Crítica: Jovens Adultos

É difícil assistir a Jovens Adultos e não se identificar pelo menos um pouco com a protagonista, Mavis Gray, interpretada por Charlize Theron, ou até mesmo com algum dos outros personagens que aparecem no filme. Mavis é uma escritora de meia-idade, meio decadente, meio esculachada, meio dondoca, meio alcoólatra e meio desencantada da vida. Até que recebe um e-mail de um antigo namorado, vivido por Patrick Wilson, da adolescência apresentando sua filha que acabara de nascer.

Ela, então, decide sair de Mineápolis, onde vive, e voltar para a pequena cidade de Mercury, onde foi criada, para reencontrar Buddy Slade e tentar reatar o relacionamento que tinham, mesmo sabendo que ele agora é casado e tem uma filha. Na verdade, ela entra numa crise de meia-idade, pois não consegue lidar muito bem com o fato de que ele já tem uma filha e ela acaba de sair de um casamento fracassado.

Assim como em Juno, primeira parceria do diretor Jason Reitman com a roteirista Diablo Cody, a protagonista se vê confrontando uma geração diferente da sua. Lá, a jovem interpretada por Ellen Page sofre o impacto da vida adulta ao ficar grávida na adolescência. Aqui, Mavis reencontra o seu passado de garota popular do colégio e rainha do baile, mas pela ótica das pessoas simples que eram vítimas da sua popularidade, como o nerd Matt Freehauf, que chegou a sofrer bullying violento na escola.

Durante todo o filme, Mavis tenta reconquistar o antigo namorado, ao mesmo tempo em que cria uma nova relação de amizade com Freehauf, que sempre a aconselha a não botar seus planos em prática, já que Buddy é um cara casado. Em meio às suas constantes investidas, vamos enxergando em Mavis suas qualidades e defeitos e percebendo que, apesar do seu jeito fútil (ela tem até um cachorro de madame chamado Dolce, em referência ao estilista Domenico Dolce, da grife Dolce & Gabbana), ela só está em busca de sua própria felicidade.

Voltar à cidade natal para tentar amarrar uma ponta solta de seu passado, só reflete o fato dela ter “fugido” da cidade em busca de uma vida melhor em outra cidade, mas que, por algum motivo, embora tenha melhorado de vida, não encontrou a paz que todos nós procuramos.

A diferença é que, mesmo voltando, ela percebe que não faz (nem nunca fez) parte daquela sociedade provinciana de Mercury, onde o rapaz que sofreu bullying na adolescência sofre até hoje com as consequências disso e usa como muleta para justificar seu próprio fracasso; ou da irmã deste, que sempre sonhou em sair da cidade, mas nunca teve coragem o bastante; ou até do grupo de amigas do qual pertence a mulher de Buddy, que se diverte tocando com sua banda em um bar local, como se ainda estivessem na escola.

Com uma direção simples de Reitman e o roteiro preciso de Diablo Cody, especialmente no bom humor e ironia dos diálogos, este filme merecia um destaque um pouco maior do que recebeu na temporada, principalmente porque a atuação de Charlize (sempre linda, mesmo quando sua personagem está destruída) já vale o filme e sua personagem, Mavis, é a prova de que embora a gente possa mudar nossa vida a traçar alguns rumos diferentes, nós somos o que nós somos, jovens adultos.

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Jornalista e crítico de cinema. Coautor do livrorreportagem Cine Belas Artes: Um Olhar Sobre os Cinemas de Rua de São Paulo. Acha O Poderoso Chefão o melhor filme do mundo, mas torce todos os dias para assistir a algum que o supere. Ainda não encontrou, mas continua buscando. E-mail: carlos@setimacena.com // Letterboxd: @CarlosCarvalho