mail: cristiani@setimacena.com