Crítica: Ela, de Spike Jonze

Curiosos os tempos em que vivemos. Inundados pela tecnologia, tornamo-nos cada vez mais mecanizados em nossos atos e sentimentos, enquanto as máquinas evoluem cada vez mais para se tornarem nossas virtuais substitutas em representatividade no mundo. Não, isto não é uma crítica à nossa sociedade, um repúdio à evolução, nem tampouco um saudosismo barato dos velhos tempos. As coisas são como são, e assim estão sendo atualmente, não há como negar.

Em Ela, novo filme do criativo e sensível Spike Jonze, Theodore (Joaquin Phoenix) é um homem que trabalha em um site especializado em escrever cartas à mão. Nesse futuro, tão próximo do nosso presente, em um tempo onde “os livros ainda são publicados”, as pessoas contratam esse serviço quando querem escrever para seus contatos mais próximos, namorados e namoradas, esposos e esposas, amigos, filhos, pais e avós. Todas as mensagens são criadas por esses redatores modernos que, sensíveis que são, compartilham com o mundo os sentimentos de terceiros. Ou os seus próprios, em outra voz.

Recém-saído de um casamento, Theodore compra um novo sistema operacional que promete uma tecnologia de inteligência artificial que acumula conhecimentos e evolui, tal qual os seres humanos. Estamos em uma nova era tecnológica, onde as máquinas começam a ser preparadas para ficar cada vez mais parecidas com nós, seres humanos, que já somos tão mecanizados a ponto de não ditarmos sequer nossas próprias cartas. Ao configurar seu novo SO, Theodore começa seu contato com Samantha (Scarlett Johansson), Ela, a voz por trás daquela máquina tão humana a ponto de respirar bits e compor canções.

Solitário e introspectivo, Theodore encontra em Samantha um refúgio para sua melancolia, causada principalmente pelo fracasso em seu último relacionamento e que se estende às tentativas de novos contatos com outras mulheres. Belissimamente interpretado Joaquin Phoenix, em um de seus melhores papéis numa carreira tão rica e plural, nosso protagonista tem uma personalidade serena. Uma tristeza escondida por trás de um sorriso amarelo, um bigode milimetricamente bem cuidado, óculos de armação grossa e lentes grandes, e um figurino que contrasta os tons pastéis com cores fortes. Mais próximo dos “nossos queridos” hipsters atuais, impossível.

Cultura hipster que também é evocada tanto pela fotografia, que apresenta uma tonalidade dos filtros mais “cool” do Instagram, como também pela trilha sonora indie, com destaques para a banda Arcade Fire e a cantora Karen O, da banda Yeah Yeah Yeahs, compositora (junto de Spike Jonze) do tema do casal, The Moon Song, indicada ao Oscar de canção original nesse ano.

Com um roteiro inventivo – e vencedor do Oscar –, ao mesmo tempo que tão próximo do real, Jonze prevê com alguma cautela para onde estão indo as relações humanas. O caminho que estamos seguindo aos poucos, muitas vezes sem saber. Mas, mesmo sabendo, não podemos (ou podemos?) evitar que ele chegue. Há quanto tempo você não escreve para alguém? Não falo de uma pequena mensagem no Whatsapp, Twitter ou Facebook. Não precisa ser necessariamente uma carta, mas um e-mail mesmo, daqueles que você para por alguns minutos, ou horas, para compor. Pessoal e intransferível, carregado de algum sentimento e cumplicidade. Em contrapartida, quantas vezes você se sentou de frente para alguém e, em algum momento, essa pessoa sacou um smartphone para checar suas mensagens e conversar com outra pessoa?

É dessa perda de humanidade que o filme de Spike Jonze trata. Não por acaso, a questão inicial para a configuração do sistema operacional comprado por Theodore é “você é social ou antissocial?”. A seguir, o SO também irá perguntar qual a relação de Theodore com sua mãe, em clara referência a uma das questões do famoso teste psicológico Voight-Kampff, de Blade Runner, usado para descobrir os replicantes daquele futuro distópico. A única diferença é que, na obra de Philip K. Dick, bem como no filme de Ridley Scott, esse questionamento é feito por um humano.

É com essa humanidade invertida que o grande destaque do filme fica por conta da interpretação de Scarlett Johansson, que faz de sua Samantha tão humana quanto nós, digna de cometer gafes públicas e de se entregar a alguns dos maiores clichês de casais, como ligar para o parceiro apenas para ouvir sua voz. E por ser tão humana, e real, não lhe poderia ser negado o direito de amadurecer (tal como já haviam prometido seus criadores) com suas próprias experiências, assim como é comum de acontecer com qualquer casal, quando uma das partes evolui enquanto a outra fica estagnada, pois projeta no parceiro aquilo que gostaria de sentir para se confortar, se conformar.

Talvez por isso o que mais resta depois de um término é o vazio existencial, que aos poucos é preenchido pela aceitação dos erros, um leve sentimento de culpa e o reconhecimento de que, mesmo que no início você enxergue apenas perdas, aos poucos verá a importância daquela etapa da vida, daquela página que precisava ser virada para que se chegasse onde está. Tal como diz a carta que Theodore dita para a ex-mulher, que reproduzo abaixo. Seria esse um recado de Spike Jonze para Sofia Coppola? Talvez nunca saibamos. O que sabemos, no entanto, é que é uma mensagem tão universal quanto o próprio filme.

Querida Catherine,

Estou aqui pensando em tudo pelo que quero me desculpar. Toda a dor que causamos um ao outro. Tudo o que coloquei em cima de você. Tudo o que eu precisava que você fosse, ou dissesse.

Sinto muito por isso.

Vou te amar para sempre, porque crescemos juntos. E você me ajudou a ser quem eu sou. Eu só queria que você soubesse que sempre haverá uma parte de você em mim. E sou grato por isso.

Seja lá quem você se tornou, onde quer que você esteja no mundo, estou te mandando amor. Eu apaguei o final.

Com amor,

Theodore.

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Jornalista e crítico de cinema. Coautor do livrorreportagem Cine Belas Artes: Um Olhar Sobre os Cinemas de Rua de São Paulo. Acha O Poderoso Chefão o melhor filme do mundo, mas torce todos os dias para assistir a algum que o supere. Ainda não encontrou, mas continua buscando. E-mail: carlos@setimacena.com // Letterboxd: @CarlosCarvalho