Crítica: Isto Não é um Filme

DivulgaçãoIsto não é uma crítica

O que é arte e qual a sua função (se é que ela existe)? Com certeza, responder a estas questões não é simples. É tênue a linha que divide o que é arte daquilo que não é. De qualquer forma, uma de suas funções (sim, elas existem) é representar a sociedade, utilizando elementos que registram as emoções e/ou acontecimentos de uma época, pessoa, região, etc..

Preso em março de 2010 por “ação e propaganda contra o sistema”, o cineasta iraniano Jafar Panahi foi condenado a seis anos de detenção e 20 anos sem poder dar entrevistas, viajar para fora de seu país, dirigir filmes e escrever roteiros.

Vítima do regime ditatorial praticado no Irã, presidido por Mahmoud Ahmadinejad, Panahi encontrou uma forma de fazer um não-filme, que é mais uma denúncia do sistema iraniano que uma obra cinematográfica. É um filme sobre a possibilidade de não se fazer um filme. É quase que uma anti-metalinguagem.

Com a ajuda do amigo documentarista Mojtaba Mirtahmasb, Panahi resolve gravar imagens em seu apartamento, do qual não pode sair, por conta da prisão domiciliar, enquanto lê trechos de um roteiro que foi proibido de ser filmado. Isto Não É um Filme é um instrumento de resistência às limitações impostas ao cineasta pelo governo de Ahmadinejad.

Em seus 75 minutos, Isto Não É um Filme discute de forma silenciosa (já que qualquer palavra dita pode levar qualquer um à prisão) vários tipos de cassação à liberdade dos cidadãos iranianos. Desde as ideias de Panahi para este documentário, que não podem ser faladas ao telefone, passando pela dificuldade de ir e vir do povo iraniano dentro de seu próprio território, ultrafiscalizado pela polícia do país, até a limitação de um jovem universitário que não consegue exercer a profissão que estudou e tem de se submeter a realizar diversos trabalhos para poder se manter e pagar seus estudos.

Proibido de dirigir e escrever roteiros, o cineasta se aproveita de uma brecha em sua condenação para poder atuar e ler seus scripts. Mas, se fosse possível contar um filme, por que filmá-lo, como ele mesmo pergunta? Não importa. Ler é somente o que Panahi precisa para nos emocionar com sua história.

Durante a leitura de seu roteiro proibido, sabe-se lá por que, Panahi joga na nossa cara uma das principais funções da arte: a denúncia de uma realidade social podre e que precisa ser mudada. Com seu não-filme, o cineasta deixa claro que qualquer líder ou governo pode tentar limitar as pessoas através de medidas ditatoriais e tiranas, pode revogar o direito à liberdade de expressão, mas não o de livre pensamento.

Por mais pesada que seja a mão nefasta da ditadura, por mais forte que seja a mordaça que ela impõe às pessoas, é impossível impedir que elas pensem o que quiserem pensar. Se isto é um filme? Não importa. O que importa, é que é uma obra-prima, assim como o cachimbo (que não era), de Magritte.

Só não digo que Isto Não É um Filme é obrigatório, porque basta de imposições relacionadas a esta história, mas ele se faz necessário. E por isso deve ser visto.

Isto não é um cachimbo, René Magritte

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Jornalista e crítico de cinema. Coautor do livrorreportagem Cine Belas Artes: Um Olhar Sobre os Cinemas de Rua de São Paulo. Acha O Poderoso Chefão o melhor filme do mundo, mas torce todos os dias para assistir a algum que o supere. Ainda não encontrou, mas continua buscando. E-mail: carlos@setimacena.com // Letterboxd: @CarlosCarvalho

Comentários

  1. Thiago disse:

    Foi o único texto que li até agora, rapidamente. Como já esperava, o site de vocês é muito bom, serei assíduo visitante e já vai pro meu Reader! Parabéns!

  2. Tiago Ursulino disse:

    (Aviso de “spoiler”!) Este “não-filme” acho que acabou se tornando um filme, afinal. Com certeza sem esperar por isso, o Panahi completou um arco no filme: mais pro começo, ele se lembra da pequena atriz que atuava num filme dele e, um dia, do nada, cansa de ser filmada, olha pra câmera no meio da cena e retira o gesso que tinham colocado nela. Panahi diz que gostaria de “tirar o gesso”, fazer algo de mais verdadeiro, porque àquela altura ele sentia que seus filmes eram todos ensaiados demais. Neste “Isto não é um filme”, ao encontrar o rapaz que estuda Arte mas trabalha recolhendo lixos no prédio, ele descobre essa verdade, no relato sincero desse rapaz, que acaba “representando” o sonho da juventude do Irã de viver uma vida melhor. (Aliás, parabéns pelo site!)