Crítica: Drive

Drive se passa naquela fração de segundos em que o motorista solta o acelerador e pisa na embreagem para mudar de marcha. Todo mundo que dirige faz isso. E, quase sempre, inconscientemente. A gente simplesmente sabe a hora em que tem de fazer, faz e nem percebe. É assim que se passa o filme dirigido por Nicolas Winding Refn e estrelado pelo ator do momento Ryan Gosling.

Mecânico e dublê de cinema durante o dia, piloto de fuga durante a noite, o personagem de Gosling (que recebe apenas a alcunha de Driver) é minimalista. Quase não fala, quase não se mexe, quase não se expressa, embora diga muito com todas essas características. Ele só dirige, como diz para Irene, personagem vivida por Carey Mulligan, logo que se conhecem. Vizinhos, os dois começam a se envolver justamente quando Standard (Oscar Isaac), o marido de Irene, está prestes a sair da prisão e voltar a morar com ela e o filho, Benicio, de quem cuida sozinha.

Quando Standard pensa que encontrou sua liberdade, se vê preso a uma dívida antiga com bandidos de uma gangue chefiada por Albert Brooks (excelente). Para se livrar dela, Standard terá de realizar um último assalto. Ao saber dos riscos que Standard corre, e por consequência Irene e Benicio, o personagem de Gosling se propõe a ajudá-lo nesse assalto, dirigindo para ele. A partir disso, tudo pode acontecer. E acontece.

O homem sem nome, que poderia muito bem ter saído de um western clássico ou de um thriller noir, ganha forma e conteúdo nas mãos de Ryan Gosling e da excelente direção de Winding Refn, que venceu o Festival de Cannes no ano passado. A figura calada e com sorriso sacana no rosto se mostra completamente explosiva e assustadora. Tudo na medida certa e nos momentos precisos.

Compor um personagem desse tipo, não deve ser das coisas mais fáceis, principalmente porque ele praticamente não se expressa através da fala, apenas com olhares. Para isso, é importantíssimo que o ator entenda o que o personagem precisa passar de emoção e gosto de pensar que o diretor exerce um papel fundamental na composição desse papel. Veja a foto acima e me diga se não parece que Winding Refn está fazendo exatamente isso com Ryan Gosling.

Drive tem um pouco de Park Chan-wook e Tarantino, claro. E é quase impossível não fazer uma relação entre seu protagonista e Travis Bickle, de Taxi Driver, que, assim como o daqui, age como pensa ser a forma correta, independente de moralismos e se fora ou dentro da lei. Mas o filme é muito mais do que isso. É como se John Wayne cruzasse o Velho Oeste cavalgando um Chevy Malibu 1973.

“Te dou cinco minutos. Qualquer coisa que aconteça nesses cinco minutos, estou com você. O que acontecer fora desse tempo, você está por conta própria.”

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Jornalista e crítico de cinema. Coautor do livrorreportagem Cine Belas Artes: Um Olhar Sobre os Cinemas de Rua de São Paulo. Acha O Poderoso Chefão o melhor filme do mundo, mas torce todos os dias para assistir a algum que o supere. Ainda não encontrou, mas continua buscando. E-mail: carlos@setimacena.com // Letterboxd: @CarlosCarvalho