Crítica: Locke, de Steven Knight

Tom Hardy é Ivan Locke, um administrador de obras que, ao sair do trabalho, pega seu carro e vai acompanhar o nascimento de seu terceiro filho. A questão é que essa criança é fruto de uma transa de apenas uma noite. Não há qualquer laço afetivo entre ele a mãe. No entanto, ao sair do trabalho sabendo que ela teria o filho sozinha, Locke muda sua rota de volta para casa e decide acompanhar o parto.

É sob o alicerce da responsabilidade que a história se passa. Rodado em toda sua totalidade dentro do carro do protagonista – com exceção da breve cena inicial dele saindo do trabalho e chegando até o veículo –, o longa escrito e dirigido por Steven Knight (roteirista de Coisas Belas e Sujas e Senhores do Crime, e diretor do mediano Redenção) mostra a relação de Locke com os deveres que tem de cumprir: voltar para casa e reencontrar a família para assistirem juntos a um jogo de futebol; cuidar do recebimento da maior entrega de concreto da Europa; e acompanhar o parto de seu filho bastardo, citado acima.

Durante todo o percurso, Locke interage por telefone com diversos personagens cujas imagens não vemos. O tempo todo, acompanhamos apenas o semblante do protagonista durante suas ligações. Ora calmo, ora com pequenas explosões emocionais, mas sempre racional e calculista. Com (quase) total controle das situações, tal como controla seu carro em direção a Londres.

Locke não se permite voltar, tampouco cometer erros. Todos os seus atos já estão decididos e nada o fará fugir de sua responsabilidade para com o filho. Não quer que a criança passe pelo que ele próprio passou, já que também é um filho bastardo, mas que nunca recebeu o acompanhamento do pai. Em diversos momentos, ele próprio “conversa” pelo retrovisor com um banco vazio, que representa a ausência paterna. Não há o que o faça desistir de sua decisão. Irá dar a seu filho o que seu pai lhe negou: presença. E está disposto a assumir os efeitos disso: a perda do emprego e, possivelmente, da esposa/família, já que durante a viagem ele decide contar para ela o porquê não está voltando pra casa.

Com uma atuação minimalista de Tom Hardy (que não consigo entender como ainda não adquiriu um status de grande astro em Hollywood), Locke é um interessante recorte na história de um homem que tem sua rotina (e por que não toda a sua vida) alterada a partir de uma simples decisão: virar seu carro para a direita (“to the right side”, para o lado correto) em um momento crucial.

Durante quase noventa minutos, Hardy domina seu personagem como poucos conseguiriam, sem transformá-lo em algo caricato e que pecasse pelos excessos. Com um tom de voz quase sempre de altura regular, ele nos entrega as mais diversas emoções, geralmente, em reação aos retornos que recebe de seus interlocutores ao telefone. Méritos, também, da ótima construção do roteiro de Knight e de sua direção, que constrói uma gama variada de sentimentos, ao mesmo tempo em que aumenta o nível de tensão em um ambiente extremamente limitado, como o interior de um carro.

A fotografia também merece destaque, já que mesmo tendo de lidar com um único ambiente, há diversos posicionamentos de câmera que deixam a narrativa mais fluida, sem que precisemos acompanhar longos planos em uma única posição. Esse dinamismo resolve muito bem um problema que poderia aparecer, caso tivéssemos de lidar com uma câmera parada por muito tempo, como um cansaço diante daquele ambiente.

Nessa questão, é difícil não traçar um paralelo do desafio de Hardy e Knight com os do próprio protagonista e de seu trabalho como administrador de obras. O menor deslize poderia criar uma pequena rachadura, que com o tempo poderia crescer e levar tudo a um colapso. Tal como ele explica a seu substituto o motivo de a mistura do concreto ter de ser perfeita. Hardy e Knight construíram uma base sólida para o desenvolvimento do filme, assim como Locke tenta fazer o mesmo para o filho que está prestes a nascer.


Quando o prédio estiver terminado, terá 55 andares. Vai pesar dois milhões de toneladas. Irá alterar o lençol freático e compactará o granito. Será visível a 30 quilômetros de distância. Projetará uma sombra de 2 quilômetros de comprimento. Se o concreto na base do prédio não estiver certo, se ele ceder um centímetro, aparecem rachaduras. Se aparecerem rachaduras, elas irão crescer e tudo entrará em colapso. Se cometer um erro, Donal, um maldito errinho, o mundo inteiro cairá sobre você.

Ivan Locke

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Jornalista e crítico de cinema. Coautor do livrorreportagem Cine Belas Artes: Um Olhar Sobre os Cinemas de Rua de São Paulo. Acha O Poderoso Chefão o melhor filme do mundo, mas torce todos os dias para assistir a algum que o supere. Ainda não encontrou, mas continua buscando. E-mail: carlos@setimacena.com // Letterboxd: @CarlosCarvalho