Crítica: La La Land: Cantando Estações, de Damien Chazelle

Há uma cena em La La Land em que o personagem vivido por Ryan Gosling, Sebastian, diz que quer salvar o jazz, que está morrendo. Ele é um pianista frustrado por não conseguir se apresentar tocando o que gosta e quer abrir um bar onde o estilo possa ser valorizado, já que vem sendo esquecido pelas novas gerações ou subvertido em inúmeras misturas bizarras, perdendo, por consequência, sua essência, sua alma. É um sonhador, assim como a personagem vivida por Emma Stone, Mia, uma jovem barista de um café nos estúdios Warner, que se dedica a realizar o maior número possível de audições para conseguir algum papel como atriz.

Escrito e dirigido por Damien Chazelle, La La Land: Cantando Estações é sobre sonhos e sonhadores e mostra uma história que, como mensagem, pode não ser das mais úteis nos dias de hoje, apesar de lúdica (e precisamos de ludismo também). Essa ideia de que podemos sonhar e correr atrás dos nossos sonhos acaba sendo uma cilada na maior parte das vezes. É um discurso de gente branca e privilegiada, sim. Não conseguir realizar os sonhos? Oh, que tragédia! First world problems. Mas é importante reconhecer que é fruto dos nossos tempos. Dessa forma, ele reflete bem uma ideia bastante difundida na geração dos millennials que, diferentemente das anteriores, podem, em parte, se dar ao luxo de correr atrás dos sonhos e transformar o trabalho em hobby e vice-versa. Já nasceram em uma situação privilegiada, na qual os pais e avós se mataram para conseguir um trabalho fixo e estável para prover o sustento da família. Chazelle, Gosling e Emma são millennials. Enfim, é uma história deles, sobre eles e que vai alcançar um grande público nessa mesma faixa etária.

Mas se engana quem acha que o filme fica limitado a isso. Óbvio que não. É também uma ode à Hollywood dos musicais, sem precisar copiar ipsis litteris o que era feito na época. Nem é o que me parece querer o cineasta e seu casal protagonista. Emma Stone e Ryan Gosling, apesar da química inegável e rara no cinema contemporâneo, não são Fred Astaire e Ginger Rogers. Não seriam, se quisessem, mas não querem. E isso o filme deixa claro ao mostrar que todas as danças, apesar de muito bem coreografadas e filmadas (aí sim como na época, sem cortes e com enquadramentos de corpo inteiro), têm um tom mais propositalmente despretensioso em sua execução. Não é para parecerem passos perfeitamente executados, em total sincronia e com aquela explosão de energia, como nos musicais clássicos. É para parecerem reais aos dias de hoje. Como se duas pessoas do século 21 estivessem apenas emulando descompromissadamente uma coreografia de 50, 60 anos atrás, se divertindo com isso. E se divertem. E nos divertem.
Assim, com um número musical aqui e outro ali, Sebastian e Mia vão dançando no compasso de canções que realçam essa vida de sonhos que eles buscam, cada um à sua maneira. Na impossibilidade de se tornar um pianista reconhecido por seu free jazz, ele se sujeita a tocar numa banda modernosa, cheia de sintetizadores, para conseguir juntar dinheiro pelo menos para montar seu bar. Enquanto isso, Mia se aventura a escrever uma peça para que ela própria possa encenar e, assim, buscar seu espaço. Mas nenhum dos dois acaba muito bem sucedido nem feliz nessa espécie de “rendição” a outros trabalhos paralelos a seus sonhos, o que não os impede de continuar seguindo em frente até alcançarem o que desejam. Talvez, nem tudo da maneira como desejam, mas sempre se adaptando, com uma dose ou outra de improviso. Como nas audições de Mia. Como no jazz de Sebastian.

Essa história escapista e lúdica de busca pelos sonhos pode até não ser a melhor mensagem para os tempos de hoje, tendo em vista que, com a maré conservadora que vem tomando conta do mundo, talvez a gente precise de uma dose maior de realidade nas artes do que apenas cinismo. Mas vamos nos permitir mais uma vez se deixar encantar pela magia do cinema. Pelas cores vibrantes adotadas tanto na direção de arte quanto nos figurinos, que reforçam o calor e a energia de Los Angeles (ensolarada nas quatro estações) e também remete ao bom e velho Technicolor da Hollywood clássica, assim como o formato de tela escolhido por Chazelle e seu diretor de fotografia, o CinemaScope, numa proporção de tela de 2.55:1.
Todas essas escolhas técnicas e estéticas do cineasta engrandecem a obra e não soam gratuitas nem exageradas, pois dialogam perfeitamente com o gênero e com a proposta de seu filme. Até mesmo os movimentos de câmera, que em Whiplash acompanham com agilidade as músicas executadas, são mais contidos aqui, em favor das próprias coreografias e até como forma de balancear o desbunde imagético de La La Land. E quanto às canções, mais bem interpretadas por Emma Stone que por Ryan Gosling, vale dizer, “City of Stars” e “Audition (Fools Who Dream)” nasceram para se tornar clássicas, apesar do tom melancólico de ambas, que contrasta com o alegre número de abertura “Another Day of Sun”, outro destaque.

Favorito na corrida pelo Oscar 2017, não dá para dizer se La La Land sobreviverá ao tempo e acabará se tornando um clássico do gênero. Mas, sem dúvidas, é um filme cativante, que te faz sair do cinema cantarolando seus principais temas musicais e com a sensação de que nem tudo precisa durar para sempre mesmo, e que tudo bem. Que o importante, às vezes, é aquele recorte no tempo que representa um ponto de virada na sua vida ou aquela pessoa que te tira da zona de conforto e te faz evoluir, mesmo que no final cada um termine sua dança de maneira diferente.

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Jornalista e crítico de cinema. Coautor do livrorreportagem Cine Belas Artes: Um Olhar Sobre os Cinemas de Rua de São Paulo. Acha O Poderoso Chefão o melhor filme do mundo, mas torce todos os dias para assistir a algum que o supere. Ainda não encontrou, mas continua buscando. E-mail: carlos@setimacena.com // Letterboxd: @CarlosCarvalho