Crítica: O Grande Mestre, de Wong Kar Wai

Sr. Ip, hoje eu te fiz famoso. No futuro, você enfrentará desafios a todo momento. Espero que seja como eu. Passe a tocha. Nunca desista da sua fé. Mantenha a luz acesa.

É com essas palavras que o mestre Gong Yutian, do norte da China, passa seu posto de grande mestre do kung fu para Ip Man (Tony Leung), um jovem do sul do país que aceitou desafiá-lo para assumir sua posição de respeito na classe dos artistas marciais chineses do período pré-Segunda Guerra e de invasão japonesa. Esse tom solene da fala de Gong permeia todo o longa de Wong Kar Wai que, quase 20 anos depois de Cinzas do Passado, volta ao subgênero do kung fu em O Grande Mestre.

Com uma narrativa que evoca a todo o tempo não apenas as memórias dos personagens, mas também da própria China nesse período de guerra, Kar Wai faz mais do que contar a história do lendário mestre Ip Man, mentor de Bruce Lee. Ele nos mostra a paixão que homens e mulheres pertencentes a essa cultura das artes marciais têm pela luta, que é muito mais do que o embate entre dois adversários, tornando-se tão belo quanto um balé de inúmeras escolas e estilos.

Com uma fotografia belíssima, além de movimentos de câmera e enquadramentos que valorizam muito mais os movimentos dos pés e mãos dos lutadores do que os confrontos em si, o cineasta – como sempre – proporciona um espetáculo visual hipnotizante, que nos carrega para dentro desse balé de precisão, respeito e honra.

Honra esta que é evocada pela filha do mestre Gong, Gong Er (Zhang Ziyi), que não aceita que o pai entregue a este jovem do sul o legado de sua arte, e o desafia para um combate a fim de, supostamente, resgatar a reputação de sua família. Ip Man aceita o desafio e, numa das mais belas cenas do filme, enfrenta Gong Er em uma luta com ares de flerte, que resultará num amor proibido e impossível entre os dois. Mais um dos temas recorrentes na filmografia de Kar Wai.

Separados pela guerra e pela honra – esta, fruto da solene cultura oriental, em especial das artes marciais –, Ip e Gong Er viverão esse amor em silêncio, mas cada um com sua busca: a dele, a de adquirir o conhecimento do estilo das 64 palmas, herdado por Gong Er; a dela, a de se vingar do algoz de seu pai – um discípulo que traiu a ele e a seu país –, abdicando de se tornar uma professora de kung fu e de se casar.

Por não se focar apenas na história de Ip Man, talvez o ponto fraco do filme seja justamente inserir personagens que parecem deslocados do núcleo principal da história, como o outro mestre conhecido como Navalha, que parece não fazer parte daquele círculo, embora deixe subentendido que teve sua importância nessa cultura, principalmente nesse período do pós-Guerra, ao criar uma escola onde transmitiu a outros seus ensinamentos.

É justamente nesta relação de professor e aluno, legado e ensinamentos, que tanto Ip Man quanto Navalha encontram uma forma de sobreviverem no pós-Guerra, criando escolas onde possam ensinar seus estilos e difundir essa arte para mais pessoas. Atendendo, assim – ainda que fora da apoteose daquele passado grandioso –, o pedido do mestre Gong Yutian a Ip Man, o de passar a tocha e manter a luz acesa.

Nota de rodapé: Muita gente talvez estranhe o fato de que em nenhum momento é citada a relação entre Ip Man e Bruce Lee, embora perto do fim a câmera de Wong Kar Wai dê destaque a um jovem aluno, o mais novo de sua turma. No entanto, é preciso ressaltar que isso é bastante coerente com o rumo que a própria história de Ip Man toma, o de não repassar seus ensinamentos a apenas um discípulo. Logo, ainda que Bruce Lee tenha sido seu aluno mais ilustre, seria leviano minimizar a importância de que seu estilo, o Wing Chun, foi ensinado a muitos outros.

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Jornalista e crítico de cinema. Coautor do livrorreportagem Cine Belas Artes: Um Olhar Sobre os Cinemas de Rua de São Paulo. Acha O Poderoso Chefão o melhor filme do mundo, mas torce todos os dias para assistir a algum que o supere. Ainda não encontrou, mas continua buscando. E-mail: carlos@setimacena.com // Letterboxd: @CarlosCarvalho