Crítica: Interestelar, de Christopher Nolan

É difícil assistir Interestelar, novo filme do aclamado diretor Christopher Nolan, e não traçar um pequeno paralelo com o recente Boyhood, de Richard Linklater. Apesar de muito diferentes em sua abordagem, ambos tratam de dois grandes assuntos em comum: o tempo e a relação entre pais e filhos. Mas as semelhanças praticamente param por aí, pois o longa de Nolan é muito mais ambicioso em sua realização, embora o experimentalismo de Linklater ao rodar um filme ao longo de 12 anos também possa ser considerado ousado.

Interestelar tem proporções gigantescas, como têm sido os últimos trabalhos de Nolan. Matthew McConaughey vive Cooper, um ex-piloto da Nasa que virou fazendeiro, em um período em que a Terra vive uma fase pré-apocalipse, com uma poeira que ameaça cobrir toda sua superfície e que já vem acabando com quase todas as fontes de comida. Ele é recrutado, então, para tripular uma nave que irá explorar o espaço a fim de encontrar um novo planeta para onde a população terrestre poderá migrar um dia. Para transpor os limites do espaço-tempo, a tripulação deve utilizar um “buraco de minhoca”, que naturalmente nos leva a dois dos assuntos mais celebrados pela ficção científica: exploração espacial e viagem no tempo.

Na Terra, Cooper deixa dois filhos e a promessa de voltar para eles de sua aventura espacial. Mas a trama gira em torno de uma viagem no espaço-tempo, e os mais afeitos a histórias de ficção científica sabem que as coisas não são tão simples assim. Em meio a sua viagem, Cooper e sua companheira de tripulação, Amelia (Anne Hathaway), entrarão por um desses buracos de minhoca e o tempo para eles passará de uma forma completamente diferente do que vivemos na Terra.

Até esse ponto, o filme de Nolan segue muito bem, principalmente quando ele retorna para sua nave principal depois de uma “saída exploratória” e recebe a notícia de que anos se passaram e que, agora, seus filhos já são adultos. Esse é o momento, aliás, com a talvez melhor cena do filme, quando Cooper assiste às gravações que seus filhos lhe enviaram ao longo dos anos. Mérito principalmente das atuações de McConaughey e Jessica Chastain, que interpreta sua filha adulta, Murph.

O problema é que esse é praticamente o único momento em que acreditamos na questão humana que envolve aquela relação. Todo o restante do filme é uma tentativa de racionalizar o amor baseado na ciência utilizada para a concepção daquela história. Em especial a relatividade geral, de Einstein, e os estudos sobre buracos-negros e buracos de minhoca do físico Kip Thorne. Essa complexidade dos temas, inevitavelmente, faz com que Nolan caia em um de seus maiores defeitos, encontrado em vários de seus filmes, o excesso de exposições, de explicações sobre tudo. E a forma como seu roteiro, coassinado com seu irmão, Jonathan Nolan, é construído, deixa a história desnecessariamente mais complexa do que ela poderia ser.

Poderia, se Nolan não fosse um racionalista compulsivo e se deixasse levar um pouco mais pela subjetividade, pela emoção que seus próprios personagens poderiam nos passar. Mas, ao contrário, ele força esse lado emocional pouco presente em sua história em outros recursos do cinema, como a trilha sonora composta por Hans Zimmer, que em determinados momentos soa exagerada, beirando o irritante.

Os pontos altos e baixos de Interestelar fazem dele um longa muito irregular, com ótima fotografia, atuações e efeitos visuais, por exemplo, mas com um desenvolvimento muito fraco de personagens e da própria história, que soa bastante previsível em alguns momentos, além do excesso de exposições e da falta de talento de Nolan ao lidar com sentimentos reais.

Interestelar tinha tudo para ser uma obra-prima, e tem pretensões para isso, mas talvez seja esse seu grande pecado. Tem ares grandiosos demais, mas deixa de lado coisas fundamentais como criar relações humanas palpáveis, que faça com que nos importemos com seus personagens, com suas escolhas e com suas buscas. Afinal, toda boa ficção científica trata exatamente disso: de como as relações humanas, individuais ou em sociedade, são impactadas pelas descobertas e aplicações da ciência.

Com mais um bom filme, Nolan mantém viva a esperança contida no bordão “in Nolan we trust”, tão entoado por seus fãs, mas também deixa aquele gostinho de “ainda não foi dessa vez que vimos a obra-prima que esperamos dele”. E, sinceramente, não sei se somos justos ao esperarmos uma. A questão é que talvez ele seja o único cineasta atualmente a ter a faca e o queijo nas mãos, que podem ser lidos como o potencial e a verba que lhe for necessária. Mas, talvez, a faca ainda esteja pouco afiada, ou o queijo muito duro no momento.

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Jornalista e crítico de cinema. Coautor do livrorreportagem Cine Belas Artes: Um Olhar Sobre os Cinemas de Rua de São Paulo. Acha O Poderoso Chefão o melhor filme do mundo, mas torce todos os dias para assistir a algum que o supere. Ainda não encontrou, mas continua buscando. E-mail: carlos@setimacena.com // Letterboxd: @CarlosCarvalho