Crítica: Weekend

Russell (Tom Cullen) é um rapaz homossexual que tenta levar uma vida normal como qualquer pessoa, mas se vê preso aos próprios questionamentos em relação à sua sexualidade, pois não consegue assumi-la publicamente, com exceção de seu círculo de amizades. Depois de uma festa na casa dos amigos, ele resolve ir a um clube gay, onde conhece Glen (Chris New), com quem passa a noite, que “deveria”(?) ser a única dos dois, mas eles se apegam e continuam juntos pelos dias seguintes.

Extremamente tímido e reservado, Russell encontra em Glen, talvez, a segurança que gostaria de ver em si próprio. Sexualmente reprimido, em vários momentos demonstra constrangimento quando se vê próximo de conversas de cunho sexual. Seja na piscina onde trabalha como salva-vidas, no metrô ou nos bate-papos de bar. Glen, ao contrário, demonstra ser mais aberto publicamente sobre seus desejos e pensamentos sobre sexo, embora intimamente carregue seus próprios fardos por conta de um antigo namoro mal resolvido.

A relação dos dois, que a princípio estaria ligada apenas ao sexo, ganha ares mais profundos conforme se conhecem melhor, a ponto de Russell ser o primeiro a demonstrar sentimentos reais pelo parceiro, que luta com os seus próprios, como que para se reafirmar certa independência sentimental, que posteriormente veremos que não possui. Méritos para o roteiro do diretor Andrew Haigh, que, pouco a pouco, vai desenvolvendo a personalidade dos dois em diálogos informais e muito bem construídos, sem apelar para perguntas e respostas óbvias, que seriam comuns no início de um relacionamento, mas certamente não funcionariam em um filme.

A quase ausência de trilha sonora causa uma sensação de melancolia na vida de Russell, assim como a decoração fria e sóbria do pequeno e claustrofóbico apartamento onde mora, no 14º andar de um prédio. Localizado em uma vizinhança aparentemente hostil em relação a homossexuais, o edifício apresenta uma espaçosa área verde no pátio, que se contrapõe à vida sem cor e apertada do rapaz.

A câmera de Haigh quase sempre acompanha a relação dos dois a uma certa distância, com algum obstáculo na frente: uma pessoa, uma grade ou algum objeto de decoração. Como se fôssemos observadores secretos, acompanhando a relação daquele casal que acabou de se conhecer, mas que logo descobre que se ama. Um amor repentino, que na vida real custamos a acreditar que exista, mas que no cinema já foi retratado outra vezes, como em Antes do Amanhecer, de Richard Linklater.

Em Weekend, para além da história de amor entre duas pessoas, está o desejo de um ser humano, como qualquer outro, ser aceito em uma sociedade extremamente retrógrada e preconceituosa, na qual uma forma de hostilizar alguém é classificá-lo como gay, independentemente da pessoa em questão ser ou não. Mas, como diz Glen em uma das cenas, a única coisa que, talvez, diferencie gays de héteros, é que eles dançam mais.

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Jornalista e crítico de cinema. Coautor do livrorreportagem Cine Belas Artes: Um Olhar Sobre os Cinemas de Rua de São Paulo. Acha O Poderoso Chefão o melhor filme do mundo, mas torce todos os dias para assistir a algum que o supere. Ainda não encontrou, mas continua buscando. E-mail: carlos@setimacena.com // Letterboxd: @CarlosCarvalho