Crítica: Manchester à Beira-Mar, de Kenneth Lonergan

Esse texto pode conter spoilers. Cuidado.

Cada indivíduo possui uma maneira de enfrentar o luto. Uns se cercam de amigos e familiares, outros se isolam, tantos outros tentam ocupar a cabeça com qualquer coisa ou pessoa que os faça apagar a ideia de perda. Enfim, não há um padrão, uma forma certa ou errada com que cada um lide com a perda de alguém querido. Manchester à Beira-Mar, longa escrito e dirigido por Kenneth Lonergan, traz como base de sua história justamente o luto. Lee Chandler (Casey Affleck) é um zelador/faz-tudo que recebe a notícia da morte de seu irmão mais velho, Joe (Kyle Chandler). Agora, ele precisa viajar até a cidade em que morava, Manchester-by-the-Sea, em Massachusetts, para cuidar das burocracias todas do funeral e assumir a tutela do sobrinho adolescente, Patrick (Lucas Hedges).

Com uma narrativa entrecortada entre momentos no presente e flashbacks inseridos sem seguir uma determinada ordem cronológica, o longa vai construindo o personagem de Lee, que atualmente é um cara praticamente inexpressivo e frio com todas pessoas com quem se relaciona. No entanto, como vemos nas imagens do passado, era uma figura mais irreverente e brincalhona, especialmente com o sobrinho ainda criança. Logo, vamos percebendo que há algo muito maior que apenas o luto pela morte do irmão. Um trauma do passado fez com que ele perdesse praticamente toda a vontade de seguir com sua vida, tornando-se o cara apático que acompanhamos no presente. Aos poucos, descobrimos que, por uma irresponsabilidade involuntária, ele acabou causando um acidente que tirou a vida de seus três filhos. Tragédia que ainda lhe faria se divorciar da esposa, Randi (Michelle Williams).

Com essa carga dramática pesadíssima, Lonergan soube dosar muito bem o clima de seu filme, intercalando momentos mais tristes com cenas mais bem humoradas, seja nos já citados flashbacks ou até mesmo no presente, já que Lee precisa lidar com a responsabilidade de cuidar de um sobrinho agora adolescente, que possui suas questões características da idade, como relacionamentos e as descobertas sexuais. Esse vai e vem temporal, a princípio, parece deixar o filme um tanto confuso no começo, mas ao longo de suas quase 2h20m o espectador vai se acostumando com isso e entendendo a proposta do diretor, que em certos momentos opta por contrapor momentos extremamente dramáticos com cenas mais leves, demarcando um grande contraste entre passado e presente.

Essa mistura agridoce do melodrama de Lonergan poderia não ter dado liga se não fosse bem costurada por atuações tão consistentes. Casey Affleck, que nunca foi um excelente ator, soube muito bem como dar vida a um personagem maltratado pelas circunstâncias trágicas pelas quais passou, bem como pelo clima gélido de sua nova cidade, Boston, e do porão claustrofóbico em que mora, de onde só vê o mundo real por uma janela mínima na altura do pátio externo, sempre coberto por um gelo que persiste em lhe atrapalhar o caminho. O jovem Lucas Hedges imprime uma inocência juvenil a Patrick, que combina perfeitamente com a relação postiça de pai e filho que agora terá de manter com o tio, que no passado lhe fora muito próximo e presente.

Kyle Chandler, apesar de não ter tanto destaque quanto talvez merecesse, passa a segurança de um irmão mais velho ao mesmo tempo em que demonstra a delicadeza de um jovem pai, características que dão solidez à decisão de transmitir a tutela do filho ao irmão mais novo depois de sua morte. E Michelle Williams, que rouba a cena nos poucos momentos em que aparece, mas em especial quando reencontra Lee e tem de enfrentar a dura realidade de reconhecer que foi injusta ao culpá-lo pela morte dos filhos e que depois de toda essa tragédia, ainda nutre um forte amor pelo ex-marido. Apenas essa cena já seria justificativa suficiente para lhe garantir uma indicação ao Oscar por esse papel, dada a emoção que a atriz consegue transmitir com sua personagem extremamente fragilizada.

Fugindo a todo momento de cair em clichês comuns a esse tipo de história, Lonergan consegue construir um ótimo estudo de personagem, que em meio a tanta tragédia e sua consequente apatia, precisa buscar forças sabe-se lá de onde para continuar seguindo em frente com a própria vida e sem deixar que o sobrinho fique desamparado diante de suas perdas. Ainda assim, o cineasta dá profundidade ao protagonista ao lhe permitir seguir vivendo seu luto da maneira que pode e consegue, sem lhe impor que assuma responsabilidades que ele, possivelmente, nunca conseguirá assumir por conta de toda sua história.

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Jornalista e crítico de cinema. Coautor do livrorreportagem Cine Belas Artes: Um Olhar Sobre os Cinemas de Rua de São Paulo. Acha O Poderoso Chefão o melhor filme do mundo, mas torce todos os dias para assistir a algum que o supere. Ainda não encontrou, mas continua buscando. E-mail: carlos@setimacena.com // Letterboxd: @CarlosCarvalho