MOSTRA SP: Um Alguém Apaixonado

Dois anos depois de fazer muita gente quebrar a cabeça com os jogos de espelho e o estudo do real e da ficção em Cópia Fiel, o cineasta Abbas Kiarostami retorna com Um Alguém Apaixonado, outro longa profundo e sensível, mas que também precisa da cumplicidade e, principalmente, da paciência do público para ser devidamente apreciado, já que não segue uma linha cronológica tradicional e conta com um final aberto.

Estas características fizeram com que boa parte do público vaiasse o longa durante a sua exibição no último Festival de Cannes. Atitude esta que provocou o seguinte comentário do cineasta iraniano na coletiva de imprensa da premiação francesa. “Meu filme não começa nem termina. E percebi que é isso o que acontece na vida também”.

Escrito e dirigido por Kiarostami, Um Alguém Apaixonado conta a história de Akiko, uma jovem japonesa que financia a faculdade trabalhando como garota de programa. Obviamente, ela esconde este detalhe de seu obsessivo e desconfiado namorado, o mecânico Noriaki, mas, logo no início do filme, percebemos que não será por muito tempo.

Em meio a uma movimentada boate de Tóquio, presenciamos uma conversa telefônica do casal. Os diálogos são tensos e confusos, e, em determinado momento, o rapaz pede para a namorada ir a um banheiro, escolher uma cabine e contar a quantidade de azulejos dela; assim, ele poderá checar este número depois e confirmar se ela disse a verdade ou não. Sentiram o drama?

Mas esta marcação cerrada de Noriaki não é gratuita, pois, para dar conta dos programas, Akiko mente para o rapaz, criando com isto uma verdadeira bomba relógio prestes a explodir a qualquer momento. Isto começa a acontecer quando a moça vai ao encontro de mais um cliente, o solitário (e idoso) professor de sociologia, Takashi, pois, o que era para ser um programa casual, acaba se transformando num relacionamento sensível, pautado por conversas divertidas e profundas sobre relações conjugais, experiências familiares e a cultura japonesa.

Contando com um roteiro bem construído, aliado a um elenco talentoso e convincente, Kiarostami consegue equilibrar os conflitos deste trio sem transformar a sua história num típico conto de fadas. Assim, o diretor tem a proeza de deixar críveis até mesmo as maluquices de Noriaki, já que, mesmo sendo extremista, o rapaz deixa claro toda a paixão que sente por Akiko e, se age de maneira precipitada, é porque acredita estar protegendo a moça dos males que uma metrópole da proporção de Tóquio pode causar.

Repleto de momentos profundos e poéticos (prepare-se para a cena de Akiko num táxi ouvindo as mensagens telefônicas deixadas pela avó), Um Alguém Apaixonado é um daqueles filmes que vai além do fim da projeção, permitindo assim que os espectadores tirem suas próprias conclusões sobre o destino dos personagens. Vale a pena conferir!


VEJA A NOSSA COBERTURA DA MOSTRA

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Jornalista, fã incondicional de Nick Hornby e coautor do livro inédito Cine Belas Artes: Um Olhar Sobre os Cinemas de Rua de São Paulo. Ainda não viu nada melhor que Asas do Desejo, de Wim Wenders... Mas Beleza Americana chegou perto. e-mail: cristiano@setimacena.com